O que a Amadora tem a ver com Jorge Jesus (e os Cinco Violinos do Sporting com o pai)

Futebol 10-01-2021 17:45
Por António Simões

Andava-se algures por 1943 (nesse tempo em que uma bicicleta custava dois contos e casacos de patas de raposa e punhos de lobo custavam sete) e a troco de 20 contos – verba que se considerou exagerada para clube em «dificuldades financeiras» levando até a escaramuças entre diretores – o Sporting foi ao Seixal buscar Albano Pereira, o Albano que acabaria de rasgar a história como um dos seus Cinco Violinos. 

 

Outra das contratações de Joseph Szabo foi Virgolino António de Jesus. Ainda não tinha 19 e, para o levar do Bom Sucesso de Pedrouços o Sporting não precisou de abrir tanto os cordões à bolsa: «Eles ainda lucraram com a transferência, o quanto é que não sei. Mas foi um bom negócio e agradou a todos».

Isso contou Virgolino de Jesus a Pedro Cravo em maio de 2007 – numa reportagem de A BOLA marcada por tremendo sentimentalismo: Jorge Jesus, o filho, era treinador do Belenenses, levara o Belenenses à final da Taça de Portugal, do outro lado estava o Sporting. Sócio do Sporting era, então, Virgolino, havia mais de 50 anos: «Sou do Sporting da cabeça aos pés, mas garanto que, na final da Taça vou torcer pelo Belenenses. Vai ser a primeira vez que não vou torcer pelo Sporting, mas o que eu mais quero é que o Jorge ganhe esta Taça, para ficar ainda mais orgulhoso dele.»

 

Azar de Virgolino? Ter Peyroteo no Sporting

Quer o Albano, quer o Virgolino entraram para a equipa que ganhou o Campeonato de Lisboa – e com Peyroteo lesionado, Virgolino fez oito jogos. Logo na estreia, a 26 de setembro de 1943, contra o Atlético, marcou um golo, um golo especial: faltavam seis minutos para o fim, o Atlético estava a ganhar, ele colocou o placard em 3-3 (e aos 88 Albano fez o 4-3). Não, o Sporting não venceu o Campeonato de Lisboa dessa época de 1943/44, foi terceiro atrás do Belenenses e do Benfica mas ganhou o mais importante: o Campeonato da I Divisão.

 

No Campeonato da I Divisão, Joseph Szabo manteve Albano na sua linha avançada, o Virgolino não, tirou-o porque já tinha Peyroteo disponível: «O Peyroteo era de outro mundo, tinha um remate fortíssimo, mas não só. Hoje, valia um balúrdio. Aliás, não sei se haveria dinheiro para lhe pagar. Ele, era fantástico e não só como jogador. Ele e todos os outros com quem joguei no Sporting, os outros Violinos. Fantásticos em todos os capítulos. Davam bom ambiente, eram muito amigos. Não eram nada vedetas. Nem parecia quem eram. Então jogar com eles nem se fala. Era um show. As pessoas deliravam, parecia que tudo era fácil».

 

Coimbra tornou-se o inferno de Virgolino e ele não aproveitou o soco de Peyroteo

Passou-se à época de 1944/45 – e com o Sporting em luta apertada pelo título de campeão nacional com o Benfica (não, não o ganhou), Peyroteo sofreu distensão muscular, entrou de baixa. Joaquim Ferreira (que substituíra Szabo como treinador) chamou Virgolino para os jogos das duas últimas jornadas – e, no Campo de Santa Cruz, contra a Académica, caiu no inferno: «Tive de ser operado à perna porque sofri uma entrada muito violenta de um jogador da Académica. Chamava-se Portugal. Desfez-se em desculpas mas o mal estava feito e eu fiquei parado meses. Foram tempos muito difíceis, pois estava no Sporting e era sempre muito complicado entrar na equipa. Já para não falar do dinheiro que perdi por não jogar…»

 

Depois do Sporting eliminar o FC Porto e a Oliveirense, nas meias-finais coube-lhe o Benfica. Na primeira mão, foi ganhar ao Lumiar por 2-1 e na segunda mão o Sporting foi ganhar ao Campo Grande por 3-2 – depois de ter marcado dois golos, Peyroteo deu soco a Gaspar Pinto e foi expulso «por não conseguir mais resistir à agressividade no jogo, aos insultos e impropérios que o benfiquista lhe voltara a lançar-lhe.»

