Antes de se tornar (em fraude) o Presidente dos discursos patéticos, Tomás foi presidente do Belenenses (e nome de estádio)

Belenenses 26-01-2021 18:30
Por António Simões

Na sequência da reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa para Presidente da República, A BOLA continua a contar-lhe o desporto que houve (direto ou indireto) na vida de que chegou a PR – e de quem aqui se fala é do Presidente dos discursos patéticos que fora presidente do Belenenses, teve nome em estádio – e como Salazar não gostava de ir ao futebol, ao futebol era Américo Tomás que ia…

 

Em 1945, Fernando Cabrita era o ex-libris do Olhanense. O Sporting ofereceu-lhe 25 contos de luvas, emprego como polícia e, sobre isso, subsídio mensal de 800 escudos. (Era o tempo em que os gira-discos causavam frenesim e estavam à venda por 3500 escudos.) O Belenenses entrou no jogo e subiu a parada: 70 contos de luvas, um chalet – e 1000 escudos por mês. Alegando que não havia «caso de força maior», o governo não autorizou – e Cabrita ficou em Olhão a receber 175 escudos por semana. (Um par de botins ficava por 192 escudos e 50 centavos – e Salazar continuava com o mesmo que trouxera de Coimbra, D. Maria mandara-o uma vez ao sapateiro a arranjar.)

 

Não, o presidente do Belenenses já não era Américo Tomás – largara o posto meses antes, quando António Oliveira Salazar o chamou para seu Ministro da Marinha. Para o seu lugar saltou, então, Constantino Fernandes – e foi já com ele lá (e sem Fernando Cabrita na sua equipa) que o Belenenses se sagrou campeão nacional da I Divisão. (Constantino Fernandes já se destacara por outros caminhos: defensor de antifascistas no Plenário de Lisboa. O tribunal onde se batia, galhardo, por eles era na Boa Hora – instalou-se em edifício que no século XVI fora pátio de comédias e depois foi convento. As decisões iam tomadas para as sessões, os advogados dos presos não recebiam centavo de vencimento – e apenas 43 dos 3000 existentes em Portugal ousavam sê-lo. E em 1953 Constantino Fernandes fez mais: haveria de fazer mais: entraria como candidato a deputado em lista de oposição à União Nacional – e obviamente não foi eleito, essas eleições e outras eram farsas...)

 

O pai de Américo de Deus Tomás nascera pobre em Ferreira do Zêzere e conhecera a mãe na casa de latifundiários ribatejanos onde ambos trabalhavam como criados. Foram os patrões que lhe arranjaram trabalho como guarda na Tapada Real da Ajuda. A caça ligou ao pai a D. Carlos – e, a Américo, foi D. Amélia que lhe ganhou afeição. de pequenino. Decidiu, por isso, tratar-lhe da «educação para lhe mudar a vida e o destino», sendo, portanto, todos os seus estudos pagos pela Rainha (enquanto Rainha foi).

 

(Foto: A Bola)

 

Filho de criados de um latifundiário, foi a Rainha D. Amélia quem pagou os estudos a Américo Tomás

 

Nascido em novembro de 1894, por sugestão do pai Américo Tomás apostou a vida na Marinha. A primeira tentativa deu em logro: médicos reprovaram-no por o acharem franzino de mais. Não, não se resignou ao destino e «alimentando-se melhor e fazendo exercício como um atleta», acabou mesmo admitido na Escola Naval, concluiu-a em 1916.

 

Durante a I Guerra Mundial desempenhou funções de escolta do Couraçado Vasco da Gama e do Cruzador Pedro Nunes. Em 1920 entrou ao serviço do navio hidrográfico 5 de Outubro – e pouco antes pusera o coração noutro lado:

 

- Fui simpatizante do CIF que abandonou o futebol quando surgiu o Belenenses - que ao fundar-se foi recebido com bastante animosidade e foi o meu pendor natural a favor do desprotegido que me fez ser Belenenses para sempre. 

