«Saí porque não concordo com a forma de gestão»

Vitória de Setúbal 12-07-2020 12:28
Por Entrevista de Miguel Cardoso Pereira

O treinador espanhol Julio Velázquez revisita com A BOLA a passagem pelo Vitória de Setúbal, clube do qual saiu no dia 2 de julho. Chegou de forma revolucionária, subindo na classificação e quase quadruplicando o número de golos marcados.  Diz que adora o clube, mas não podia continuar.  Portugal, porém, está no horizonte.
 

A BOLA - Chegou ao Vitória com 12 jornadas, o clube tinha 2 vitórias, 7 empates, 3 derrotas, 12 pontos, 13.º lugar. A chegada foi impactante, com 4 vitórias, 1 empate e 2 derrotas nos 7 primeiros jogos, somando 15 pontos e elevando a equipa ao 8.º lugar. Marcaram-se 10 golos nesse período, quando nos 12 jogos anteriores o Vitória marcara apenas 3. O trabalho era elogiado pela crítica. Que mudanças tão eficazes introduziu?


JULIO VELÁZQUEZ - Assinei no início de novembro, com outra direção, outro projeto. O Vitória era a equipa com menos golos entre as ligas europeias. Aceitei pela mística, como disse, e pela exigência da tarefa. Era uma equipa com problemas no jogo, maus resultados. Tentámos mudar tudo. Sinceramente, correu muito bem, alterámos a dinâmica, passámos a ser ofensivos, criando hábitos que representavam melhor o futebol profissional. Inclusivamente com a extrema dificuldade de não poder fazer nada no mercado de janeiro, por coincidência com a mudança de presidente. Mas melhorámos, com os mesmos jogadores e os mesmos problemas estruturais. Recorde-se que o clube não tem um campo de treino fixo, fugindo às rotinas de quase todas as equipas profissionais. Umas vezes em Palmela, outras em Troia, ou no Bonfim. Até ao isolamento, apesar de todas essas dificuldades e mudanças, correu bem.


- Antes da paragem, o Vitória estava bem: em 12.º, 28 pontos, 12 acima da despromoção. Foi-lhe proposta renovação contratual, e se sim por quem e quando?


- Um mês depois de ter chegado ao Vitória o tema foi iniciado. Aliás, ofereceram-me a renovação tanto a anterior direção como a atual.

 

- A mudança de direção prejudicou-lhe o trabalho?


- Bem, a mudança o que fez foi o que lhe disse: impedir a ida ao mercado de janeiro, e isso não é pouco num clube que já tem o orçamento mais baixo da prova! Dificultou por aí.

 

- Criou bom relacionamento profissional com o presidente Paulo Gomes, havia sintonia relativamente ao futuro?


- A minha relação diária era sobretudo com o Rodolfo Vaz, diretor desportivo, e com o team manager, o Valter Vieira, que transitaram da anterior direção/administração. A relação com eles foi extraordinária, incrível trabalho e sinergia. A minha ligação diária não era com o presidente, nem na primeira direção nem na segunda.


- Porque saiu, então?
 

- Vou ser sincero: aquando da anterior direção e do tal convite para renovar depois de um mês de trabalho, considerei cedo, pois seria necessário avaliar o decurso de muitas coisas. Depois, mudou a liderança e, em diferentes ocasiões, também me falaram de renovar - é público, o presidente e o diretor desportivo disseram-no. E de um projeto.

 

- Isso aconteceu antes da paragem pela pandemia?


- Antes, durante e depois. Mas gosto de conhecer o projeto, de ter a certeza do que há e, sinceramente, pela história do Vitória, pelos adeptos, gostaria que a equipa pudesse atingir outros objetivos e não apenas conformar-se com a manutenção a cada época. Era o meu objetivo: saber se o Vitória podia, e queria, dar um passo mais, lutar por outras classificações. Não senti essa capacidade. No final, refleti, não gostei, não concordei com a maneira de gerir situações a nível de logística, de situações extrafutebol, por parte do presidente, durante o isolamento, e também depois do isolamento. Cheguei então a um momento em que para mim tinha ficado claro que não iria renovar, porque não estava a gostar de como se estava a gerir, de como se estavam a tratar de assuntos extrafutebol, repito. Refiro-me a coisas que agora, no futebol profissional, considero necessárias. Então, depois do jogo com o Vitória de Guimarães, jantei com o diretor desportivo - eu convidei, foi iniciativa minha - e usei palavras simples: ‘Rodolfo, não vou renovar, não concordo com a maneira de gerir por parte do presidente e da direção. Amo a cidade, o clube, os adeptos, mas não vou renovar e é melhor contratarem um treinador para terminar de garantir a manutenção e começar a próxima época.’ As situações a que me refiro, as tais que considero extrafutebol, durante e depois do isolamento, não ajudaram a que a equipa pudesse ter uma regularidade ótima competitiva. E assim foi. No dia seguinte chegámos a um acordo e acabou a relação.


- O que são situações extrafutebol? Seja específico.


- Compreendo a pergunta, mas sou respeitador e não vou passar daqui. São situações com as quais não concordei, relacionadas com a maneira de gerir uma equipa de futebol profissional. Se essas coisas não são corretas, não ajudam à dinâmica do dia a dia de uma equipa profissional. Não vou falar por respeito. Saio com dignidade.

 

- Saiu depois de derrotas com Boavista, Rio Ave e Vitória de Guimarães, com o Vitória então em 15.º, com 30 pontos, três acima da linha de água. Pode parecer que tenha procurado evitar ficar ligado a uma eventual descida. É uma crítica justa?
 

- Não, não é justa. Quando saí o Vitória estava, e está, em zona de manutenção. Ainda no outro dia, de casa, torci para que o Vitória vencesse o Paços  [a conversa com A BOLA decorreu antes do Aves-Vitória]. Vai correr bem até final da época com o novo treinador. O clube vai ficar na Liga. Assim o desejo. A minha saída nada teve a ver com isso. Achei que a direção do clube devia ter feito a gestão de situações extrafutebol de outra maneira. E não as tendo feito deveria tê-las corrigido. Se não fazes e nem corriges, fica impossível.  Achei que o melhor seria chegar outro treinador que não tivesse esta, como dizer, contaminação mental, alguém com a mente mais limpa. 


Leia a entrevista completa na edição impressa ou digital de A BOLA.

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