No primeiro FC Porto-Benfica, o árbitro transformou em canto um golo na própria baliza

FC Porto-Benfica 13-01-2021 15:20
Por António Simões

O árbitro não sabia as regras e transformou golo na própria baliza em canto. Essa é uma das peripécias que aqui se vão contar do primeiro jogo entre o FC Porto e o Benfica. Não, não é só: a propósito do futebol (para que se perceba como Portugal era então) também se fala de greves e misérias, de ousadias de mulheres (umas nuas, outras modernas…) – e de um rebelde que deixou o Benfica por causa de 36 escudos e banhos quentes...

 

José Monteiro da Costa refundara em 1906 o FC Porto que António Nicolau de Almeida pusera em hibernação algures por 1894 porque, ao casar-se, a mulher se suplicara que deixasse o «jogo do coice» (que, para além do mais, ela achava «perigoso» e se dedicasse ao ténis (que ela também jogava…) que era muito mais «chique» (tendo, por vezes, até D. Carlos, o Rei, a praticá-lo).

 

Decidindo manter no FC Porto as «cores da bandeira da pátria» (o azul e branco que Nicolau de Almeida lhe dera quando o fundou, no dia de aniversário de D. Carlos e de D. Amélia), sabendo-o republicano houve quem estranhasse e sugerisse as «cores da bandeira da cidade», Monteiro da Costa recusou-o e explicou:

 

- Não, porque tenho a esperança de que o nosso clube há-de ser grande, não se limitando a defender apenas o bom nome da nossa cidade.

 

O que significava mulher magra e o «enforcamento» do anúncio

 

Por «modernismo», Sara Monteiro da Costa, a sua irmã mais velha, não tardou a abrir, no Campo da Rua da Rainha, uma classe de ténis para senhoras. Juntou-lhe a patinagem. Que também era chique. Porém, tenistas ou patinadoras, só podiam ser sócias do FC Porto – com autorização dos pais ou dos maridos, rezavam, precisos, os regulamentos do clube. (Pior era, contudo, o que se passava no Código Penal: permitia que marido que assassinasse esposa adúltera «redimisse a falta com apenas seis meses de desterro da comarca»…)

 

Achava-se que mulher magra era «sinónimo de fraca saúde, maldade ou ambição desmedida». E se alguma «mais afoita» quisesse jogar ténis ou fazer patinagem a «boa moral» obrigava-a a jogá-lo ou fazê-la coberta até aos pés – e de chapéu. 

 

Assim se passou o tempo até se chegar a 1912 – e foi então que com mulheres magras, mostradas como modernos exemplos de beleza, Jorge Almeida Lima (poderoso proprietário agrícola que nascera em Benfica e que além de lá produzir mel de fama e ser premiado criador de rosas, também era esgrimista) «espalhou o escândalo em Portugal» através de um ensaio fotográfico como nunca antes se fizera. A fotografia era entendida como um «bello ramo de sport» - e nesse «sport photographico» ele fotografou mulheres de peitos descobertos ou integralmente nuas enrodilhadas em plumas num «trabalho de arte» sobre «estética e erotismo».

 

Novidade já não era aparecerem por jornais e revistas «reclames» a tentarem «madames» a «darem ao corpo beleza», emagrecendo. Aliás tentavam-nas a mais do que só emagrecerem: por exemplo, através de 40 francos numa carta para Paris, o Prof. Desbonnet prometia truque para que «qualquer senhora cresça sete centímetros em três meses sem droga e sem nenhum exercício perigoso de enforcamento» - e Margaret Mercier tinha segredo para «aumentar 15 centímetros de busto em apenas 30 dias» (no anúncio só não dizia quanto é que isso custava.)

 

O que as «modernas» mulheres pagaram para ver o FC Porto-Benfica (e o que levou a que outras morressem numa greve)

 

Nesse ano de 1912, houve pela primeira vez mulheres no atletismo dos Jogos Olímpicos, mas por cá as poucas que corriam – corriam exóticas atrás de patos à trela nas Festas Desportivas que se faziam das Caldas da Rainha à Amadora, de Espinho à Póvoa, como divertimentos de verão. «Modernas», era assim que se dizia que eram as que, chiques, jogavam ténis, mas para o jogarem tinham de jogá-lo de chapéu e vestidos a roçarem o chão dos courts – e por «requinte» num torneio no Parque Silva Graça, no Estoril, Teresa Guarda, a campeã, usou gravata na blusa.

