O dia em que na lama se descobriu (em pânico) que Ronaldo tinha de ser operado ao coração…

Futebol 10-01-2021 20:35
Por António Simões

É uma das histórias contadas em História na Vida de Cristiano Ronaldo que A BOLA tem à venda em edição digital – a história de Cristiano Ronaldo a lutar contra o seu próprio coração e um destino que talvez pudesse ter sido trágico…

Ronaldo andava pelos seus 15 anos – e o Sporting foi a Pina Manique jogar com o Casa Pia AC para o campeonato de iniciados (a 19 de outubro de 1999). Para tratar do jogo, o jornal do clube enviou ao estádio um poeta (poeta de verdade e de renome): José do Carmo Francisco. Claro: nessa sua crónica não deixou de sublinhar a «contrariedade» por que o Sporting passou (mesmo ganhando por 5-0): a taquicardia que, aos 30 minutos, o atirou para fora do campo e para dentro do susto - e que José do Carmo Francisco haveria de colocar (anos depois) no que chamou Poema Periférico para Cristiano Ronaldo (quando já ganhara a Bola de Ouro, chegara já, fulgurante, à eternidade) – recordando-o, entretanto (como no poema): «O campo era pelado, virou lamaçal, estava muito frio e ao mesmo tempo uma chuva miúda – e talvez tenha sido isso que criou as condições para a taquicardia à mesma hora em que a mãe abria um pão para colocar uma banana, manjar de quem era em 1999 ainda pobre.»

 

Ronaldo queixou-se: «O coração disparou muito rápido» (e o resto do jogo foi na marquesa do balneário)

Com o Sporting treinado por Rui Palhares (numa equipa em que, para além de Fábio Ferreira, também estava Carlos Saleiro – o primeiro futebolista da história a nascer bebé-proveta) - mal começara a partida no Campo nº 2 de Pina Manique, Ronaldo sentiu impressão no peito, depois de dois golos falhados (como não era hábito) travou galope que esboçara, queixando-se num murmúrio a embrulhar-se de medo: «O coração disparou muito rápido!».

 

António Cardoso, o árbitro que tinha formação de enfermeiro, largou num clamor: «Têm de tirar o rapaz do jogo, já!» Foi o que se fez – e José do Carmo Francisco relembrou-o: «Logo ali, o enfermeiro Fontinha, que era o massagista da equipa, lhe deu injeção que lhe evitasse súbitos males piores. Acompanhou o Cristiano Ronaldo para o balneário, deitou-o numa marquesa, assim ficou até ao fim do desafio, acompanhado pelo senhor Atanásio, o delegado ao jogo».

 

Presumindo-se que pudesse ter sido um fugaz incidente apenas (porque, nos exames do Centro de Medicina nada se lhe notara de estranho), não foi – e, meses depois, num treino da seleção de Lisboa (com vista ao Torneio Lopes da Silva) no campo do Clube Atlético Cultural da Pontinha voltou-lhe o desconcerto, Ronaldo precipitou-se de rosto a vincar-se para a linha lateral, queixando-se a Rosa Pereira, o massagista da AFL, do que já antes se queixara a Manuel Fontinha: «De vez em quando o coração dispara muito rápido, canso-me depressa.»

 

O telefonema que pôs Dolores em pânico e o que Ronaldo fez depois de sair do hospital

Rosa Pereira mediu-lhe o pulso e não teve dúvidas no diagnóstico: arritmia cardíaca. De pronto se determinou que Cristiano Ronaldo teria de ser operado de urgência ao coração – e que, para isso, era precisa autorização dos pais, Dolores Aveiro contá-lo-ia (a um repórter do The Sun): «O telefonema deixou-me gelada. As minhas pernas enfraqueceram. O meu filho teve um problema, tinha um problema: mesmo em repouso, o coração batia demasiado depressa. Tive de assinar um montão de papéis para que o internassem num hospital, lhe fizessem exames. Finalmente, decidiram operá-lo. Utilizaram um laser para reparar uma zona danificada e, uns dias depois, já estava em casa. Antes de se saber com exatidão o que estava a acontecer, tive muito medo que ele deixasse de poder praticar futebol, o próprio médico me disse que isso poderia acontecer, só se saberia depois dos exames.»

 

A cirurgia a que teve de se sujeitar de urgência – Ablação por Cateter – fez-se no Hospital do Coração, em Carnaxide (com junho de 2000 a correr para o fim): «passando um fino tubo flexível através dos vasos sanguíneos até ao coração, eliminado rotas elétricas anormais e não desejadas no tecido cardíaco.»

 

Ao hospital conduziram-no Aurélio Pereira e Nuno Naré que, responsável pelo Centro de Estágio de Alvalade, era, então, seu encarregado de educação, o confidenciou: «No início senti-o assustado, mas ele teve sempre um espírito positivo e otimista, que lhe permitiu ultrapassar aquele momento.»

 

A Naré coube igualmente apanhar Ronaldo após a alta – e como a época terminara e o Centro de Estágio de Alvalade fechara, levou-o para sua casa convalescer (só duas semanas após a cirurgia se lhe aconselhava viagem para o Funchal) e em CR7 – Os Segredos da Máquina de Luís Miguel Pereira e Juan Ignácio Gallardo, Nuno Naré recordou-o (em gracejo): «Calhou bem porque coincidiu com a mudança de casa do meu irmão e o Cristiano, que tinha muita força, deu uma ajudinha.»

 

A arritmia que abalava Cristiano Ronaldo derivava de lesão congénita (dessas que não sendo detetadas a tempo, por vezes podem precipitar desfechos trágicos, como o de Miklos Féher ou António Puerta) – e Dolores Aveiro igualmente o revelou: «Também não passou muito tempo parado, graças a Deus… Pouco depois de sair do hospital já estava a treinar com os seus colegas, correndo muito mais depressa do que antes…»

 

Depois de poder voltar a jogar, enfrentou um gangue («e os ladrões nada levaram»)

Não, não foi tão pouco tempo assim – pois no arranque da época de 2000/2001, apesar de integrado no rol dos 32 jogadores do plantel de juvenis, Luís Martins, o treinador da equipa, recebeu ordem para não o utilizar em situação normal até nova determinação médica: «A pouca atividade que fazia era monitorizada com cardiofrequencímetros dentro da sala e nunca no campo. Nos treinos chegava a equipar-se, brincava com a bola e observava os colegas a partir do banco. Sentia-o ansioso por recomeçar, sentia-o a pensar: Estou aqui a arder!»

Dois meses se enfarinhou Cristiano Ronaldo nessa mal disfarçada angústia – e após exame especial no Centro de Medicina de Lisboa, a 2 de setembro de 2000 pôde, enfim, ir de novo a jogo (mas apenas em meia parte, contra o Despertar de Beja).

A titular (indiscutível e sem mais sombra no corpo) voltou a partir de outubro – e às primeiras semanas de 2001 envolveu-se em escaramuça que lhe mostrou, vincado, outro traço do seu caráter: «Um gangue saltou para cima de mim e dos meus colegas na rua. Os outros fugiram, mas eu enfrentei-os e lutei – e os ladrões acabaram por não levar nada». Era mais um sinal do seu caráter, do caráter que haveria de levá-lo à imortalidade, que só não começou a abrir-se ainda mais cedo na equipa principal do Sporting por causa da operação ao coração (os pormenores estão, surpreendentes, talvez em Histórias na Vida de Cristiano Ronaldo…)

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