 

Em torno de Peyroteo criou-se onda de solidariedade nacional – que se fez, por exemplo, através de 38 telegramas, 153 cartas e 225 cartões postais. Em A BOLA, Ribeiro dos Reis quase suplicou para que a FPF não o castigasse, mas castigou. Sem Peyroteo por causa com soco e sem Virgolino por causa do drama na perna e das muletas, o Sporting ganhou a Taça ao Olhanense, com um golo de Jesus Correia. Dias depois, Joaquim Ferreira foi assassinado no Parque Eduardo VII – e, para treinador do Sporting, Ribeiro Ferreira não tardou a chamar Cândido de Oliveira.

 

Soldador na Amadora, Virgolino chegou a estar preso pela PIDE (e a sua sorte talvez tenha sido o Sporting)

Com Cândido Virgolino não fez um único jogo na primeira equipa do Sporting, grande parte do tempo estivera a recuperar da perna amachucada em Coimbra – e em meados de 1945 foi jogar para o Vitória de Setúbal, o clube da cidade onde nascera a 18 de dezembro de 1924, o clube de que o pai era adepto fervoroso: «Depois do Vitória ainda joguei pelo Atlético do Cacém, acabei no Linda-a-Velha nos finais dos anos 50. Sem nada ganhar, claro. Safava-me porque estava na Celcat.»

 

Virgolino casara-se com Elisa e foram viver para a Amadora porque na Amadora era a Celcat, empresa de cabos elétricos onde Virgolino trabalhava como soldador: «Sabe que eu estive preso por ser antifascista? Lá, na Celcat, apanharam-me a distribuir panfletos e outras coisas contra o regime. Era preciso procurar melhores condições de vida e eu já tinha três filhos, mulher e muita coisa para pagar. A PIDE deu comigo a manifestar-me e prendeu-me. Estive na sede, na António Maria Cardoso ainda alguns dias. Libertaram-me e tenho a impressão de que foi um amigo meu dos tempos do Sporting que me ajudou. Se não fosse ele não sei como seria a minha vida.»

 

Jorge Jesus estava a ver a mais longa final da Taça quando, a seu lado, o avô morreu

O primeiro dos filhos a nascer-lhes fora o Carlos – que chegou a presidente do Operário Rangel, o clube que organiza a São Silvestre da Amadora. Oito anos depois, a 24 de julho de 1954 nasceu-lhes o segundo: «Foi em casa, na Amadora, que o Jorge nasceu. Fui a Algés buscar uma parteira. Fui e vim de táxi. Aliás, os meus filhos nasceram todos em casa. O mais velho foi no Dafundo que nasceu, pois era onde morávamos nessa altura». Batizaram-no como Jorge Fernando, Jorge Fernando Pinheiro de Jesus.

 

Nos jogos pelos becos da Falagueira, com pedras e pneus a servirem de balizas, ganhou uma alcunha: O Carinhas. Já se lhe percebera, enleante, o dom para a bola quando, a caminho dos 13 anos, o avô levou Jorge Jesus à final da Taça entre o Vitória de Setúbal e a Académica. Nunca houvera e nunca mais houve final assim: durou 144 minutos. Antes de Jacinto João fazer o golo da vitória do Vitória, o avô morreu-lhe ao lado de um ataque cardíaco.

 

Do susto da inflamação da pleura à noite que lhe mudou a vida por a cara lhe cair para o prato da sopa

Já no Estrela da Amadora em busca do seu destino, Jorge Jesus apanhou susto de morte (e a mãe ainda mais): «Costumava equipar-me na zona de frente para a porta de entrada e por causa das correntes de ar apanhei uma inflamação da pleura. Lembro-me de ver a minha mãe chorar. Estava numa aflição tão grande que vi que aquilo era mesmo grave. Tive a sorte de ser acompanhado por bons médicos. Disseram-me que não podia comer gelado e nunca mais lhes toquei, até hoje».

 

Por essa altura, em redor dos 15 anos, Jorge Jesus também andava já como aprendiz de soldador na Celcat – e ainda tinha de estudar à noite no Liceu da Amadora: «Certo dia, cheguei a casa às onze e tal da noite, estava a jantar e lembro-me perfeitamente que adormeci à mesa e a minha cabeça caiu dentro do prato da sopa. O meu pai chamou-me e disse-me para escolher entre os estudos, o trabalho e o futebol.» Não precisou nem de um segundo para mostrar onde tinha o sonho, soltou-o em brado: «O que quero mesmo é ser profissional da bola» - e Virgolino disse-lhe que sim, que fosse.

 

Em 1971, o Sporting foi à Amadora desafiar Jorge Jesus para a sua equipa de juniores, dando-lhe 750 escudos por mês (quando um salário normal fora do futebol andava pelos 1250 escudos) – e o resto é o que se sabe com a imortalidade ganha mais como treinador do que como jogador (e como treinador do Estrela da Amadora também…)

 

Ler Mais
Comentários (7)

Últimas Notícias