Bruno, porque saltas e ao mesmo tempo és tão eficaz na conversão de um pénalti? (artigo de Pedro Tiago Esteves)

Espaço Universidade 02-12-2020 17:53
Por Pedro Tiago Esteves

O impacto da chegada de Bruno Fernandes ao futebol inglês e ao Manchester United em particular tem sido muito interessante de acompanhar tanto do ponto de vista prático como também científico. Um dos vetores mais proeminentes do desempenho competitivo de Bruno Fernandes prende-se com o seu padrão de execução de um pontapé de pénalti. Recentemente, Sam Johnstone, guarda-redes do West Bromwich Albion, no rescaldo de uma derrota por 1-0 contra o Manchester United (em que o golo da vitória resultou de um pénalti marcado por Bruno Fernandes) criticou de forma pública o facto de Bruno Fernandes “parar e saltar” (Jornal A Bola, 22/11/2020) num momento imediatamente anterior ao contacto do pé na bola. Por sua vez, Ian Wright, antiga estrela do Arsenal e da Seleção Inglesa, alinhou neste sentido crítico referindo que “Há jogadores a saltar, a fazerem esse tipo de coisas enquanto o guarda-redes não pode mexer os pés. Devem fazer a corrida seguida antes de rematar”.

Se atendermos aos indicadores estatísticos de Bruno Fernandes na conversão de uma pénalti identificamos uma impressionante eficácia de 91.4% em toda a sua carreira que compara com o valor de 92% registado ao serviço do Manchester United nas épocas de 19/20 e 20/21. Saliente-se que investigação publicada nesta área aponta para uma eficácia média de conversão de pénaltis nas principais Ligas Europeias (Liga Inglesa, Espanhola, Alemã e Italiana) de 70 a 83% (Jamil, Littman, & Beato, 2020), o que releva ainda mais o superior desempenho de Bruno Fernandes.

Mas, qual será a razão para que Bruno Fernandes tenda a incluir um pequeno “salto” antes de contactar a bola na execução de um pontapé de pénalti?

 

 

Do ponto de vista regulamentar, as Leis do Jogo validam o padrão executado por Bruno Fernandes dado que existe apenas uma infração quando uma eventual ação de finta de remate ocorre já depois da conclusão da corrida de aproximação à bola. Por sua vez, a missão do guarda-redes em intercetar a bola num pontapé de pénalti é extremamente desafiante. Este deve manter-se na linha de baliza, de frente para o executante, entre os postes, não podendo movimentar-se antes do momento em que a bola é pontapeada. Isto significa em termos matemáticos que um guarda-redes posicionado a 11 metros da marca de pénalti que enfrente uma velocidade aproximada da bola de 112 km/h, possui apenas uma margem temporal de sensivelmente 700 milisegundos para se mover para o ponto de interceção da trajetória de forma a efetuar uma defesa com sucesso. Esta janela temporal tão curta exige dos guarda-redes de elite uma antecipação da futura direção do remate com base na informação disponível (ex: pé de apoio ou pé de remate do marcador de pénalti, etc) e/ou uma iniciação da sua ação de defesa num momento prévio ao contacto do pé do jogador na bola. É precisamente neste contexto que consideramos que o padrão típico de execução de um ”salto” no pontapé de pénalti por parte de Bruno Fernandes lhe permite atingir um duplo objetivo: 1) temporizar a sua ação de forma a monitorizar a futura direção de deslocamento do guarda-redes que, como vimos acima, se vê tendencialmente forçado a iniciar de forma precoce a sua tentativa de defesa; 2) dissimular eventuais pistas informacionais relacionadas com os seus segmentos corporais para assim interferir com a análise antecipatória da parte do guarda-redes relativamente à futura trajetória da bola. Por acréscimo, este padrão de execução típico de Bruno Fernandes sai fora da “norma ”no futebol e, nesse sentido, suscita um efeito surpresa aos guarda-redes.

Há, contudo, boas notícias para os guarda-redes que possam enfrentar jogadores muito eficazes na marcação de grandes penalidades como é o caso do Bruno! A capacidade de antecipação é claramente treinável mediante a avaliação com recurso a eye-tracking (dispositivo de monitorização do movimento ocular) e consequente desenho de tarefas de treino (visual) específicas do futebol que permitam aos guarda-redes orientar o seu foco atencional para as pistas informacionais associadas ao padrão de execução do rematador e assim elevar o nível de sucesso das suas ações. O caso de Miguel Soares, guarda-redes do Loures, que no dia 20 de outubro de 2018 defendeu um penálti marcado pelo Bruno Fernandes, é de certa forma elucidativo sobre o potencial desta via de otimização da performance: “ Foi um momento muito bom, fruto de muito trabalho de observação.  O segredo foi o pequeno movimento que eu fiz para o lado esquerdo. Como o Bruno bate os pénaltis a olhar para os guarda-redes (...) Fingi para um lado e lancei-me para o outro (...) quis obrigar o Bruno a decidir o mais tarde possível (Mais futebol, 29/07/2020)”.

 

Pedro Tiago Esteves
Investigador e Treinador Instituto Politécnico da Guarda

 

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