As aventuras de Cássio na Arábia: «Quando me despia eles fechavam os olhos»

Arábia Saudita 23-03-2021 13:13
Por Pedro Cadima

Após 10 épocas em Portugal, passando por Paços de Ferreira, Arouca e Rio Ave, o guarda-redes Cássio, agora com 40 anos, vive a terceira época na Árabia Saudita, no Al Taawon. Com uma história e um trajeto profundamente meritório em Portugal, o brasileiro foi atrás da independência financeira, abraçando um convite irrecusável. A expressão das arábias cola na perfeição num assalto a um mundo Inóspito, com contrato chorudo perante uma realidade desafiante. Até porque foi parar a um clube de uma cidade, Buraida, considerada a mais conservadora do país, que tem, por sua vez, um dos regimes mais estritos do mundo. E onde as mais fundamentalistas tradições muçulmanas são tão claras como impostas.

 

«Aqui é uma cultura completamente diferente. Estou a finalizar a terceira temporada. Vim com a minha família. Não foi fácil, porque ainda para mais veio a pandemia. Imaginem estar no mais país mais fechado, dentro desse país estar na cidade mais fechada da Arábia Saudita, e ainda levar com uma pandemia pelo meio. É claro que passamos momentos bem complicados, de estar preso em casa, de não saber quando poderíamos voltar a Portugal, e, já estando cá, quando seríamos autorizados a reentrar na Arábia Saudita. Posso dizer que o final da temporada passada e toda esta se revelaram um grande desafio de vida», confessa Cássio.

 

«De resto a vida de futebolista não difere muito do que tinha em Portugal, é mais os horários, treina-se e joga-se à noite por causa do calor. Há, sim, uma cultura muito mais apertada para minha mulher e minha filha. É tudo muito mais restritivo. E agora está perto o ramadão. Se já era tudo fechado, agora ainda vai agravar mais, ficará tudo fechado durante o dia», desabafa Cássio, em adaptação progressiva.

 

«Futebolisticamente estou feliz, renovei por mais dois anos, o clube vive uma boa fase, está nas meias-finais da Taça e em 4º no Campeonato, perto das equipas da frente. Mas aqui muda tudo muito rápido, temos que estar sempre despertos», avisa o guarda-redes, de 40 anos, descrevendo algo mais do limitado acesso em Buraida e o rígido contexto cultural.

«Como disse é o reduto mais fechado da Arábia Saudita, é o centro do país. Não tem nada que fazer aqui, só tradições e rezas. Para ver algo e comprar algo, ir por algum lazer, tenho de viajar a Riade, Jeda ou Damã. Em Buraidah a minha mulher tem de andar o teu tempo todo de abaya, integralmente de preto, e ainda colocar o lenço na cabeça. Em Riade e Jeda já se podem ver mulheres sem toda essa roupa tradicional. E há bom lazer. Mas também já nos acostumámos à nossa cidade, temos o básico e o clube oferece boas condições», garante, explicando também a complexa integração no grupo do Al Taawon.

 

«Em termos de balneário sofri um pouco nos primeiros três meses. Senti a desconfiança dos jogadores sauditas, muito religiosos, rigorosos nos horários das rezas. Quem chega de fora tem de ganhar rápido essa noção. Eles rezam antes, durante e no final de um jogo. Os treinos têm que ter horários que não coincidam com as preces. Quando coincidem, o treino tem de parar 5 minutos, por sinal de respeito. Não rezam mas param. Lembro-me que tudo isso mexia com a minha cabeça, depois fui-me habituando», relata, brincado com o impacto de alguns comportamentos. As ondas de choque provocadas!

 

«Eles, de resto, são simpáticos, gostam de uma boa brincadeira. Mas somos nós que nos temos de adaptar a eles. Hoje dá para rir, mas eles não gostavam nada. Vinha de Portugal habituado no balneário a trocar de roupa e ficar nu diante de outros colegas. Ali isso é grosseiro, tens de te trocar numa cabine, tens de tomar banho numa cabine individual. Quando ficava despido no início à frente deles, eles ficavam logo embaraçados ‘não podes, não podes’ e fechavam os olhos. Mas se hoje fizer isso na brincadeira eles já toleram e brincam um pouco», conta.

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