Nos 100 anos de Hagan, horror da libertação do campo nazi e bronca na festa de Eusébio

Benfica 21-01-2021 16:20
Por António Simões

Há Auschwitz? Há! Mas, entre as atrocidades nazis, talvez não haja imagem mais aterradora que a que se soltou de Bergen-Belsen: milhares de mortos em valas a céu aberto, amontoados uns sobre os outros ou espalhados pelos vários recantos do campo, dizimados pelo tifo e pela fome. O campo de extermínio foi libertado por uma força do exército inglês que tinha como capitão, a comandá-la, James Hagan. Nascera a 21 de janeiro de 1918 (há 100 anos, pois) em Washington (mas Washington à sombra de Sunderland), se tivesse chegado um mês antes provavelmente Anne Frank não tivesse morrido – e o que aqui também se conta é como ele marcou a história do Benfica (e não só) como Mister Jimmy, Jimmy Hagan…

 

Alf, o pai, fora dos primeiros profissionais do futebol inglês, jogara pelo Newcastle e pelo Cardiff – e, em 1935, Jimmy Hagan saltou do Liverpool para o Derby County. Três anos depois, Teddy Davison, manager do Sheffield United correu a contratá-lo. George Jobey, o presidente do Derby, pediu 3000 libras pelo passe, acabou por aceitar 2925. Hagan tinha 20 anos e ficou a receber sete libras por semana – e mais uma libra por cada jogo. Jogou 42 vezes – e só não jogou mais porque o chamaram ao exército mal estoirou a II Guerra Mundial.

 

Andara em combate por França, pela Bélgica, pela Holanda e pela Alemanha – e o capitão do batalhão que, no dia 15 de abril de 1945, libertou o campo de concentração de Bergen-Belsen, era ele, o James Hagan, que todos tratavam já por Jimmy, o capitão Jimmy.

 

Criado em 1940 para guarda de prisioneiros de guerra, dois anos após passou a verdadeiro campo de concentração para judeus, ciganos e homossexuais – e todos os que, mais ou menos doentes, se julgassem «úteis» para as investigações de biólogos e engenheiros genéticos a quem Hitler pedira que descobrissem a prova científica da superioridade ariana e da fraqueza judia, tendo a comandá-lo Josef Kramer, a Besta de Belsen.

 

(Foto: Arquivo A BOLA)

 

Nuas, de cabeças rapadas, para trabalhos forçados

 

Na esperança de se salvarem do holocausto, Otto Frank pusera Edith, a mulher, e Anne e Margot, as filhas, a viverem em sotão secreto da sua empresa numa rua escondida do Canal de Prinsengracht, deixando o seu apartamento, no centro de Amesterdão, em rebuliço para dar a ideia de que a família fugira. Lá estiveram 300 dias em guarida. A 4 de agosto de 1944, um batalhão das SS invadiu-lhes o esconderijo. Levou-os, aos Frank e a amigos que ali se acobertavam também. De escantilhão os atiraram ao vagão de gado de um comboio que parou em Auschwitz. Otto foi separado da mulher e das filhas. A Edith, a Margot e a Anne, fotografaram-nas nuas, raparam-lhes as cabeças, tatuaram-lhes números nos braços, mandaram-nas para trabalhos forçados:  transportaram blocos de uma pedreira, cavaram, até caírem, uma a uma, doentes – de sarna e tifo.

 

Vendo-as assim, transferiram-nas, por outubro, para Bergen-Belsen – dizendo-lhes que iam para «campo de convalescença».  Edith ainda chegou a cavar buraco na enfermaria onde estava Anne para lhe passar o pedaço de pão que lhe cabia. De um momento para o outro Edith deixou de aparecer, morrera de fome aos primeiros dias de janeiro de 1945. O mesmo sucedera a Margot entretanto – e, aos primeiros dias de março de 1945, a Anne foi o tifo que a matou também.

 

(Foto: Arquivo A BOLA)

 

Ratos, piolhos, cadáveres, o que Hagan descobriu no inferno libertado

 

Ao aperceberem-se da aproximação da coluna militar inglesa comandada pelo capitão Jimmy Hagan, quase todos os guardas de Bergen-Belsen desataram em fuga. Josef Kramer não: ficou no seu escritório, sereno, à espera – e quando lá entraram ofereceu-se para lhes mostrar o campo e o que mostrou foram pilhas de corpos esqueléticos pelo chão, uns mortos, outros não, atacados por ratos e piolhos, covas de cadáveres por sepultar, tugúrios trancados com sobreviventes aos gritos – ou em agonia. Condenado à morte por crimes contra a humanidade, a Kramer enforcaram-no a 13 de dezembro de 1945, na prisão de Hamelin.