 

Apesar da República instaurada, o escudo ainda só era escudo na lei que o criara, por dificuldade no fabrico de notas e moedas, os réis da monarquia que continuavam em circulação – com mil réis a valerem um escudo. O soldo diário de um assalariado agrícola (do melhores pagos) andava pelos 150 réis. Greve fizeram as costureiras de Lisboa porque pagando-lhes 200 réis por 11 horas de trabalho diário, queriam mais 50 réis – e a «chique» Perfumaria Balsemão vendia embalagem da sua «moderna novidade»: Rouge Líquida Sirene a 1600 réis nos anúncios nos jornais apresentava-a assim: «o único que dá deliciosa cor de nácar à cútis da mulher e torna os lábios verdadeiros botões de rosa.» (Quando, à entrada de 1913, passou, enfim, a haver só escudos, um escudo eram 1000 réis, sendo também, 10 tostões pela boca do povo).

 

Sim, de quando em quando viam-se mulheres no futebol, mas não muitas: as «modernas senhoras» («moderno ou moderna» era adjetivo muito em voga e sempre com um toque de «chique» a aconchega-lo) que lá iam, iam lá como iam ao passeio na praia, ao sarau da ópera, à exposição canina ou à declamação de poesia, às garden party, aos chás e às matinés dançantes: «sem nunca deixarem de realçar a elegância e a delicadeza nos seus modos e nos seus trajes» - e esses seus trajes eram, por baixo dos espartilhos de barbas e das calças atadas aos joelhos ou as combinações, os vestidos descendo até aos pés, a blusa, o paletot ou o carrick – e sempre, sempre, o chapéu. (Enormes e espalhafatosos, eram amiúde, os chapéus – e, por isso, em 1910, o Governo Civil de Lisboa proibiu o uso desses assim nas salas de espetáculos por «dificultarem a visão de que está atrás…) 

 

Ao falar da primeira vez em que o Benfica jogou contra o FC Porto, jornal do Porto pô-lo em destaque: «Entre a assistência via-se grande número de senhoras que davam ao agradável recinto do vasto campo da Rua Antero do Quental um aspeto alegre e festivo». Esse primeiro FC Porto-Benfica foi no primeiro campo do FC Porto, a 28 de abril de 1912 - ainda lhe chamavam o Campo da Rua da Rainha, a rua é que já não era da Rainha, com a implantação da República passara a ser Rua Antero de Quental...

 

Indo o Rei e a Rainha para o exílio (D. Amélia não deixou de montar a cavalo, D. Manuel não deixou de jogar ténis) – por cá, Portugal continuara a agitar-se nas ruas (e não só…): à imensa massa de operários e assalariados agrícolas, a queda da monarquia dera-lhes uma ilusão de felicidade. Esfumara-se num fósforo, desataram as greves ao reboliço – e antes desse FC Porto-Benfica, a GNR matara duas trabalhadoras das conservas em Setúbal numa manifestação em que elas exigiam apenas que os seus salários passassem de 40 réis à hora para 50. Para se ver o jogo teve de pagar-se bilhete, bilhete como já se pagara um mês antes, na partida em que os portistas conseguiram a sua primeira vitória internacional: 4-1 sobre o Fortuna de Vigo.

 

Nesse desafio contra os galegos cada bilhete custou 320 réis – e quando o tesoureiro do FC Porto, fazendo as contas às despesas, percebeu que ainda ficara com quase 146 mil réis rejubilou. E só não rejubilou ao ver que a receita de bilheteira ultrapassara os 170 mil réis (ou seja, 170 escudos) de lucro no desafio que se fez 15 dias depois contra com o Vie au Grand Air du Medoc – porque para jogar no Porto os franceses exigiram um cachet de 500 francos que não compensou o que se apurara na venda dos bilhetes. Não, no campo o FC Porto também não ganhou, o resultado foi empate: 3-3 – e antes de os franceses para lá irem tinham jogado com o Benfica, o Benfica ganhou-lhes por 6-1 e o que os jornais da época disseram, em uníssono, foi: «nunca uma equipa portuguesa de football se exibiu com tanta qualidade.»

