«Imagina o povo a querer beijar-te a toda a hora» - Paulo Sérgio

A BOLA FORA 21-02-2021 16:15
Por Tânia Ferreira Vítor

Depois de ter passado os últimos anos da carreira em campeonatos exóticos - Singapura e Indonésia - o atacante de 37 anos está livre e quer continuar a jogar. 

 

- À hora que te ligo, o que estás a fazer?

 

- Estava a passear o cãozinho com a mais  pequenina.

 

- Como é que está a tua situação? Estás em Lisboa, certo?

 

- Sim, neste momento sou um jogador livre. Cheguei a acordo com o Bali United para rescindir. Por causa do Covid-19 eles alegaram que podiam pagar só 25 por cento do contrato e eu não aceitei. Falei com o Sindicato dos Jogadores, que me ajudou, o clube não quis ir para tribunal e chegámos a acordo. Tinha mais um ano de contrato.

 

- E continuas com vontade de jogar futebol ou estás a pensar pendurar as botas aos 37 anos?

 

- Tenho vontade de voltar ao ativo, sabendo que em Portugal será difícil. Sabes como é…  Aqui a partir dos 30 começam a dizer que o jogador é velho. Eu até posso compreender que a política dos clubes seja apostar nos miúdos, mas acho que deviam equilibrar os plantéis. É claro que gostava de voltar a jogar no meu país, mas o que quero mesmo é voltar à competição,  não quero parar já. Recebi algumas abordagens da Indonésia, porque eles querem recomeçar o campeonato entre junho e julho.

 

- Quero felicitar-te pela conquista do título. Em dezembro sagraste-te campeão da Indonésia pela segunda vez - a primeira com a camisola do Bali United…

 

- Na Indonésia, em quatro anos fui campeão duas vezes. Este ano foi diferente, porque a liga não acabou. Ainda faltavam quatro jornadas, mas decidiram antecipar o final por causa da pandemia - íamos em primeiro com um ponto de avanço.

 

- Estás há sete anos no sudeste asiático. Como é que vais lá parar?

 

- Foi engraçado. A seguir ao Olhanense tive umas propostas, mas os empresários andam sempre aí tipo sanguessugas e não trazem nada. Inclusive tive propostas de Portugal que rejeitei porque tinha promessas tentadoras de ir para ali e para acolá. Fui acreditando nas pessoas, na minha boa-fé, e acabei desempregado. E foi nesse contexto que surgiu a possibilidade do Brunei. O meu primeiro clube foi o DPMM, que competia na liga de Singapura. O treinador dessa equipa era o Steve Kean, antigo jogador da Académica. Ele tinha um amigo português que me ligou a dizer que gostava de contar com os meus serviços. De desempregado passei a jogador da equipa do príncipe do Brunei. Desconhecia a liga de Singapura e nunca tinha ouvido sequer falado do Brunei, mas abracei a experiência e foi engraçado. E a partir daí dei continuidade ao meu projeto pela Ásia - a seguir fui para o campeonato da Indonésia.

 

- E a tua família acompanhou-te sempre. Vês estas experiências como oportunidades únicas para as tuas filhas?

 

- Por um lado, sim, porque dão uma bagagem grande para o futuro, mas por outro sei que elas sofreram um bom bocado. Tiveram de adaptar-se a novas línguas, novas escolas e isso não é fácil.

 

- E o regresso à escola em Portugal - ao próprio país - também acaba por ser uma mudança…

 

- Como estamos neste impasse de voltar ou não para a Ásia tem sido complicado. A pequenina anda no 3.ºano, começou em janeiro na escola portuguesa e até está a correr bem, mas com a mais velha é difícil porque já está noutra fase. Terminou o 9.º ano inglês e tem algumas dificuldades com a língua portuguesa, tem sido difícil acompanhar o programa daqui. Mas esta é a nossa vida e tudo o que temos feito é para proporcionar-lhes um futuro melhor.  Elas têm sido umas guerreiras. A adaptação nunca é fácil, porque temos estado em sítios com culturas muito diferentes, mas também muito enriquecedoras e esse é o lado bom. As minhas filhas são positivas, super alegres e isso dá-me mais alento para continuar a dar o meu melhor.

