«Tive um jogo às quatro da tarde e ao meio-dia o estádio estava lotado»

A BOLA FORA 29-03-2021 08:28
Por Tânia Ferreira Vítor

Jogador, professor e treinador de futebol. A história de vida de Vítor Campelos, atual treinador do Chaves, que acredita que as pessoas que encontrou na vida não foram por acidente e uma história especial no Irão. 


- À hora que lhe ligo, o que está a fazer?
- Estou em casa. Acabei de ver dois jogos do adversário de segunda-feira [Penafiel]. Já tinha muitas informações, mas agora estava a rever alguns pormenores.


- O dia a dia de um treinador é muito mais preenchido do que o do jogador?
- Com certeza! Um jogador por muito profissional e comprometido que seja vai para casa no final do treino e pode desligar. Se for responsável, até pode ir ver alguma coisa sobre o adversário e analisar a forma como treinou, mas não tem essa obrigação. Vou dar o exemplo do dia de hoje [a entrevista foi gravada na quinta-feira]. Acordei às 8.15 h para chegar às 8.45 h - o treino começava às 10.30 h. Depois almocei, reuni com a equipa técnica para analisarmos a sessão de trabalho e para preparar o treino de amanhã. Há sempre muita coisa a ter em conta como jogadores que estão castigados, em risco ou lesionados. Depois vim para casa e estive a ver os dois jogos. Posso dizer que um treinador só tem tempo de descanso quando termina a época. E mesmo nessa altura, a cabeça já está a pensar na construção do plantel para a nova temporada.


- Quando não está a trabalhar, o que gosta de fazer?
- Sou um cinéfilo, adoro cinema - é uma das coisas que a pandemia nos tirou e da qual tenho saudades. Adoro ler, gosto de ouvir música. Mal acordo ponho logo música, tenho esse hábito. Também gosto de estar com os amigos e de caminhar.

 

- A sua infância e adolescência foi sempre na zona de Guimarães?

- Eu sou natural de Guimarães. Nasci a trezentos metros do Castelo e continuo a morar muito perto, os meus pais também. A minha vida esteve sempre ligada à cidade. Também joguei nas camadas jovens do Vitória até ir para a faculdade.
 

- E quando é que surge o interesse pelo futebol?
- Comecei a jogar nas escolinhas do Vitória aos nove anos, tinha uma paixão enorme por futebol e fiquei até aos juniores. Quando andava no 12.º ano, jogava no Vizela. Mas o ano letivo não me correu muito bem; baldei-me um pouco e o meu pai disse-me: ‘olha, o futebol acaba aqui, dedica-te aos estudos’. Mas o bichinho estava lá e foi por isso que segui a licenciatura de Educação Física para, mais tarde, pertencer a uma equipa técnica. Era esse o meu sonho.


- Como é que começou a carreira de treinador?
- O início da minha carreira é giro, porque foi um encadeamento de situações, foi como um puzzle. Um dia, estava com o meu pai em casa e apareceu um senhor, Manuel Miranda, para falar com ele. No meio da conversa, comentou que ia começar a treinar uma equipa da AF Porto, o Regilde que já não existe. Eu estava na faculdade e precisava de fazer um estágio, andava a ver se ia para as camadas jovens do Vitória ou do Vizela. Foi então que me convidou para ir com ele. Assim foi. À décima jornada, estávamos em segundo lugar atrás do Tirsense e os dirigentes despediram o senhor Manuel Miranda. Disseram que queriam que eu ficasse, que até duplicavam o meu ordenado, mas recusei. Enquanto estive na faculdade joguei no Serzedelo - foi a experiência depois do Vizela - e só parei para ir para o Regilde. Mas quando saí de lá, ligaram-me do Serzedelo. Queriam que eu fosse o treinador-adjunto da próxima época por causa do curso de Educação Física - o presidente era o senhor padre Antunes. Ainda não tinham treinador e eu recomendei-lhes o senhor Miranda com quem eu tinha começado. Eu estava no último ano do curso e entretanto fui colocado numa escola secundária de Famalicão para completar o estágio final - a D. Sancho I. Por sugestão da orientadora de estágio, comecei a ir almoçar, juntamente com os meus colegas, a um restaurante que tinha lá perto. Era do pai do Vítor Paneira. Ele jogava na Académica, mas costumava estar lá a ajudar. Começámos a falar de futebol e houve um dia que me disse: ‘ainda vai treinar comigo’. A história é longa [risos]…