 

Em 1936 puxaram-no a chefe de gabinete do Ministro da Marinha – e, ligado cada vez mais a Salazar, Tomás já estava presidente da Junta Nacional da Marinha Mercante quando o Belenenses o chamou para presidente da sua direção.

 

O tempo foi passando sem que Américo Tomás largasse o governo – e, ao chegar-se a 1958, Salazar decidiu que Francisco Craveiro Lopes, o oficial das Forças Armadas que escolhera para sucessor de Óscar Carmona, não deveria continuar no cargo – por se ter aproximado da corrente reformista de Marcelo Caetano e ordenou à União Nacional que lançasse Américo Tomás como seu candidato às Presidenciais de 1958.

 

Já havia RTP e a RTP não mostrava o que os Centuriões de Góis Mota (que deixara de ser presidente do Sporting) fizeram contra Delgado

 

A RTP iniciara a suas emissões regulares a 7 de Março de 1957. O aparelho mais barato da Schaub Lorenz custava 7 990 escudos, o mais caro andava por 18 800. Na publicidade começaram a aparecer modelos mostrando as pernas (mas não muito) – e a organizarem-se concursos Miss Praia, num deles, a vencedora foi ao Estádio de Alvalade posar (mas com a faixa sobre um vestido de chita) entre os seus jogadores, o Sporting voltara a ser campeão, campeão de 1957/58.

 

Presidente do Sporting deixara de ser Carlos Góis Mota – empenhando-se ainda no comando dos Centuriões – o mais brutal dos esquadrões da Legião Portuguesa (a tropa de choque que fazia trabalho mais sujo do que a PIDE: arruaças, raptos, espancamentos, dispersões de manifestações a tiro, sobretudo no 1º de Maio...)

 

Por Lisboa correu rumor de que, uma vez, na Tapadinha, Góis Mota entrara de pistola em punho no balneário do árbitro Clemente Dias avisando-o de que se não tomasse mais atenção às coisas na segunda parte poderia «prejudicar-se». Não foi bem, bem assim: é verdade que Góis Mota foi lá reclamar de expulsão «injusta» de Aparício e «golo estranho validado ao adversário», mas de porta aberta e levando consigo Faustino Rodrigues, o delegado do Atlético, sem mostrar pistola nenhuma – e o Sporting que estava a perder por 0-1 até perdeu por 1-3.

 

A RTP não o mostrava e os jornais não o contavam (claro…) – e o que não é mito é o que os Centuriões de Góis Mota fizeram para abalar a campanha eleitoral de Humberto Delgado – que ousara enfrentar Américo Tomás nessas eleições presidenciais de 1958. Por exemplo, no comício do Liceu Camões, mais do que a polícia a cassetete, foram os Centuriões que varreram a tiro a multidão que já se juntara - e, no dia seguinte, o Ministro do Interior espalhou pelos jornais descarada nota em contrainformação que dizia: «para que bem se possa conhecer a gente que, ao serviço do partido comunista, surgiu nas ruas a apoiar por meio de tumulto o candidato chamado independente, gente que vaiou e agrediu a força pública, destruiu candeeiros e montras, procurando lançar a cidade na desordem e no pânico pela GNR e PSP foram detidos nas imediações do Liceu Camões 45 indivíduos, desse 31 são cadastrados, eram portadores de armas de fogo, acusados de roubos, de vadiagem, de mendicidade, de desobediência, etc... etc...»

 

Quando se anunciaram os resultados das eleições de 1958, deram-se a Américo Tomás 758 998 votos e a Humberto Delgado 236 528. Ninguém acreditou que fosse verdade. Chamuscado com o que acontecera, Salazar mandou alterar a Constituição: daí em diante o Presidente da República passou a ser escolhido por um colégio eleitoral formado por elementos da Assembleia Nacional, da Câmara Corporativa (e ainda de representantes dos municípios e do Conselho do Ultramar) – e foi continuando a ser Tomás, Américo Tomás. Em torno de si alastrou a fama de simples corta-fitas - chegando até a inaugurar as lavandarias do Hotel Sheraton  – agitando discursos com frases que eram paródia pegada ou pior quando a Censura não conseguia cortá-las ou alterá-las. Exemplos? 