 

Benfica não exigiu cachet como exigiram os franceses e mesmo assim houve 13 réis de prejuízo (e pior foi a derrota por 8-2)

 

Em 320 réis se mantiveram os bilhetes para esse primeiro FC Porto-Benfica da história e na véspera o Jornal de Notícias anunciou: «Os jogadores lisboetas chegaram ao Porto no Rápido, às 11.57 da noite, acompanhados de grande número de sócios do Benfica e de outros clubes de Lisboa.» Ao contrário dos franceses do Medoc, o Benfica não exigiu cachet, exigiu apenas despesas pagas – e, por isso, os dirigentes do FC Porto suplicaram à CP  desconto  nas tarifas, conseguiram a «boa vontade de um corte de 50%». Como levaram duas equipas, uma de primeira e outra de segunda categorias – os portistas acabaram, mesmo assim, por ter prejuízo, um prejuízo de 13 réis.

 

Pior do que o prejuízo na tesouraria foi, porém, o que aconteceu em campo: o Benfica venceu por 8-2 a partida de primeiras categorias. (Na de segundas, pela manhã, também ganhara, por 2-1.) Pelo FC Porto não puderam alinhar os seus dois melhores jogadores, ambos ingleses que trabalhavam na indústria do vinho: Janson, o guarda-redes, e Harrison o avançado-centro. Para o lugar de Janson foi Manoel Valença, para o de Harrison foi João Cal - e foi de João Cal o primeiro golo do desafio.(Também foi dele, o segundo, o outro do FC Porto)

 

Tão pouco foi o destaque que se viu nos jornais da cidade, que nem sequer se ficou a saber por eles quem marcou os oito golos do Benfica – o que se soube foi, por exemplo, isto, o que está na História do Futebol Clube do Porto, a primeira história do clube que se publicou, escrita por Rodrigues Teles: «No grupo de Lisboa distinguiu-se Artur José Pereira, um jogador extraordinário e, sem dúvida, o melhor da equipa. Além deste, há a destacar os defesas, especialmente o direito (não se lhe dizia o nome, era Henrique Costa). Cosme Damião, o médio centro, muito correto e trabalhador. Por fim, de destacar ainda Luís Vieira, o avançado centro.»

 

Na História do SL Benfica de Mário de Oliveira e Carlos Rebelo da Silva também não há qualquer referência aos marcadores dos 8 golos do Benfica (o que lá está é, também, o que está na história do FC Porto de Rodrigues Teles) - mas, a informação dos marcadores dos golos do Benfica só não se perdeu de todo nos alçapões da história porque houve quem lhe desse registo: foram três de Luís Vieira, dois de Artur José Pereira, um de Francisco Belas, um de Virgílio Paula e um de João Martins dos Reis, de João Martins dos Reis foi o primeiro.

 

Do lance insólito (ou da ignorância do árbitro...) à prisão de Vigo

 

Por jornal do Porto o que não deixou de se saber, porém, foi de lance insólito a marcar esse primeiro desafio entre portistas e benfiquistas: «Um jogador do Benfica meteu uma bola na própria baliza, sofrendo a seguir um pontapé de canto, porque o refree achava que assim rezava a lei». O FC Porto alinhou com Manoel Valença; Luís Barreto e Victorino Pinto; Mário Maçãs, Charles Allwood e Camillo Figueiredo; Camillo Moniz, Herman Webber, Douglas Grant, João Cal e Ivo Lemos - e o Benfica com Paiva Simões; Henrique Costa e Francisco Bellas; Carlos Homem Figueiredo, Cosme Damião e Artur José Pereira; João Martins dos Reis, Francisco Pereira, Luís Vieira, José Domingos Fernandes e Virgílio Paula.

Depois do jogo no Porto, o Benfica deu um salto à Corunha – para os seus primeiros jogos no estrangeiro. (Três dos jogadores que bateram o FC Porto tiveram, contudo, de regressar a Lisboa, por afazeres profissionais: Carlos Homem de Figueiredo, Luís Vieira e Paiva Simões – e sendo Paiva Simões guarda-redes, para a baliza foi Germano de Figueiredo, que jogava como extremo – e também era corredor de 100 metros, António Stromp tirou-se o lugar na equipa para os Jogos Olímpicos de Estocolmo por um peito.