- Força…
- E nesses entretantos, eu era e sou muito amigo do António Pedro que tinha sido colega de curso do José Gomes, o atual treinador do Almería. Um dia, estava com o meu amigo numa esplanada e o José Gomes passou com um rottweiller para o levar ao veterinário ao lado da minha casa - ele era criador de cães. O António Pedro apresentou-nos e a partir daí ficou uma ligação: trocámos alguns livros e ideias. Entretanto, acabou a época no Serzedelo, o senhor Miranda saiu e o senhor padre Antunes pediu-me uma opinião e eu sugeri o Vítor Paneira e ele aceitou - sabia que queria começar a treinar. À décima jornada, saímos e fomos para o Ribeirão. O Paneira tinha um amigo que costumava ir lá ver os treinos, era o senhor José António, roupeiro do Benfica no norte. Num treino, esse senhor comentou comigo que o José Gomes ia treinar o Paços de Ferreira. Passado uns dias recebi uma chamada dele. Felicitei-o: ‘Parabéns, ouvi dizer que vais treinar o Paços de Ferreira’. E ele disse-me: ‘Vamos!’. Falei com o Paneira e fui com o José Gomes. Seguiu-se o Aves, o Leixões, o Leiria, o Moreirense. E é nessa altura que o professor Jesualdo Ferreira está no FC Porto e convida o José Gomes. Eu andei uns dias a pensar no que iria fazer… Entretanto o telefone tocou e era o Toni a convidar-me para ir com ele para a Arábia Saudita - o José Gomes e o professor José Neto tinham-me indicado.


- Foram as primeiras aventuras no estrangeiro…
- Sim, foram muitos anos de aventuras. Primeiro na Arábia Saudita, depois nos Emirados, outra vez na Arábia e Irão. E foi a meio da época no Irão que o José Gomes me convidou para ir com ele para o Videoton da Hungria…
 

- O Toni não ficou chateado?
- Não. Mas decidimos que era melhor eu terminar a época, porque estávamos a lutar para ser campeões. Foi uma experiência fantástica. O Toni incentivou-me muito a começar como treinador principal. Dizia que eu estava preparado e que só tinha de acabar o quarto nível. Acabei e comecei a época seguinte como treinador principal da equipa B do Videoton.

 

- Podemos então dizer que os rottweilers tiveram um papel importante na construção da sua carreira [risos]?
- Talvez [risos]. Eu acredito muito em Deus e que o universo conspira a favor daqueles que acreditam. Tenho uma mente aberta e muito positiva. Já tive muitas provas que quando acreditamos numa coisa de coração e trabalhamos para ela, acaba por acontecer. E, como vê, as situações foram encaixando em catadupa e com pessoas que não conhecia de lado algum - apareceram na minha vida por acaso. Tirando o senhor Manuel Miranda que era conhecido, nunca imaginei trabalhar com o Toni, o Paneira ou o José Gomes.

 

- Depois regressa a Portugal para ficar à frente da equipa B do clube de coração, o Vitória de Guimarães.  
- Sim, depois tive essa experiência e foi muito gratificante. Fui muito feliz naquela casa.

 

- O projeto seguinte, Moreirense, correu tão bem que lhe abriu a porta do Oriente. É contratado para treinar o Al Taawon da Arábia Saudita, um mercado muito apetecível. Gostava de ter ficado mais tempo?
- Confesso que a minha ideia era ficar na Europa, porque a época no Moreirense estava a correr muito bem. Quando saí, à décima quarta jornada, tínhamos dezassete pontos e estávamos a dois da Europa. Mas surgiu o convite do Al Taawon… Confesso que fui um bocadinho pressionado pelos meus assistentes para aceitar. Mas uma coisa que me despertou o interesse foi o facto de a equipa estar a disputar a Liga dos Campeões Asiáticos, uma grande montra. Estava a correr muito bem, estávamos em primeiro na fase de grupos até que surgiu a pandemia e viemos para Portugal.