 

Também em Hamelin foi executado Fritz Klein, o médico-chefe de Bergen-Belsen. Quando o juiz lhe perguntara como fora capaz de conciliar a ética da profissão com o que fizera ali no campo, respondeu-lhe, imperturbável:

 

- O meu juramento de Hipócrates dizia que devia cortar qualquer apêndice gangrenado do corpo humano e sendo os judeus os apêndices gangrenados da humanidade, removia-os...

 

Uma portuguesa entre outros portugueses e 10 mil cadáveres

 

No livro Remembering Belsen – Eyewitnesses Record of the Liberation, H. L. Glyn-Hughes, que com Hagan libertara o campo, revelou (arrepiante):

 

- Construído para 8000 pessoas, havia lá 40 mil vivos. No solo estavam espalhados mais de 10 mil cadáveres. 25 mil prisioneiros precisavam de hospitalização imediata – e perante a epidemia de tifo e desinteria, mandei queimar todas as barracas e tendas que esvaziámos.

 

De uma das tendas saiu, em suplício, uma portuguesa: Maria Barbosa. Vivia em França, envolvera-se na Resistência, deportaram-na. A ela e ao irmão Francisco. Ele não escapou, ela sim. Entre os 10 mil apanhados ainda com a vida por um fio, havia outro português: Francisco Ferreira. Tinha o nome na lista dos sobreviventes, acabou por não o ser.

 

Com Inglaterra nos 10-0 que levaram a seleção de Portugal à PIDE

 

 Ao terminar da II Guerra Mundial, Jimmy Hagan manteve-se ainda vários meses no exército britânico – e ao desmobilizarem-no, regressou ao Sheffield United:

 

- O clube manteve o meu contrato durante todos esses anos, apesar de não me pagar um cêntimo. Era guerra, não era jogo, diziam. E era. O recomeço, aos 26 anos, já era tarde, posso dizer que sim, que a II Guerra Mundial me quebrou uma carreira que poderia ter sido muito mais espetacular.

 

Semanas antes da incorporação militar chegara pela primeira vez à seleção – e à seleção voltou 47 vezes. Numa delas, passou por Lisboa na equipa de Inglaterra que ganhou a Portugal por 10-0 no Jamor, naquela tarde da derrota humilhante que até levou os jogadores à PIDE a justificarem-se, por ter havido quem achasse que perderam assim de propósito por a FPF lhes ter recusado 100 escudos em caso de derrota – e, amuados, terem boicotado o jantar de gala que se fez, à noite, no Avenida Palace, aos Restauradores (e suspensos por largos meses pela federação, os largos meses acabaram por serem muito menos, graças a amnistia a que o governo de Salazar condescendeu). Não, lá no Estádio Nacional, a 25 de maio de 1947, Jimmy Hagan não foi titular, foi suplente.

 

Vinte anos jogou no Sheffield United – a despedida foi a 14 de setembro de 1957 contra o Derby County:

 

- Tinha 40 anos, era a hora.

 

Aos 33, um clube de Londres (que Hagan nunca se quis dizer qual) oferecera ao Sheffield 34 500 libras pelo seu passe. Seria recorde no futebol inglês. O clube aceitou o negócio, ele recusou-o:

 

- Sentia que estava demasiado velho para suportar nos ombros o peso de tanto dinheiro pago por mim – e fiquei mais sete anos no Sheffield.

 

(Foto: Arquivo A BOLA)

 

O espanto de lhe aparecer o Benfica quando andava a dar aulas de condução

 

Mal deixou de jogar futebol após digressão à Austrália pelo Blackpool (que o pedira emprestado) em que marcou 21 golos em seis jogos, Jimmy Hagan tornou-se treinador do Peterborough United:

 

- Em quatro anos, vencemos por três vezes a Midland Football League, a liga semi-profissional inglesa. Na primeira época comecei por ser campeão na 4ª Divisão, a equipa conseguiu um recorde que a pôs o Guinness: 134 golos na liga.

 

(134 golos ainda hoje é recorde nas ligas inglesas.) 

