Anders Vejrgang: o miúdo prodígio do FIFA (mas que já perdeu com portugueses)

Jogos 10-02-2021 20:10
Por Rui Miguel Melo

O desporto é feito de mitos e lendas. Na NBA, os Boston Celtics ganharam oito campeonatos seguidos, enquanto os San Antonio Spurs foram 22 vezes consecutivas aos play-off; no ténis, Rafael Nadal é o senhor da terra batida e, de 2005 a 2007, venceu 81 encontros seguidos naquela superfície; até no Wrestling o The Undertaker esteve 21 combates sem perder na Wrestlemania. Não vamos comparar um simulador de futebol numa consola a estes desportos, mas a comunidade do FIFA assiste a um fenómeno emergente, Anders Vejrgang, um adolescente dinamarquês de 15 anos (quando começou a streak tinha 14) que vai em 510-0 em jogos de FUT Champions.

 

Todos os fins de semanas, jogadores de FIFA em todo o mundo, sejam profissionais ou apenas fãs do simulador, jogam na Weekend League, uma liga de 30 partidas no Ultimate Team, o modo mais popular do jogo. Neste modo, os jogadores constroem uma equipa ao longo do ano com cartas de diferentes futebolistas, sejam craques do futebol atual ou lendas do passado. Se um jogador vencer 27 dos 30 jogos fica automaticamente credenciado para os campeonatos do FIFA21 Global Series, os torneios organizados pela Eletronic Arts com chancela da FIFA. Mas o dinamarquês Anders Vejrgang, jogador da equipa de eSports do RB Leipzig, não pode participar nos torneios da FIFA por não ter idade. Só o poderá fazer quando completar 16 anos depois da inscrição. Na Weekend League, a streak de Anders vai em 510 vitórias seguidas, muito mais do que o recorde anterior, do inglês Shaun ‘Shelzz’, que, no FIFA 18, conseguiu 298-0. As transmissões em direto do dinamarquês na Twitch (plataforma que permite transmitir os jogos em stream) chega às 55 mil pessoas ligadas em simultâneo. Antigos campeões do Mundo, como o alemão MoAuba (em 2019), foram goleados pelo dinamarquês.

 

«A visão de jogo dele e a antecipação são incríveis. Parece que ele sabe sempre o que o adversário vai fazer antes mesmo do adversário se decidir. Ele quer gerir a velocidade do jogo, pressiona alto constantemente. Ele, simplesmente, não suporta não ganhar», contou Daniel Fehr, manager do RB Leipzig Gaming, ao L’Equipe.

 

 

Anders participa em torneios fora da égide FIFA, e aqui já defrontou portugueses. Dois já lhe ganharam, e um deles surpreendeu-o. Vejrgang defrontou profissionais lusos, como João Oliveira (JOliveira10), Tiago Pires (Darkley) e Gonçalo Pinto (RastaArtur). Este último, um dos melhores de sempre do jogo em Portugal, ganhou um jogo e perdeu outro. Bernardo Figueiredo, jogador de eSports do SC Braga, enfrentou o prodígio e ganhou-lhe na Blacki Cup, um torneio particular organizado com organização alemã.

 

«Estava numa chamada com o meu treinador do SC Braga e vi no sorteio que podia jogar contra ele na terceira ou quarta ronda. Queria ver se era tão bom como diziam. Toda a gente fala dele. Sabia que ia ser difícil», conta Bernardo Figueiredo, a A BOLA.

 

O jogador do SC Braga ganhou por 4-3. Na primeira parte chegou aos 4-0. «Experimentei uma tática mais ofensiva, muitos jogadores pelo meio, em 4x4x2, a recuperar a bola, com contra-ataques rápidos e tabelinhas. Apanhei-o de surpresa», continua Bernardo Figueiredo. O prodígio dinamarquês reagiu e mostrou a estratégia que provoca tantas derrotas aos adversários e que leva o resto da comunidade FIFA a ficar espantada com a noção do jogo.

 

«Subiu linhas, jogou em pressão, parece que não há linhas de passe. Joguei com outra câmara, uma mais ampla para ver o campo todo, mas não tinha linhas de passe. Uma pressão constante, juntamente com a pressão manual e a troca de jogador. Era complicado sair, tinha de atirar a bola para fora», sorri o jogador bracarense. Anders reduziu para 3-4, mas, felizmente para Bernardo Figueiredo, o jogo terminou com 4-3. O jogador do SC Braga recebeu os parabéns do adversário e de vários outros jogadores. O clube assinalou logo o grande resultado do atleta.

 

 

RB Leipzig não se conforma

Os torneios presenciais da FIFA estão suspensos desde fevereiro do ano passado devido ao Covid-19. Tudo é jogado online, mas o RB Leipzig não se conforma com a proibição de idade. Os alemães estão a tentar uma alteração de regulamentos junto da EA e FIFA. «Estamos a negociar uma autorização. Já lhes dissemos que não sabem o que estão a perder. O Anders é o maior talento de FIFA no Mundo», declarou Daniel Fehr, manager do RB Leipzig Gaming, ao L’Equipe. «Por que há um limite de idade num simulador de futebol e jovens de 13 anos podem competir no Campeonato do Mundo de Fortnite? O talento é que tem de decidir», acrescentou Fehr.

 

Até lá, restam os particulares e aumentar a streak na Weekend League. No último fim de semana, Diogo Jota, ainda a recuperar de lesão no Liverpool, fez um 30-0 no FIFA 21. Num jogo marcado por problemas de handicap e que sofre com más ligações de internet (o que leva os jogadores quase à loucura), uma série de 510-0 é ainda mais impressionante do que a qualidade da Internet na Dinamarca. A maioria dos adversários desiste no início do jogo, quando já está a perder e percebe que não tem possibilidades de dar a volta.

 

«510-0 no FUT Champions é surreal. Esse torneio nem sempre é a melhor forma de manter o nível. Podemos apanhar um grande jogador. O meu recorde foi de 90-0», sublinha Bernardo Figueiredo. O que mais impressiona o jogador do SC Braga é a forma como Anders Verjgang se adapta às atualizações do jogo.

 

«Falava-se muito dos steppovers dele, a finta das bicicletas em que o jogador passa por cima da bola. Ele fazia isso constantemente, essa finta dava um boost de velocidade ao jogador. A EA corrigiu isso numa atualização, ficou mais lento. Disseram que o Anders ia acabar com esse patch, ele provou que não», explica o jogador bracarense.

 

Jogar FIFA ou futebol?

A grande dúvida na comunidade é o que conseguirá fazer Anders Vejrgang quando for autorizado a competir na FIFA Global Series. Nem todas as versões do simulador são iguais, e restam dúvidas sobre o que poderá fazer o dinamarquês contra os melhores do Mundo, como o inglês Donovan Hunt (Tekkz) ou o saudita Mosaad Aldossary (Msdossary). A idade não é problema para quem joga, e os profissionais não julgam os profissionais pela data de nascimento. E o mais incrível é que o dinamarquês gosta muito mais das consolas do que do futebol de verdade. «O FIFA é um simulador de futebol, mas tem muita coisa que difere do futebol verdadeiro. Quem tenta jogar futebol no FIFA não tem resultados. Temos de explorar a ‘meta’ do jogo, o que é ‘bugado’ e mais forte. O FIFA é um jogo de ‘skills’. Por exemplo, quem tenta fazer o tiki-taka do Barcelona não consegue ganhar», conclui Bernardo Figueiredo.

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