 

- Esta é a primeira vez que cá estou desde a última vez que cá estive...

 

- Manteigas é uma terra bem interessante porque estando numa cova está a mais de 700 metros de altitude...

 

- Hoje visitei todos os pavilhões desta Feira, se não contar com os que não visitei... 

 

(Foto: A Bola)

 

Presidente da República na fraude que a tirou a Humberto Delgado (e o que Humberto Delgado tinha a ver com o Belenenses também)

 

Depois de em fraude chegar Américo Tomás à presidência da República, colocaram-lhe o nome no Estádio do Belenenses (que custara mais de 34 mil contos e fora inaugurado em 1956 por Craveiro Lopes). Incapaz de suportar as dívidas e os juros, em 1961 a Câmara de Lisboa apoderou-se dele e sujeitou o clube ao ultraje de lhe encaixotar os troféus e as taças, pô-los na rua. Acácio Rosa foi a voz da indignação e do protesto – contra o presidente da autarquia, os seus vereadores. A PIDE mandou-lhe recado: que se calasse – e nunca mais deixou de tê-lo sob apertada alçada.

 

José Chaves Rosa, o filho de Acácio, que presidente do Belenenses haveria de ser também, casara-se com Iva, a filha de Humberto Delgado. Tiveram um filho: Frederico Delgado Rosa. Ele, historiador, foi ao fundo do processo de julgamento dos assassinos do avô pela PIDE e descobriu que nada foi como se andara a dizer:

 

- O assassinato a tiro é uma mentira fabricada pelos juízes de Santa Clara. Feita a autópsia logo em 1965 pelos espanhóis, ficou claro que Humberto Delgado morreu devido a sucessivas contusões cranianas. O golpe fatal foi uma paulada na cabeça. A justiça portuguesa refutou todas essas perícias médico-legais de forma indigna, porque aquela verdade não lhe convinha. Quando ilibaram o chefe da brigada, Rosa Casaco, ilibaram toda a hierarquia superior da PIDE, o ministro do Interior, o próprio Salazar. E a ideia de que a PIDE foi a Espanha não para assassinar Humberto Delgado, mas para trazê-lo preso para Portugal também está relacionada com a ilibação geral a partir da transformação de Casimiro Monteiro em bode expiatório...

 

Liberdade na pintura do Restelo que apagou Américo Tomás e na louca nua do Rossio...

 

Na sequência do golpe de 25 de Abril de 1974 levaram Américo Tomás (com Marcelo Caetano, o presidente do Conselho que sucedera a Salazar) para o Funchal de escantilhão (de onde haveria de partir para exílio no Brasil) – e não tardaria que, em nome da igualdade sexual, começaram a fazer-se combates de raparigas em luta livre no Campo Pequeno. Ou que, no Rossio, agente da PSP ao aperceber-se de que mulher passeava totalmente nua pela praça correu para ela e sem saber que era louca juntou a gente e pôs à votação: se a deveria levar detida para a esquadra ou se deveria respeitar a sua liberdade de fazer o que lhe apetecesse – e ganhou a liberdade...

 

A Liberdade também apareceu pela noite no Restelo, a 5 de maio de 1974. Ainda com Tomás e Caetano na Madeira, estava o campeonato de futebol a correr para o seu fim. Antes de o Belenenses bater o Farense alguém entrou à sorrelfa no estádio e pintou de branco letras que diziam: Almirante Américo Tomás – e escrevendo Liberdade, ficou: Estádio da Liberdade.

