Cristiano Ronaldo: um servidor de Portugal! (artigo de Manuel Sérgio, 351)

Espaço Universidade 14-09-2020 14:14
Por Manuel Sérgio

Nunca tive relações pessoais, ou epistolares,  com o Cristiano Ronaldo. Mas, porque, a meu juízo, o desporto, designadamente o futebol, é o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo (quantas vezes eu já escrevi esta frase?) o Cristiano Ronaldo, segundo os especialistas: o melhor futebolista de todos os tempos, marcou de forma indelével a história do futebol e, pelos seus assinalados serviços ao futebol nacional, à História de Portugal. Pelé, Maradona, Messi, Di Stéfano, Ladislao Kubala, Puskas, Cruyff deverão sentir-se muito honrados de ter, como colega, o Cristiano Ronaldo ou seja, alguém que já atingiu a marca histórica de 101 golos ao serviço da seleção nacional de futebol do seu país. E que constitui um exemplo de amor devotado a Portugal, à sua história, às suas gentes. Vítor Serpa, ao cotejar Ronaldo e Messi, aponta em ambos a sua ânsia imensa de bem fazer e de bem servir. Mas refere, a propósito: “Se quiserem o exemplo mais significativo da diferença entre Cristiano Ronaldo e Messi, podemos dizer, numa palavra só: SELEÇÃO. Cristiano impôs-se sempre em todos os clubes por onde passou, mas é na seleção nacional que a diferença para Messi se torna enorme. O argentino faz milagres em Barcelona, mas na seleção argentina nunca chegou ao brilhantismo e à genialidade de Diego Armando Maradona”. E, na seleção nacional de futebol, jogo em que participe é sempre (ou quase sempre) o elemento decisivo que mais concorre à vitória. E com esta particularidade: de tudo o que faz, na competição desportiva, ressalta um afeto imensurável pela sua Ilha da Madeira, pelo bom nome de Portugal. Para mim, está ao nível de um José Saramago, de um Prof. Egas Moniz, de uma Maria João Pires, de uma Helena Vieira da Silvas e de outros grandes portugueses. Quando, no nosso país, se fala de povo (“o povo é quem mais ordena”) conviria aos politólogos, aos sociólogos e até aos jornalistas escutar, nos campos, nas aldeias e nas cidades, a voz dos estratos mais humildes: em todos eles, guarda-se um respeito e uma admiração pelo Cristiano Ronaldo como possivelmente a mais ninguém se concede.
 

Sim, concordo que a popularidade do futebol, hiperdifundida pela Comunicação Social, em poucas palavras: a globalização do “desporto-rei”; o recheio intelectual e humano do Cristiano, sempre a cumular a família, de afeto e ternura e pondo o bom nome do nosso país, acima de tudo – têm a sua quota-parte na simpatia que os portugueses lhe dedicam. Mas a sua genialidade dobra, convence o mais teimoso, o mais renitente. O jornalista Nuno Saraiva Santos (A Bola, 2020/9/9) não esconde o seu deslumbramento: “Portugal voltou a vencer, na Suécia, em nova noite de gala de Cristiano Ronaldo, uma vez mais arrasador, no Friends Arena – é definitivamente um dos seus palcos de sonho! – com duas obras de arte desenhadas pelo seu pé direito, a segunda digna de percorrer o globo. É, orgulhosamente, para todos nós, o melhor do mundo e o seu nome perdurará, para a eternidade, na história do futebol. E cremos terão de passar dezenas de anos, pelo menos dezenas, para ver os recordes, que já pulverizou, batidos. Ontem, mais uma marca foi atingida e ultrapassada os 100 golos pela Seleção Nacional e novo encontro com a história está à distância de nove golos, suficiente para se isolar à frente de Ali Daei”. Desde 1939, venho contemplando os nossos melhores jogadores. E a inteligência de José Travassos e de Mariano Amaro, de Coluna, do Jaime Graça, do Figo  e do Rui Costa; e a superior habilidade de Albano, de Hernâni (F.C.Porto), de Pedroto, de Rogério (o “Pipi”), de João Alves, do Chalana, do Paulo Futre; o remate potente e certeiro do Peyroteo, do Eusébio, do Matateu, do Pauleta (e peço desculpa pelos nomes que omiti) – todas estas qualidades residem em síntese, num conjunto de dinamismos endógenos, no Cristiano Ronaldo. Julgo não cometer nenhum dislate, ao escrever, sem receio, que o Cristiano Ronaldo é o melhor futebolista português de todos os tempos!
 