 

- Numa visão de turista, viver em Bali - um dos destinos mais cobiçados do mundo - parece um sonho. E para um residente permanente?

 

- Quando as pessoas falam em Bali pensam que aquilo é um paraíso, mas depois não sabem o outro lado [risos]. O país é muito sujo, muito mesmo, para não dizer nojento. O jeito deles comerem… Foi difícil adaptar-me. Mas depois tem partes maravilhosas: o facto de vivermos numa vila que é só bicharada por todo lado,  lagartos e lagartixas com fartura; o facto de  termos de andar de mota, porque é impensável ter carro devido às ruas serem muito estreitas.  Foi uma aventura! Adorámos. Na alimentação tens uma oferta enorme porque há muitos estrangeiros. Gostámos mais de Bali do que Jacarta.

 

- Porquê?

 

- Em Jacarta a vida é mais triste, a cidade é muito cinzenta por causa da poluição. Muita gente não tem noção do tamanho da Indonésia, mas são mais de 240 milhões de habitantes. Por exemplo, quando tínhamos de ir jogar a Papua - que fica ao lado da Nova Guiné - demorávamos oito horas de avião. O país é enorme, tem uma beleza incrível, mas lá está, as pessoas vão quinze dias e vêm embora; nós fomos para ficar e aí é diferente. Há muita pobreza e as pessoas passam dificuldades.

 

- Andavas na rua tranquilo? És um ídolo do futebol indonésio…

 

- Sou porque as coisas correram-me bem, senão já me tinham despachado. Em Jacarta fui campeão e o melhor jogador do ano; em Bali também fui campeão e o melhor da liga. A melhor parte é que ia a qualquer sítio comer e não pagava [risos]. Mas eles são muita chatos, poça… Chatos no bom sentido, porque são muito afetuosos. Eles têm o hábito de dar beijinhos, então imagina o povo todo suado a querer beijar-te a toda a hora na rua. Aquilo que não passei em Portugal passei fora [risos].

 

- Nunca deves ter imaginado ser uma estrela num país tão distante…

 

- Nunca nos meus sonhos. As coisas foram acontecendo naturalmente e digo-te com sinceridade: fui muito feliz. É um povo querido ao qual devo muito. Quando surgiu a proposta, sabia que ali ia sentir-me outra vez jogador. Em Portugal só os grandes é que enchem os estádios, lá até equipas que lutam pela manutenção lotam o estádio - é impressionante. Eles adoram futebol e são muitos. Tínhamos sempre mais de 30 mil adeptos.

 

- E qual é que foi a primeira impressão do país?

 

- Assim que eu aterrei, fiquei logo com vontade de apanhar o primeiro voo para Portugal. Do aeroporto até ao hotel eram uns vinte minutos sem trânsito, demorei duas horas e meia. Assim que cheguei ao hotel liguei à Vera a chorar e disse-lhe: não faças as malas que eu vou-me já embora. As condições de treino eram horríveis: tomava banho com um balde. O treinador é que me aguentou ali e ainda bem, porque no final valeu a pena. Depois começámos a gostar daquilo e a habituar-nos às situações e ajuda quando as coisas correm bem. Na primeira época fomos logo campeões num clube que existia só há dois anos.

 

- A nível financeiro, é um campeonato atrativo? Os clubes pagam certinho?

 

- Para mim, a nível financeiro compensou muito. Há clubes que falham algumas vezes, mas se a equipa estiver bem não há nada a dizer. E eu tive sorte nesse aspeto. Fui ganhar mais do que em Portugal, todos os meses o dinheiro caía na conta e ainda havia prémios. Imagina estar fora e não estar a receber? Estive no Chipre e fiquei quatro meses a arder. Tive de meter o clube em tribunal e isso dá muitas chatices. É mau ter esse comportamento com os clubes, mas temos de olhar pela nossa vida. Na Indonésia nunca tive problemas a não ser esta abordagem da redução dos salários por causa do vírus - foi com todos os jogadores. Se não fosse isso, penso que teria ficado até aos 40 anos.

