ANÁLISE TÁTICA: Jesus tentou ganhar no xadrez sem dominar todas as jogadas

FC Porto-Benfica 16-01-2021 01:12
Por Luís Mateus

FC Porto e Benfica empataram esta sexta-feira no Dragão. Na batalha tática que foi o clássico, Jorge Jesus pode ficar a alegar que a estratégia falhou por pouco, mas resta saber o que teria sido com 11 de cada lado até ao fim – isto sem qualquer interpretação da decisão (desta e de todas as outras) do árbitro, que fica para os especialistas – porque, a partir da expulsão de Medhi Taremi, os dragões baixaram o bloco, fecharam o jogo interior e os encarnados só conseguiram encontrar espaço pela esquerda. Ou seja, foi outro jogo dentro do mesmo encontro. E há o falhanço de Marega, a querer finalizar com o peito, com Vlachodimos a meio caminho e batido, já com os locais reduzidos a dez, que serve pelo menos para equilibrar o debate.

 

Jesus foi o treinador que mais mudou estrategicamente, ao colocar em campo dois laterais-esquerdos, com Grimaldo mais adiantado em relação a Nuno Tavares. O que parecia ser inicialmente uma opção defensiva tornou-se mesmo uma das chaves do jogo com bola. Mas já lá vamos.

 

Se o FC Porto se mostrou pressionante logo no início, a fim de anular a construção dos encarnados, também aí a lição parecia bem aprendida pelos jogadores da Luz: Weigl entre os centrais na construção a três, Darwin muitas vezes colocado sobre a esquerda a servir de referência para a bola longa, com apoio próximo de Grimaldo, Nuno Tavares projetado a chegar e Pizzi também com basculações sucessivas a aproximar-se da bola se fosse necessário construir a partir daí. Seferovic prendia a atenção dos centrais no corredor interior. Com Pizzi isolado no meio-campo, o Benfica fazia um bypass a toda a zona intermédia e tornava a pressão portista inútil. A isto é preciso aliar um foco maior do que o habitual na reação à segunda bola, que forçou a que o FC Porto também tivesse por vezes de enfrentar a transição contrária, sobretudo quando Rafa, a realizar um jogo quase perfeito em termos de tomada de decisão – o que também não é comum – embalava para a baliza.

 

Havia ainda outro twist, que era um Grimaldo mais adiantado pronto a explorar o espaço entre lateral-direito Nanu e o central da direita Mbemba. Com Corona a não acompanhar o seu rival direto, o espanhol surgiu como uma flecha, após um toque de excelência de Seferovic de primeira – outra situação menos habitual –, a atirar em jeito perante Marchesín para o golo, aos 17 minutos. Como começou: Vertonghen, sem pressão, a colocar num Nuno Tavares projetado (Darwin obrigou Mbemba a abrir com movimento para a linha) e o jovem lateral a cruzar rasteiro para o suíço na área.

 

O Benfica já antes tinha ameaçado logo aos oito minutos, com Weigl a lançar longo para Darwin (sobre a esquerda) e o uruguaio a cruzar para finalização apertada e transviada de Seferovic já perto da pequena área.

 

 

O posicionamento defensivo

 

Sem bola, o Benfica também obrigou o FC Porto a ser ainda mais direto do que costuma ser. Uma pressão mais posicional mas individual, que se acentuava quando a bola entrava nos laterais, obrigou quase sempre a defesa portista a bater longo, tendo Marega como principal referência. Com centrais fortes no jogo aéreo, Nuno Tavares também a estes se juntava, aproveitando a largura defensiva que poderia dar Grimaldo, fechando ele por dentro: pelo ar quando Marega caía mais por esse lado, pelo chão com as deslocações de Corona para o meio, embora tivesse de largar o mexicano a certa altura porque este em alguns momentos, sobretudo na primeira parte, era mais interior-esquerdo (do que extremo-direito) e apoiava Luis Díaz e Zaidu a inflacionar esse flanco. Um overloading que procurava expor Gilberto. É dessa forma que nasce o empate, aos 25 minutos. Lançamento lateral, com Uribe a receber e a colocar Sérgio Oliveira e o médio explorar as costas de lateral brasileiro e o ataque simultâneo à profundidade por parte de Corona (em sentido contrário à reação do Benfica, que saía para pressionar). O mexicano passa atrasado para Taremi, com o iraniano a rematar desenquadrado da baliza, mas a beneficiar do desvio de Marega, e da infelicidade de Gilberto, que caíra e colocara o maliano em jogo. Terá sido o maior erro da linha defensiva encarnada no controlo do espaço atrás de si, castigado de imediato pelos portistas.