 

- Imagino que teve de moldar as sessões de trabalho às diferenças culturais e religiosas. Foi difícil?
- Como já tinha tido a experiência com o Toni, foi mais fácil, conhecia a religião e a cultura árabe. Mas há princípios que são básicos: o horário dos treinos não pode coincidir com o das rezas e outra coisa que influencia muito é a temperatura. Há alturas do dia em que é impossível treinar, é um calor extremo.

 

- Sentiu falta do profissionalismo europeu ou a estrutura do clube era boa?
- Para ser sincero, senti que as coisas já estavam muito mais próximas daquilo a que estamos habituados. Na Arábia Saudita, as equipas podem ter sete jogadores estrangeiros; o Al Taawon até tinha alguns que já jogaram em Portugal. A própria estrutura já é interessante para um clube árabe. Acredito que isso se deva ao facto de ter tido vários treinadores portugueses nos últimos anos: o José Gomes, o Pedro Emanuel e o Paulo Sérgio. Eles fizeram com que as pessoas do clube tomassem consciência da importância de certos aspetos no treino. Posso dizer que é um clube à imagem do que existe na Primeira Liga.


- O convite do Desportivo de Chaves veio na altura certa? Estava nos planos regressar a Portugal?
- Depois de chegar da Arábia houve algumas situações do estrangeiro que estiveram quase a acontecer, mas que por um motivo ou outro não avançaram. Aceitei o desafio do Chaves e estou contente com o trabalho que temos desenvolvido. Estamos focados no jogo a jogo e no fim da época vamos fazer as contas.

 

- A equipa ocupa o quinto lugar da tabela classificativa a seis pontos do terceiro, a Académica. O stress aumenta nesta fase do campeonato?
- O stress é igual, está sempre presente. Um treinador vive constantemente com pressão e ansiedade para que as coisas corram bem. É uma responsabilidade grande, mas com a qual lido bem. Sinto-me pronto e motivado para fazer aquilo que eu consigo controlar que é preparar os treinos, os jogos e é isso que vamos continuar a fazer da melhor forma até ao final da época.


- Como se define enquanto líder de um grupo?
- Há uma coisa gira. Lembro-me que aos dezoito anos já tinha os horizontes alargados. Eu dizia para mim próprio: ‘Guimarães, zona norte, Lisboa, isto é tudo muito pequeno para mim; eu preciso de ir para fora para abrir horizontes, conhecer novas culturas e pessoas.’ Comecei muito cedo a buscar respostas para as minhas questões: ‘o que é que eu andava aqui a fazer’? Nasci com algum propósito com toda a certeza. Fiz alguns cursos e depois de algumas reflexões, cheguei à conclusão que Deus me deu a oportunidade de ser treinador para que pudesse ajudar os jogadores a evoluir, mas sobretudo para que pudessem ser melhores pessoas e melhores seres humanos. Quando eu chegar ao fim dos meus dias - espero que daqui a muito tempo - quero perceber que acrescentei valor. Enquanto líder sou extremamente perfeccionista e organizado. E quando a pessoa é assim, seja em que profissão for, acaba por ser muito exigente com os outros. Por isso, tenho uma liderança com liberdade, mas com máxima exigência no rigor e no detalhe.


- É difícil encontrar o equilíbrio perfeito na relação com o jogador?
- Eu sou próximo dos jogadores, mas eles têm de ser responsáveis. Quando estamos a liderar uma equipa, somos líderes, mas também companheiros de trabalho. Trabalhamos todos para o mesmo objetivo. Mas é claro que há hierarquias e os jogadores têm de perceber quem é o treinador.


- E já teve jogadores que passaram as marcas?
- [pausa] É difícil de responder. Um ou outro já se esticou mais um pouco e nessas alturas tive que tomar as medidas que achei mais adequadas.