 

- As publicidades devem ter um peso enorme nas receitas…

 

- Sim, alguns têm dois milhões de seguidores nas redes sociais - os gajos são loucos por futebol. Mas penso que houve um aproveitamento da situação, porque os clubes são ricos, aquilo é só máfia.

 

- E a qualidade do futebol?

 

- As pessoas podem pensar que é fraca, mas estão enganadas. No ano em que eu fui, assinaram jogadores de renome por cada equipa: o Carlton Cole que estava no Chelsea, o Essien do Chelsea, o Peter Odemwingie do West Ham. Eles tinham o marketing player, isto é, cada clube podia ir buscar um jogador conhecido, uma estrela. No meu clube, por incrível que pareça, fui eu. Isto é um sinal de que eles querem evoluir. A liga é muito difícil, são rápidos e agressivos. Os árbitros deixam jogar e é porrada a torto e a direito. Quando eu cheguei à Indonésia estava numa equipa da polícia e o boss queria mandar-me embora. Aquilo não tinha organização nenhuma, mas era um andamento tal que o boss virou-se para o treinador e disse: ‘o Paulo não tem condições para jogar aqui’. Eu estava meio escaldado com o impacto inicial do país e disse: ‘Ó mister, deixe-me ir embora, eu devolvo o dinheiro’. O treinador acreditou em mim e incentivou-me. Fui o melhor jogador do ano. Agora esse boss quer-me a toda a hora na equipa dele.

 

- Em Jacarta, a religião predominante é o islamismo, mas em Bali é o hinduísmo. A diferença religiosa faz-se notar na ‘vibe’ da cidade?

 

- Muito. Em Jacarta havia uma mesquita ao lado do campo de treinos. Assim que batia a hora da reza, o treinador parava imediatamente para os jogadores muçulmanos rezarem. A cidade está cheia de mesquitas que fazem um barulho enorme. É chato porque as rezas são cinco vezes por dia. Nós vivíamos numa zona muito porreira, mas de vez em quando acordávamos com o barulho das rezas nos altifalantes a meio da noite. Apanhei grandes sustos [risos]. Em Bali é um sossego. Os hindus têm muitos rituais e muitas festas, mas não fazem barulho. Quando me mudei para Bali dizia à Vera: ‘parece que ainda oiço os gajos a rezar’[risos].

 

- E lembras-te de algum ritual típico?

 

- Os balineses têm dois ou três dias por ano em que não podem andar de mota nem de carro. As casas têm as luzes apagadas e aquilo fica uma ilha fantasma. Mas é uma experiência indescritível quando olhas para o céu e não vês poluição. Num desses dias pegámos na mota para ir ao supermercado. Os locais começaram a gritar, a dizer para irmos embora por estarmos a desrespeitar a fé deles. Depois lá me conheceram e perceberam que não foi por mal, ainda não conhecia o ritual.

 

- A Indonésia é um dos países com  mais desastres naturais. Dizem que há pequenos terramotos todos os dias, sendo que a maioria não é notada. Já apanharam algum susto?

 

- Felizmente eu nunca senti nada. Mas, no segundo ano, quando estava a caminho de um jogo, a Vera apanhou um cagaço enorme. Ela até fugiu do prédio, disse-me que viu o apartamento a abanar… No ano antes de eu chegar a Bali, houve um terramoto enorme. Aliás, a casa para onde eu fui tinha várias rachas nas paredes por causa desse terramoto.

 

- Fazes partes de uma das gerações mais incríveis de sempre - a de Cristiano Ronaldo, Ricardo Quaresma, Hugo Viana. Quais são as melhores recordações que tens desses tempos?

