O meu Conto de Natal - histórias duma noite santa!… (artigo de José Neto, 115)

Espaço Universidade 14-12-2020 18:54
Por José Neto

Parte I - Vou ao encontro das recordações do passado para construir mais um conto de Natal. Para isso tenho de me vergar perante a luz inspiradora que vai iluminando as curvas cada vez mais apertadas do meu tempo.

 

A mais pequena labareda inquieta e viva duma lareira, quando se encrespa, dá mais brilho aos tristes olhos de quem na noite santa se curva e recurva por entre braços que se amarram, simplesmente no desejo de trazer ao peito um filho…um pai…uma mãe, um avô ou avó que, entretanto, partiram!...

No rosto rompem finas torrentes de lágrimas que lavam as mágoas de incompreensão duma guerra perdida do Ultramar, dum trabalho árduo de emigrante feito na distância, na conquista duma vida melhor pela espera sempre desesperada de um dia poder chegar.

 

Estávamos num 24 de dezembro de 1964. Na casa térrea da Sr.ª Maria ia-se viver o primeiro Natal sem a presença do pai António que, a monte, havia largos meses, tinha emigrado para França.

 

Dos três filhos, Luís, o mais velho de 7 anos, entra na canseira de trepar ao penedo junto ao lameiro para arrancar com as unhas um cestito de musgo para o presépio e já agora um pinheirinho lá da encosta.

 

Enquanto isso, o Rui e a encantadora Mariana, juntos ao avô, partem o pão aos bocadinhos para os formigos. A mãe Maria, engrossa a chama da lareira e, muito a custo, começa a preparar a ceia onde o bacalhau, já demolhado, as batatas e a hortaliça do quintal, vão aguardando.

De vez em quando, Maria, volta a levar o avental aos olhos, para enxugar uma lágrima perdida, deixando sair por entre os lábios o eco abafado e rouco duma negrura que lhe apertava o peito: «a primeira consoada sem o meu António!…»

No cantinho da cozinha já o Luís colocava mais um cavaco e mais outro sobreposto, cobertos a musgo, fazendo de monte e ao lado do carreirinho, feito de farinha, três gorditas ovelhas “pastavam”.

Mais abaixo, numa caixa velha sem tampo que tinha servido para gaiola de periquitos, agora coberta de palhinhas, fazia de perfeita manjedoura, acolhendo Nossa Senhora, S. José e o Menino Jesus. Como não havia a vaca nem o burrinho, o Luís resolve arrastar o presépio para junto do lume, pois assim o Menino estaria mais quentinho!…

 

A Mariana e o Rui estavam tristes porque queriam um presépio como o da Igreja, com pastores, reis Magos, o Anjo e também uma estrelinha.

O avô bem lhes contava histórias, daquelas que encantam, mas de repente lá retorquiu o Rui, olhando para o humilde presépio: «só três ovelhas»?!…

A noite já tinha caído e a ceia já estava pronta a servir, mas … tudo fazia prever que ia ser diferente das outras!…

 

Comida para a mesa, mas ninguém se atrevia a tirar a primeira batata… todos de olhos fixados ao chão e um tremendo silêncio, frio de gélido que era, deixa aquela humilde família inquieta e penosa.

 

Entretanto o leão, cãozito rafeiro, filou as orelhas e desata a ladrar, saltitando dum lado para o outro.

 

— «Queres ver já este sarrafo» – vocifera o avô. Mas qual quê, ninguém segurava o raio do cão que agora até já se atirava contra a porta.

Entretanto ouviu-se de lado de fora: «ó Maria abre, que sou eu!…»

 

«Será verdade, ó meu Deus» … e dum lanço corre para a porta e quem viram?… o pai António, carregando numa mão a mala e na outra um saco de embrulhos amarrados com fitinhas brilhantes e de todas as cores…

 

E uma torrente de emoção fez saltar um forte caudal de lágrimas, agora de alegria … e, naquela humilde casa térrea, voltou a acontecer uma noite santa.

Ainda hoje, quando pelo Natal, lanço os meus olhos por entre os verdes milheirais cortados pelo rio e bem lá no alto descubro o cintilar das luzes soltas em cordões aureolados pela encosta duma Penha Maior, não sei se estrelas serão, o que sei é que por ali habitam outros humildes presépios que se estendem a toda a nossa terra linda que nos acolhe e encanta.

 

Parte II - Em tempo de consoada, hoje condicionada pela dor da ausência de quem habitualmente nos afaga o sentimento do afeto, permitam-me citar o nosso Ilustre Cardeal Doutor Tolentino de Mendonça, conselheiro e bibliotecário de Sua Santidade Papa Francisco, que nos encanta com um conto no livro “o pequeno caminho das grandes perguntas” (2017), numa refeição feita de sentimento tão generoso, construída com palavras:

 

“No tempo da II Grande Guerra (1939/45), um grupo de italianos da Resistência estava prisioneiro num campo de concentração. Chegou o dia de Natal e a mesmíssima ração de miséria foi servida. Cada um deles, para se consolar, recordava o que habitualmente comia em sua casa, nessa quadra: tagliatella al ragù, os ravioli à moda de Génova, a tenra vitela em vinho aromatizado a acompanhar a polenta, e por aí fora.

 

Então um dos líderes decidiu que criassem juntos um prato. «Podemos fazer uma massa com palavras!», avançou. «Mas como?». quiseram saber. O líder pôs-se a falar em modo acelerado, distribuindo ordens muito exatas: «Põe água a aquecer. Tu, vai buscar uma cebola. Depressa, depressa, fá-la fingir numa caçarola. Um dente de alho. Tu, fica de olho no fogo. Junta quatro colheres de azeite. Tu, traz a carne moída. Um copo de vinho branco, onde está o vinho branco? Que maravilha! Sentem já o perfume? Tragam o sal e a pimenta. A massa está no ponto. Escorram rapidamente a água. Tu … tu, rápido, traz o molho para juntar. Eu trato de colocar uma nuvem, apenas uma nuvem de queijo parmigiano e, … já está (bate palmas). Depressa, depressa, cada um aproxime o seu prato.» Os prisioneiros abriram as suas mãos em forma de concha e deixaram que elas se enchessem de um manjar invisível, que levaram à boca, saboreando-o lentamente, como se de um prodígio se tratasse. Quando o último deles foi servido, o primeiro aproximou-se e perguntou: «Posso repetir?»

 

Que a ausência provocada pelo cumprimento das normas da distância, não seja razão para que não se possa cultivar a presença do afeto na consoada, este ano mais leve como a brisa que sopra …mais suave como tempo que voa… mais quente como amor fraterno que aconchega … mais bonito como olhar que abençoa …num desejo mais envolvente e intenso, convertido numa jovial esperança para o reencontro com o futuro.

FELIZ NATAL

 

José Neto: Metodólogo em Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências dos Desporto; Formador Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário/ISMAI.

Ler Mais
Comentários (0)

Últimas Notícias