«Há muitos jogadores a sofrer em silêncio»

Futebol 03-01-2021 09:04
Por Nuno Saraiva Santos

O presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol afirma-se um otimista. Em tempos sombrios, Joaquim Evangelista arma-se da palavra assertiva e lança mãos à obra para defender, de corpo e alma, a classe. Para a qual quer mais, pede mais, porque entende ter direito a mais. Dá o exemplo e espera que outros o sigam.
 

Proponho-lhe um desafio: se tivesse de pintar um quadro intitulado o ‘Futebol Português’ o que mostraria a tela?

- [pausa] Hope. Esperança. Sou muito otimista e sendo-o tenho de olhar para o futuro. Não posso olhar para o passado. Tenho de olhar para as soluções e não para os problemas. Tenho de os identificar, mas tenho de lhes dar uma resposta enquanto líder de uma organização, enquanto parte de um todo, de um fenómeno que, de facto, está muito agastado. A sociedade portuguesa em geral, mas o futebol em particular. Tenho de pintar um quadro de esperança, tenho de transmitir uma mensagem positiva, tenho de dar energia às pessoas, aos jogadores, aos dirigentes, aos clubes. Porque é disso que precisamos. Não podemos, neste momento, perder muito tempo a pensar. Temos de agir. Portanto, o meu quadro seria sempre de otimismo. Como a luz de Lisboa [olha pela janela do 3.º andar no número 11 da Rua Nova do Almada].

 

- Mas 2020 é um ano sombrio…

- É verdade. Mas eu foco-me mais na luz. Tivemos imensos problemas, mas também se criaram imensas oportunidades. E se calhar o futebol português estava a precisar disso. De refletir. Não precisava era de uma pandemia para o fazer…

 

- Esta crise pandémica, em vez de significar uma aproximação ao abismo, pode, ao invés, ser uma janela de oportunidade? É isso?

 

- Aí já se exige alguma reflexão. Estava convencido de que a pandemia, a crise, o agravamento dos problemas, o precipício, nos mobilizasse e nos aproximasse…

 

- E isso não aconteceu?

 

- Estava convencido de que a solidariedade que todos manifestam fosse efetiva. No sentido de fazermos todos parte da solução. Aquilo que constato é que cada um continua a olhar para o seu umbigo. A grande maioria tornou-se mais egoísta, muito insensível, a olhar muito para si. Isso incomoda-me, porque vai, obviamente, criar mais dificuldades na procura e implementação de soluções. No início, estava convencido de que este murro no estômago nos aproximasse, mas não foi isso que constatei. E tenho andado no terreno, tenho falado com as pessoas. Alguém dizia que a preocupação maior é ver a sociedade a desfazer-se do ponto de vista da relação, do humanismo que deve existir e da identidade que nos deve monopolizar. No futebol também está a acontecer isso. Nós corremos esse risco. De perder a nossa identidade, de perder aquilo que de mais importante o movimento associativo tinha: apesar das divergências, uma grande coesão.

 

- Falemos do Plano de Emergência Reforçado.

 

- Sim, contempla três vertentes. O emprego, e aí respondemos a dois níveis: através do estágio dos jogadores, um espaço que lhes permite manter a forma física, ter formação e rapidamente integrar os clubes. Tivemos mais de 40, uma taxa de empregabilidade superior a 50 por cento. E vamos agora fazê-lo em janeiro, pela primeira vez. O Fátima desistiu do Campeonato de Portugal, há jogadores que estavam no estrangeiro, que regressaram e que nos pediram e, por isso, vamos, excecionalmente, realizar um estágio em janeiro para manter os jogadores no ativo e rapidamente lhes conseguir um clube. A outra resposta foi através do Fundo de Garantia Salarial. Todos os jogadores que tiveram problemas tiveram uma resposta do Sindicato. Articulada com a Federação na maioria dos casos, mas depois também respondemos àqueles que não estavam no sistema, que são abandonados… Além da resposta alimentar, das condições para dormir, e isso tem de ser imediato, procurámos dar-lhes uma ajuda financeira, apoio jurídico, psicológico. E aos que não conseguiram resolver o problema em Portugal pagámos-lhes a viagem de regresso em segurança ao seu país. A fundo perdido. Fazemos isto articulados com as instituições nacionais. Com o SEF, a Polícia Judiciária, com a Federação, com grupos que têm responsabilidade de dar resposta a isto, ou seja, não é uma resposta pontual, atípica, sem saber o que estamos a fazer. Nós temos uma obrigação institucional. Temos de estar presentes e ter uma resposta articulada. E fizemo-lo. Ao nível social, afetámos um montante de 250 mil euros, a fundo perdido, para aqueles casos mais graves de carência económica, ao nível da habitação, da saúde, familiar. A todo os jogadores que nos liguem e nos demonstrem, sem muita exigência burocrática, que estão a viver esse problema, imediatamente adiantamos entre €250 a €750.

 

- É possível quantificar quantos pedidos já deferiram?

 

- Mais de duas dezenas. Fiz um apelo aos capitães de equipa, fiz o apelo público… É para todos os jogadores que estejam nessas circunstâncias e precisem efetivamente de apoio. Não aceitamos que ninguém utilize este instrumento para se aproveitar em detrimento de outros que precisam. Temos muito esse cuidado. Mas mais uma vez lanço o apelo, através de A BOLA: os jogadores que me estão a ler e que precisem de apoio basta ligarem para o Sindicato e imediatamente são ajudados. Não há um jogador, que estando em dificuldades e nós tendo conhecimento, não tenha sido ajudado. Nós não permitimos isso. Não deixamos ninguém para trás. A minha equipa é muito solidária desse ponto de vista. Tenho um conjunto de ex-jogadores que são muito boas pessoas, que são solidários e que querem fazer o bem. Que não haja dúvidas. E depois temos a resposta ao nível da saúde.

 

- Com particular enfoque na saúde mental, uma doença escondida. É um problema no futebol?

 

- Talvez seja a doença que mais afeta a população, neste momento há cada vez mais casos. Conscientes disso, de que há muita gente a sofrer em silêncio, não só no desporto, mas na sociedade em geral, de que há muito jogador a sofrer em silêncio, quisemos acabar com o tabu. Discutir o tema, refleti-lo e acho que conseguimos. Não foi uma vaidade do presidente do Sindicato ou do Sindicato, fizemo-lo de forma articulada, realizámos primeiro um inquérito, fomos ter com os jogadores, com especialistas associados à Sociedade Portuguesa de Psicologia do Desporto, com a Federação… Colaboraram no inquérito, demos a conhecer os resultados, elaborámos um manual, um guia de saúde mental com as premissas básicas para os jogadores perceberem, mas não ficámos satisfeitos com isso. O que fizemos a seguir? Fomos bater à porta da Ordem dos Psicólogos e desafiámo-la a associar-se a este projeto. Aderiram 402 psicólogos. Criámos essa bolsa a nível nacional, incluindo ilhas, o jogador quando tem um problema liga-nos, nós encaminhamo-lo para a sua área de residência ou para o psicólogo que eles, naqueles 402, identificarem e a partir daí é um processo clínico reservado, confidencial entre jogador e médico. O Sindicato suporta as primeiras quatro consultas. Posso dizer que neste momento, sem precisar números, também temos mais de duas dezenas de jogadores a frequentar essas sessões e satisfeitos.

 

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