 

Em 1963 passou para o comando técnico do West Bromwich Albion e em 1966 venceu a Taça da Liga. Andava, porém, a dar aulas de condução quando se deu, na sua contratação, o golpe de génio de Duarte Borges Coutinho, presidente do Benfica que tinha sangue azul: era o Marquês da Praia e Monforte. Vivendo no palacete de família no Rato (onde agora está a sede do PS) de pequeno se começara a aventurar às Amoreiras para ver o Benfica, em treinos, em jogos. Foi saltador em altura, mas a sua paixão era o futebol. Em Lisboa fez Económicas e Financeiras, em Londres fizera-se engenheiro – e, ao estoirar da II Guerra Mundial, Borges Coutinho oferecera-se à RAF, como voluntário, para piloto aviador. Adolfo Vieira de Brito deu-lhe o primeiro cargo de direção no Benfica. Em abril de 1969 tornara-se presidente - contra ele correram Fernando Martins e Romão Martins, Borges Coutinho arrecadou 26 154 votos, os outros dois juntos ficaram em redor dos 18 500.

 

Tomando posse a 12 de abril de 1969, antes de lançar o canto de sereia a Jimmy Hagan, Duarte Borges Coutinho tivera trabalho complicado a tratar da renovação de contrato com Eusébio. Três anos antes, o Inter oferecera-lhe 16 mil contos – e, diplomático e persuasivo, conseguiu convencer Eusébio a prescindir dos 7500 contos que tinham sido a sua primeira exigência, aceitando 4000. O acordo, tendo Silva Resende, advogado na praça e jornalista de A BOLA, na defesa (gratuita) dos interesses de Eusébio, fechou-se assim: 3076 contos de luvas, 324 de ordenados (36 meses a nove contos) e 600 contos na festa de despedida, a festa de despedida que teria em Jimmy Hagan ponto de amargor – e se não tivesse acontecido o que aconteceu talvez a história do Benfica tivesse sido ainda mais diferente…

 

(Foto: Arquivo A BOLA)

 

Na Luz, os vómitos que deram sinal do que os jogadores iam passar

 

O título de campeão nacional da I Divisão de 1969/70 ganhara-o o Sporting (com Fernando Vaz, jornalista de A Bola, a treinador, e Mário Moniz Pereira, técnico de atletismo, a preparador físico) ao Benfica, mas a Taça de Portugal (já com José Augusto no lugar de Otto Glória) venceu-a o Benfica ante o Sporting. A final foi a 27 de junho de 1970 – e a 27 de julho morreu Salazar. Na semana seguinte Borges Coutinho anunciou que o Benfica apostara num inglês para seu treinador – e ao entrar no estádio da Luz pela primeira vez, sendo-lhe apresentados, um a um os jogadores do Benfica, logo se lhe apanhou a Jimmy Hagan o espírito do que haveriam de ser os seus dias por ali:

 

- Num clube como o Benfica, os jogadores têm de ser sobretudo leais, leais ao trabalho, ao esforço.

 

Ao estádio voltou no dia seguinte. O plantel estava, com José Augusto ao seu comando, a treinar em Monsanto, na Luz ficara António Simões, a tratar de lesão. Estiveram ambos à conversa, a trocar sonhos. Na volta à liça, meses depois, Simões não tardaria a perceber como é que Hagan ia colar-se à história do Benfica, imortalizando-se:

 

- Logo no primeiro treino, alguns de nós vomitaram o pequeno almoço. Não aguentaram aquele começo violento e, o mister, indiferente, continuou o trabalho com os resistentes. Foi a primeira lição, ensinou-nos que ser futebolista, para mais no Benfica, era muito mais duro do que estávamos habituados.

 

A 9 de janeiro de 1971, ao canto superior esquerdo da página 6 de A Bola desse dia em destaque estava fotografia pouco comum: uma mulher de saia curta e casaco discreto, com luvas de boxe nos punhos, simulava, sentada sobre um piano, troca de golpes com um homem de fato e gravata e luvas também. Ela era Maria Valejo, cançonetista na berra, ele era Carlos Almeida – e a legenda com o título Sem Golpes Proibidos referia-se à promoção de combate que Almeida haveria de fazer contra o campeão espanhol, Yanando II, no Coliseu dos Recreios. Na página seguinte, Jimmy Hagan (já a caminho de se tornar pela primeira vez campeão e já depois de ter ganho ao Sporting por 5-1, com três golos de Artur Jorge, um de Eusébio e outro de Nené) revelava o espanto que lhe causara o Benfica tê-lo escolhido para seu treinador:

 

- Nunca, nunca esperei arranjar este emprego, em Lisboa, no Benfica. Meu Deus, quando se está apenas a observar valores e a dar algumas lições de instrução automóvel em Birmingham para se poder pagar aos credores não se está positivamente à espera que nos venham oferecer um dos melhores empregos futebolísticos da Europa...