Numa semana, o Benfica fez três partidas com o Real Corunha, ganhou uma, perdeu duas. Na última, a favor dos «Niños Descalzos», ante presença das «senhoras de mais alta sociedade galega», Artur José Pereira desentendeu-se com um adversário que lhe fizera falta rude – e quando ele se levantou para lhe pedir desculpa, o que é que aconteceu? «Desatou a insultar o outro jogador perto da tribuna da presidência em condições que vexaram Cosme Damião, como capitão de equipa. Cosme, disciplinador, para marcar bem a sua reprovação pela atitude assumida por Artur, castigou-o em público, expulsando-o e ajudando, até, a fazê-lo sair do campo. Quando chegaram ao hotel, Cosme deixou o fogoso jogador fechado à chave, no quarto, para que ele não fosse ao jantar que o Real Corunha ofereceu aos seus hóspedes...»

 

Ao tomar conhecimento do que se passara, elogiando Cosme pelo seu fair-play – Carruncho, o capitão galego, pediu-lhe que «cessasse o castigo» a Artur, oferecendo-se para o acompanhar ao hotel, a buscá-lo – e assim aconteceu…

 

36 escudos e banho quente, o que Artur José Pereira ganhou com a rebeldia

 

Não muitos meses depois, Artur José Pereira voltou à ribalta (por causa das suas já «famosas rebeldias). Pedro Franco, o dono da Farmácia Franco (onde se fundara o Sport Lisboa…) dera-lhe emprego na farmácia, o emprego não era bem emprego, o que se dizia era: «O que o Artur José tinha fazer, pouco era. A maior parte do tempo passava-o com o patrão, que não escondia a admiração que tinha pelo seu jeito para a bola, a jogar bilhar numa loja próxima ou a conversarem sobre futebol no café ao lado…»

 

Depois de ter levado o Benfica a campeão de Lisboa de 1913/1914, anunciou-se que o clube o suspendera por seis meses, Cosme Damião justificou-o assim: «De um instante para o outro, Artur José Pereira recusou-se a treinar como qualquer outro jogador.» Sabendo-o castigado, por sugestão de Francisco Stromp, José Alvalade desafiou-o para o Sporting, oferecendo-lhe 36 escudos por mês. Artur José Pereira tornou-se, assim, o primeiro o primeiro futebolista assumidamente remunerado da história de Portugal (contrato assinado nunca houve, houve apenas entre ele e Stromp acordo de palavra e isso bastou…) — e outros privilégios lhe couberam: «prioridade no uso da única banheira de água quente do estádio» e, para que a «pirraça aos benfiquistas fosse maior ainda», ainda se decidiu «nomeá-lo para o honroso cargo de capitão de equipa» (disse-se).

 

(36 escudos por mês era fortuna? Depende. Francisco Lázaro, o maratonista que sonhara ganhar os Jogos Olímpicos e morrera em Estocolmo - ao deixar Lisboa ganhara 6 tostões por dia como carpinteiro no Bairro Alto, fazendo 25 dias de trabalho ficava com 15 escudos. E pela sua vitória no Concurso Hípico do Porto, o capitão Lusignan de Azevedo ganhou 500 escudos de prémio. E por 12 escudos vendia-se o Zodiac, aparelho de electro-massagem, que os fabricantes garantiam «curar nevralgias e reumatismos, ciáticas e lumbagos, gota e dor de estômago, desfazer perturbações nervosas e rugas e pés de galinha - e alindar os seios das senhoras, renovando-lhe e conservando-lhe a firmeza»...)

 

A razão do corte com o Benfica, Artur José Pereira (que em 1946 Cândido de Oliveira consideraria em A BOLA o melhor jogador português de todos os tempos) deu-a singelo:

 

- Quiseram castigar-me, beliscaram a minha dignidade, fui-me embora...

 

e, logo nesse ano de 1914, campeão de Lisboa já não foi o Benfica, foi o Sporting.

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