 

- Só tenho recordações boas, principalmente desde o meu último ano de juvenil até ao segundo ano de júnior. Vivemos ali coisas maravilhosas. Era uma coboiada do caneco no autocarro, só fazíamos porcaria uns aos outros. E fico imensamente feliz por ver o sucesso que os meus colegas tiveram, independente do meu caminho ter sido diferente. Fico honrado por ter feito parte do crescimento deles. Às vezes reencontramo-nos, lembramos aqueles tempos e é giro.

 

- Continuas a seguir o Sporting, onde foste formado?

 

- Olha, eu sou benfiquista. Toda a malta do Sporting sabe que sempre fui do Benfica. É lógico que tenho um carinho especial pelo Sporting, porque foi lá que me formei como jogador e homem. Apesar de ter uma mágoa, sou grato ao clube por tudo. Fico feliz por estarem a passar esta fase positiva. Têm qualidade, estão a fazer um excelente campeonato, merecem estar na posição que estão e acredito que vão ser campeões.

 

- O David Simão - antigo colega no Arouca -  contou-me um episódio que envolve um Audi A3 e o relvado do campo de treinos...

 

- [risos] O sacana é que foi o culpado e eu é que me ia lixar. Então foi assim: eu dava boleia ao David depois do treino. Um dia ele disse-me: ‘Ó baixinho, tu não és capaz de entrar com o carro na relva’. Ele começou-me a picar, a picar e olha… O parque de estacionamento era mesmo ao lado do campo de treinos e eu pensei: ‘Não imagino que vou fazer isto’. Olha, dei lá uns peões e fomos embora. No dia seguinte, fui chamado ao confessionário e queriam rescindir comigo. O Sindicato é que me ajudou. Estraguei a relva e tive de pagar.

 

- Se tivesses oportunidade de voltar a jogar um jogo, qual é que escolhias?

 

- Benfica-Académica, logo a seguir à morte do Miklos Fehér. Nunca mais esquecerei aquela atmosfera, a homenagem que fizeram. O estádio estava completamente cheio e as camisolas dos jogadores do Benfica tinham o nome dele. Troquei de camisola com o João Pereira e emociono-me sempre que olho para ela.

 

Mota, lagartixas e lições de vida

 

A transferência de Paulo para o outro lado do globo nunca foi desculpa para Vera não acompanhar o marido - estão juntos há 20 anos,  conheceram-se no centro de estética onde ela trabalhava. Diz que tudo valeu a pena - a família primeiro - e que a experiência não desiludiu.

 

«A Indonésia é um país fantástico. Jacarta é uma cidade enorme onde vi coisas incríveis como um centro comercial com três prédios. Há muita gente na rua, muita poluição no ar. Em Bali parece que estás noutro mundo. O dia a dia é muito leve e relaxado. Os hindus são mais livres e tolerantes. Vivem e são felizes com muito pouco. Vês muita pobreza, mas cada dia é uma lição de vida porque não vês tristeza. Fiquei encantada!», garantiu.

 

A mota passou a ser o meio de transporte da família, em Bali. «Nunca tinha andado de mota, mas no primeiro dia percebi que tinha de aprender rápido para sobreviver ali. O Paulo emprestou-me a dele para treinar e no dia a seguir comecei a levar as miúdas à escola de mota. Ali não dá para andar de carro. As estradas são estreitas e não são alcatroadas. Em Bali só há uma via rápida que é a Sunset Road, não há autoestrada. Também não há prédios, só vilas. Até descobri uma prima que constrói casas em Bali. O mundo é pequeníssimo. A construção não é maravilhosa como cá, as casas não têm o mesmo conforto e as lagartixas entram e saem a toda a hora. Curioso é o facto dos hindus estarem sempre em festa. Fazem anos muitas vezes. Ria-me muito com eles», lembra, divertida. 

 

A única coisa que para já não tem saudades é do clima. «Em Portugal temos as quatro estações, na Indonésia todos os dias é calor e mesmo que chova é quente e muito húmido - satura muito.»

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