 

O primeiro jogo oficial de Jimmy Hagan como treinador do Benfica fora a 13 de setembro de 1970, contra a CUF no Estádio Nacional (porque a Luz estava interditada): 1-0, golo de Eusébio. Antes, na pré-época já se soltara, porém, sinal do futuro: em 10 jogos, 9 vitórias – numa digressão que fora de Angola ao Japão e no Japão juntou Amália a Eusébio. O que se lhe seguiu? Em três anos, três títulos de campeão para o Benfica (e uma Taça de Portugal). O terceiro, então, foi talvez o mais fulgurante de sempre no futebol em Portugal: fechou-o com 18 pontos de avanço sobre o segundo, o Belenenses, sem uma única derrota (e com 23 vitórias seguidas), tendo perdido apenas dois pontos (no empate a 2 com o FC Porto e no empate a 0 com o Atlético), em 30 jornadas sofreu 13 golos e marcou 101 – desses 40 couberam a Eusébio que assim conquistou a sua segunda Bota de Ouro.

 

(Foto: Arquivo A BOLA)

 

A história fechou-se brusca na noite em que se jogava para darem 600 contos a Eusébio

 

A história, essa história fantástica, acabou, brusca, no que era para ser noite de gala e não foi. A 25 de Setembro de 1973, o Benfica fez a Festa de Homenagem que prometera a Eusébio no contrato que assinara em 1969, a Festa que tinha de dar-lhe 600 contos – e deu. (Por 300 contos estavam a vender-se apartamentos em Lagos com vista para a Meia Praia, onde, 12 anos antes Eusébio estivera escondido do Sporting. Os bilhetes custavam entre 30 e 200 escudos – e nesse tempo comprava-se Ford Capri 1300 L por 102 700 escudos e um gira-discos a pilhas por 1 774.)

 

Banks, Blakenbourg, Jackie Charlton, Hilário, Bobby Charlton, Paulo César, Netzer; George Best, Keita, Uwe Seeler, Gento, Dirceu alinharam pela Seleção do Mundo empatou 2-2 com o Benfica – amargo foi, porém, o que acontecera antes. Jimmy Hagan tinha por hábito realizar treino no dia dos jogos. Não quis alterar o sistema – e, de manhã, pôs todo o plantel a dar voltas ao campo. Toni, Humberto Coelho e Nelinho atrasaram-se a um salto, não gostou, praguejou – e Toni recordá-lo-ia:

 

- O Hagan pediu-nos para saltar os painéis de publicidade. Como não queríamos saltar todos uns em cima dos outros, chateou-se e alegou que não fizemos o exercício corretamente, disse logo que não nos convocava...

 

Também lhes disse que estavam multados em 1000 escudos (um televisor «para o fraquinho» encontrava-se, então, por 2940 escudos) – e que não jogariam à noite. Vendo-os inconsoláveis, Hagan perdoou-lhes o treino da noite no ginásio e a multa, mas o não jogar é que não. Foram sentar-se nas bancadas como farrapos. Borges Coutinho comoveu-se e chamou-os à cabina, dizendo-lhes que se equipassem. Explicou-lhe que fazia aquilo por razões, obviamente, sentimentais, Hagan, agreste, virou-lhe as costas, arrumou o saco e saiu porta fora

 

(e, para o banco, já teve de ir, como treinador, o seu adjunto, o Fernando Cabrita).

 

«Eles trocaram a minha equipa, puseram jogadores que eu não tinha convocado...»

 

O pedido de demissão de Hagan soltou-se de uma carta em que ele afirmava, caprichoso:

 

- Antes do jogo, disse-lhe que não admitia que alguém fizesse o que só eu poderia fazer e o presidente ordenou-me que então deixasse o banco, que Cabrita me substituíra. Eles trocaram a minha equipa, pondo jogadores que eu não tinha selecionado. Por isso desejo ao Benfica os melhores êxitos. Gostei muito dos três anos que passei em Portugal. Gostei de trabalhar com os jogadores. Sem a ajuda deles não teria emprego. Tive divergências com alguns, mas no coração sou, hei de ser sempre, amigo de todos. E só espero que o Benfica honre o contrato que estabeleceu comigo.