- A maioria das escolhas e decisões do treinador é baseada em factos e em razão. Mas haverá parte delas que será por sentimentos ou intuição? Ou porque se simpatiza mais com um ou se acha que se deve puxar mais pelo outro?
- No futebol podemos fazer analogias com a vida. No meio de um plantel que tem 25 jogadores com personalidades totalmente diferentes é natural que tenhamos empatias. Quando um treinador escolhe um jogador, recolhe o máximo de informação e não me refiro só à técnica ou tática. Cada vez é mais importante fazer uma apreciação enquanto pessoa e ser humano - o caráter, a personalidade e a formação do atleta são muito importantes. Mas o que disse é verdade… Tanto na escolha dos jogadores, como durante o jogo, às vezes é a nossa intuição que fala mais alto e que nos leva a tomar certas decisões. Acho também que a intuição vai-se aprimorando com a experiência.

 

«Não concordo quando alguém diz que no futebol está tudo inventado»


- Quando se treina em Portugal vive-se obcecado em chegar a um grande?
- No meu caso, não. Não vivo obcecado em chegar a um grande, vivo obcecado por trabalhar bem e para que as minhas equipas passem uma boa ideia de jogo. E depois para que os jogadores possam evoluir. A maior publicidade para um treinador é o sucesso dos seus jogadores.


- É o tal propósito de vida?
- Exato! Acho que é algo que é intrínseco…Quando digo que quero ajudar a potenciar jogadores não me refiro só aos jovens, a idade para mim é indiferente. Há jogadores que estão quase em final de carreira e dizem-me que estão a aprender determinados aspetos pela primeira vez. Acho que cada vez mais o treinador tem de ensinar alguma coisa ao atleta, explicando o porquê. Atualmente, os jogadores são mais evoluídos e gostam de saber o porquê das coisas, o porquê de se insistir num determinado exercício. E aí o treinador tem de estar preparado para dar respostas.  


- Há algum clube que sonhe treinar?
- Já estive num clube que me diz muito e do qual sou sócio desde que nasci que é o Vitória. Tive a oportunidade de fazer um jogo na equipa principal numa altura de transição. Gosto muito do Vitória, tenho de ser sincero, mas acima de tudo sou profissional. O meu verdadeiro sonho é treinar em Inglaterra e sei que um dia irei lá chegar.


- Que referências tem como treinador?
- As minhas referências são os treinadores com quem tive o privilégio de trabalhar e o José Mourinho pelo que alcançou e pelas portas que abriu aos treinadores portugueses. Mas sigo muitos colegas, estou atento, até porque o futebol está sempre a evoluir. Não concordo quando alguém diz que no futebol está tudo inventado.


- Divulgou o lançamento das suas redes sociais e do site. A ideia foi sua?
- Sim. Era uma coisa que eu já queria ter feito há mais tempo. Acho que as redes sociais são uma ferramenta importante para se chegar aos adeptos e a quem gosta de futebol. O futebol é global. Posso estar aqui agora, amanhã estar do outro lado do mundo e isto ajuda a aproximar as pessoas.


- E por falar em redes sociais: os seus jogadores podem ter o telemóvel no balneário?
- Vou falar agora no Chaves: a partir do momento em que os jogadores entram no balneário, não podem utilizar o telemóvel. É uma medida para promover o convívio. Noto que há uns anos havia mais interação e mais brincadeiras. Agora, nos estágios, mal acabam de almoçar ou jantar, cada um quer ir logo para o seu quarto. E acho que é muito importante voltarmos ao espírito que havia antigamente: os jogadores conheciam-se melhor, conheciam as famílias e eram unidos. E essa união depois reflete-se dentro de campo.  


- Se tivesse a oportunidade de repetir um jogo, qual é que escolhia?
- Quando estava no Tractor com o Toni: o Tractor vs Al Jazera para a Liga dos Campeões Asiáticos. No estádio estavam 100 mil adeptos, fora mais 10 mil. O jogo foi às quatro da tarde e ao meio dia o estádio estava lotado. Foi inacreditável!

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