Quando se enumeram os desempenhos do Cristiano, não deverão omitir-se os treinadores com quem ele aprendeu a estudar e a estudar-se, dando especial realce ao Aurélio Pereira, na formação do Sporting Clube de Portugal e ao Ferguson e ao José Mourinho e ao engenheiro Fernando Santos. Todos eles treinadores com conhecimento, liderança e capacidade invulgar de comunicação. Em 1979 escrevi eu na revista Ludens (Outubro-Dezembro) um ensaio intitulado “Prolegómenos a uma Ciência do Homem” onde anunciava um corte epistemológicio (a passagem, na Educação Física, do físico ao movimento intencional da transcendência ou, se quiserem, ao corpo em ato) que tentou ser a minha tese de doutoramento, que defendi, em provas públicas, em 6 de Julho de 1986. O que tentei eu então propor, “grosso modo”, com a minha tese de doutoramento? Resumidamente: 1. Porque a História é sempre um movimento em relação ao tornar-se e é no ato de tornar-me que eu sinto a alegria do ser, propor um “corte epistemológico”, no seio de uma Educação Física, centrada no corpo-objeto, típico do dualismo cartesiano, tendo como objetivo primeiro a criação de um novo paradigma, a Ciência da Motricidade Humana, que se tornasse no radical fundante do desporto, da dança, da ergonomia, da reabilitação e da motricidade infantil. 2. Desenvolver o “método integrativo”, que pudesse aplicar-se a uma nova ciência hermenêutico-humana, a Ciência da Motricidade Humana, onde portanto, como ciência humana, não há jogos, mas pessoas que jogam. 3. Definir a Motricidade Humana como “o movimento intencional e solidário da transcendência”. Quando se diz que o treinador ou o professor, de desporto  (de futebol, portanto) estudam o ser humano no movimento da transcendência, não há saltos, há mulheres e homens que saltam; não há corridas, há homens e mulheres que correm; não há remates, há homens e mulheres que rematam. Este “corte epistemológico” exige a reinvenção (e não só uma tímida reforma) da profissão de treinador de futebol…
 

Pondo em causa boa parte do racionalismo clássico, decorrente da filosofia de Descartes e da física de Newton, busquei apoio na fenomenologia, mormente em Merleau-Ponty e, aqui e além, em Teilhard de Chardin, em Edgar Morin, em L. Althusser, em Michel Foucault. Hoje, pelo que estudei na mecânica quântica, diria que o sujeito entra na constituição do real. “Descrevendo o real, descrevemos também a nós mesmos, implicados nesse real. O mundo não é a colação de objetos distintos: ele é uma rede de relações entre as diversas partes de um todo unificado. O ser humano é parte constituinte desse todo e é ele que define constantemente o campo real que observamos” (Leonardo Boff, A voz do arco-íris, Sextante, 2004, pp. 65/66). E não resisto a continuar neste autor de tantíssimos méritos: “Sem entrar em análises mais pormenorizadas, podemos dizer, com os físicos quânticos, que o essencial da consciência é a sua unidade relacional. E eu acrescento: com tudo o que existe. Nestas relações, “o caos é sempre é sempre generativo e vai criando ordens sempre mais complexas e criativas. A vida tende a criar continuamente mais vida e maior unidade holística, pan-relacional, vale dizer, ela se torna cada vez mais interiorizada e assim consciente e autoconsciente. Essa criatividade se manifesta eminentemente na pessoa humana” (p. 69). Por isso, para mim, um jogo existe para nos propor uma nova leitura da aventura de tudo o que existe. E um jogador, como o Cristiano Ronaldo, nunca é um autómato a repetir cegamente as ordens do treinador. Ele, de facto, ouve, disciplinadamente, as ordens do treinador mas, porque é um jogador genial, faz o que o treinador, nem pensa, nem sabe fazer. Ensina a todos nós, incluindo o treinador, um desporto como valor supremo. Razão tem o Padre Teilhard de Chardin: toda a matéria destila Espírito, a Evolução ruma, sem qualquer desvio, para o Espírito! Portanto, o Cristiano Ronaldo é um exemplar servidor de Portugal. Por isso, merece a nossa gratidão! Mas é mais: ele é um con-criador de Beleza, de uma Beleza que não tem pátria, que é universal, que é um dom de Deus!

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

               

                            

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