 

Da fama de durão – e de ser um «homem de pedra», Jimmy Hagan defendeu-se assim:

 

- Sempre que a minha equipa entrava em campo eu ficava com os jogadores no coração. Nunca deixei de ser jogador e jogava com eles. Nos treinos, não era duro, apenas exigia que fizessem aquilo que eu faria se estivesse no lugar deles. Se não o fizessem, mereciam ser multados, ok?!

 

A festa de Eusébio passou da Luz para o Casino do Estoril, ele, o Eusébio, ainda tentou, que o caso Hagan se resolvesse, mas não:

 

- Convenci o presidente Borges Coutinho a ir a casa do mister Hagan buscá-lo para o jantar de honra, ele foi. A minha ideia era que as coisas se endireitassem. Pedi-lhe por tudo que esquecesse o que se passara, mas não: Hagan era muito teimoso, deixou mesmo de treinar o Benfica – e eu não tenho dúvidas: com ele, o Benfica não teria perdido o título para o Sporting, teria sido tetra...

 

Com Fernando Cabrita a treinador no que falta da época, o Benfica perdeu o campeonato de 1973/74 (o primeiro que se fechou em democracia) para o Sporting – e para o Sporting (com Mário Lino a treinador) perdeu, também, a Taça de Portugal (a primeira que se disputou fora da ditadura do Estado Novo).

 

Hagan deixou-se ficar sem futebol outra vez – e para o arranque da temporada de 1976/77, João Rocha foi a Inglaterra desafia-lo para o Sporting. O seu primeiro desafio foi contra o Benfica, venceu por 3-0, com golos de Manuel Fernandes, Camilo e Baltazar – porém campeão seria o Benfica (com outro inglês, o John Mortimore). Na Taça de Portugal, Hagan repetiu os 3-0 ao Benfica no célebre jogo do ManOOOel (nos três golos do Manoel ao Manuel Bento) – mas acabou eliminado pelo FC Porto (já de José Maria Pedroto e Pinto da Costa). Saltou para o Boavista, no Boavista ganhou a Taça de Portugal de 1978/79 ao Sporting (de Milorad Pavic) na finalíssima decidida pelo golo de Júlio. Treinou o Vitória de Setúbal e o Belenenses – e fechou a carreira no Estoril em 1981/82.

 

(Foto: Arquivo A BOLA)

 

Como descobriu o que Fernando Santos tinha feito, escondido atrás de um pinheiro

 

No Estoril estava, então, Fernando Santos. Regressara ao clube, vindo do Marítimo, com uma condição: que Benito Garcia, o presidente, que também era dono do Hotel Palácio, lhe desse trabalho no hotel como engenheiro. Assim foi. Para se dedicar ao emprego, às vezes, Fernando Santos nem sequer podia treinar com a equipa – não deixava de treinar, mais tarde, nem que tivesse de ser só um bocadinho (ou mais…):

 

- Treinar, treinava, mas sim: não gostava mesmo de fazê-lo. Lembro-me de que uma vez fui para o estádio, dei duas voltas ao campo, e parei. Disse ao roupeiro que, se o treinador perguntasse, lhe dissesse que sim, que eu já tinha treinado. Quando ia a entrar no duche, apareceu. «O senhor não treina?». Disse que já o tinha feito, ele respondeu: «Não, que eu estar no pinheiro e ver senhor dar duas voltas. Come on!». Estive uma hora a subir e a descer escadas.

 

Isso revelou-o, deliciado com a peripécia, Fernando Santos, mostrando como Jimmy Hagan era, nunca deixou de ser.

 

Morreu em Sheffiled a 26 de fevereiro de 1998. Aliás não morreu porque imortal ficou. Imortal por ser o treinador inteligente e arguto, intransigente e inflexível, que mesmo que parecesse que se fechava na tática do «senhores, correr, correr muito, correr mais que adversário, mais tempo, correr, correr» - não «matava o futebol bonito». Imortal pelo espírito durão e impulsivo – e o brado que dele se soltava, sem nunca se enfarinhar, ao aparecer-lhe questão que o irritasse:

 

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(Fotos: Arquivo A BOLA)

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