 

À exceção da má finalização de Luis Díaz, aos 37 minutos, depois do tropeção de Otamendi, e da própria jogada do golo, o FC Porto foi perigoso sobretudo nas bolas paradas. Já o Benfica teve na primeira parte, antes do desperdício do colombiano, a melhor jogada, novamente em transição. A reação à perda portista não consegue impedir que a bola chegue a Darwin, num lado esquerdo muito inflacionado e com a defesa azul e branca desequilibrada. O uruguaio mete rápido em Rafa, que força Pizzi a explorar a largura. O cruzamento atrasado do capitão apanha na perfeição a diagonal de Darwin, que acerta em cheio no poste.

 

 

A expulsão que obriga a mudar

 

O segundo tempo foi mais equilibrado, sobretudo até ao cartão vermelho. No ataque, Grimaldo continuou a estar muito por dentro e até a ganhar, pasme-se, bolas na área portista, e os dragões assentavam muitos dos desequilíbrios na bola parada, com Marega a obrigar Vlachodimos a intervenção difícil (70 minutos) e depois a falhar com o peito, na sequência de um cruzamento em esforço de Luiz Díaz ao segundo poste (76), um golo fácil.

 

Entre as duas jogadas, aconteceu a expulsão de Taremi, por entrada dura sobre Otamendi.

 

A partir daí, Pizzi (depois Chiquinho) pôde ter Weigl mais tempo por perto (só havia Marega a pressionar, e os centrais bastavam para dar conta do recado), e o Benfica acentuou a percentagem de posse de bola. Sérgio Conceição tentou corrigir – muito mais defensivamente do que ofensivamente – com a entrada de João Mário e Diogo Leite para os lugares de Zaidu e Luis Díaz, aos 81 minutos (o que ainda isolou mais Marega). Os portistas ficavam com três centrais numa linha defensiva de cinco, com três médios e um avançado, bloqueando o jogo interior encarnado e obrigando a jogar por fora, sobretudo pela esquerda. Mesmo assim, a equipa de Jorge Jesus conseguiu criar volume por esse flanco, sobretudo a partir do momento em que Everton entrou para o lugar de Grimaldo (83), com movimentos muito mais assentes na inteligência e na qualidade técnica do que na velocidade do espanhol – aproveitando também o brasileiro o canal entre central e lateral, e não forçando como às vezes faz as combinações pelo miolo. Houve um ou outro momento de aflição na área e uma ou outra defesa de Marchesín – Rafa terá sido quem esteve mais perto de festejar –, mas as oportunidades flagrantes também escassearam. Nuno Tavares decidiu-se muitas vezes pelo cruzamento em momentos e situações erradas, o que facilitou a vida aos portistas, e a entrada de Waldschmidt para aproveitar espaço entre linhas também se revelou tardia.

 

Percebe-se a sensação de dois pontos perdidos por parte de Jesus num jogo que podia ter caído para os dois lados, mas em que a imagem que transparece é que foi sempre a equipa visitante aquela que melhor movimentou as peças no tabuleiro tático no sentido de ganhar o jogo, ao contrário do que aconteceu nos embates anteriores, mas ao mesmo tempo ainda não encontrou antídoto nas bolas paradas defensivas – a defesa zonal continua sem resolver situações criadas por equipas contrárias muito agressivas e com bom executantes – nem um controlo perfeito da profundidade. Jesus tentou ganhar no xadrez sem dominar todas as jogadas.

 

No fundo, a maior certeza é que o empate não satisfez ninguém. Pelo menos das duas equipas em causa.

 

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LUÍS MATEUS é jornalista, analista e comentador de futebol. Foi diretor do MaisFutebol e editor de desporto da TVI, escreveu para o «Expresso», «Público» e zerozero, e comentou ainda para a TVI, Eleven Sports e TSF. Atualmente escreve e comenta no site e no jornal «A Bola» e n’A BOLA TV. Pode segui-lo no Twitter ou no Facebook.

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