 

A BOLA publicou a foto e Acácio Rosa escreveu carta aberta lamentando a pichagem e defendendo que Américo Tomás «fora tudo no clube», de «simples sócio a sócio honorário», de presidente da direção a presidente honorário, recordando que «ninguém mais do que ele» contribuíra para que o «estádio do clube fosse livre da tutela dos poderes públicos» - e, magoado, desafiou:

 

- Se, por injustiça, quiserem tirar-lhe o nome de lá, ao menos façam-no em respeito pelos estatutos, como o fizeram para o lá pôr: em Assembleia Geral.

 

Não, os demais sócios não acharam, como Acácio Rosa, que fosse injustiça retirar-lhe Américo Tomás do nome – e em vez de Estádio da Liberdade ficou Estádio do Restelo.

Ao chegar ao Brasil para o seu exílio, Américo Tomás tratou de enviar para a secretaria do Belenenses carta com um lamento: que «desarriscado de sócio» não pudesse continuar a pagar os 60 escudos mensais da quota – e mágoa maior vincou: «não poder ver a menina dos seus olhos, o clube da sua eleição» a jogar.

 

(Foto: A Bola)

 

… e para presidente do Belenenses foi o coronel que se recusara a estar em cerimónia com Tomás

 

De um instante para o outro, o Belenenses também ficou sem presidente. Fernando Baptista da Silva, major que o marcelismo pusera diretor da Polícia de Trânsito, escapou, também ele, bruscamente para o Brasil – e em fevereiro de 1975 o Belenenses elegeu Joaquim Marcelino Marques para o lugar. Era coronel da Administração Militar – e no Outono de 1973 dava aulas na Academia Militar. Quando, do Ministério da Defesa, lhe comunicaram que na sessão solene de abertura do ano letivo estaria «honrosamente» o almirante Tomás, Marcelino Marques ripostou:

 

- Pois, informo V. Exa. de eu que não estarei presente à cerimónia! Porque eu me recuso a estar presente em atos presididos por esse senhor.

 

Puniram-no com alguns dias de prisão disciplinar e aplicaram-lhe transferência de unidade. Continuou a conspirar contra o regime ao lado de Vasco Gonçalves, seu companheiro de escola. Que, quando assumiu o governo, o chamou para administrador do Diário de Notícias – e Marcelino Marques pôs na direção José Saramago.

 

Com Saramago, Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, na célula dos escritores do PCP, estava Manuel Sérgio, o filósofo. A Manuel Sérgio, Marcelino Marques puxou-o para seu vice-presidente e antes da posse brincou:

 

- Quem me desafiou para este posto foi o dr. António Manuel Pereira, que há alguns anos bem me conhece, do tempo em que eu fazia parte de uma tertúlia contestatária, de oposição, na altura em que o Belenenses, a nível de dirigentes chegava a parecer uma filial da União Nacional. Eu costumava dizer por laracha: vocês dizem que os árbitros não nos gramam, mas que querem? Os árbitros são contra a União Nacional. Agora, é altura de darmos ao clube um sentido novo...

 

Uma das suas primeiras ações fora levar à AG a questão da mudança de nome do estádio. A ideia era que ficasse mesmo Estádio da Liberdade. Acabou por ficar do Restelo. Acácio Rosa votou contra deixar de ser Estádio Almirante Américo Tomás (percebeu-se porquê em carta aberta que A BOLA publicou...) – e para Manuel Sérgio era posição que nada tinha de política:

 

- O velho Acácio era compadre de Humberto Delgado, o eng. Chaves Rosa, seu filho, fora casado com Iva Delgado. Tinha ficha na PIDE, mas era pessoa de grande sentimento, incapaz de esquecer o que Tomás fizera pelo Belenenses. Conhecera-o nos primeiros tempos do Belenenses, quando o Belenenses era o clube dos marinheiros, ficaram amigos, mesmo que as suas ideias não fossem as mesmas.

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