Carlos: «Fiquei sem rumo»

Futebol 08-07-2020 08:26
Por Pedro Cadima

Carlos desfia memórias e expurga os demónios, o seu testemunho é feito de honra, coragem e profunda honestidade. A história de Carlos Fernandes, guarda-redes de 40 anos, que jogou a última época, incompleta, é uma lição de vida e uma lição do próprio futebol, pois qualquer grande carreira pode desfazer-se em cacos, sejam eles provocados por medos, angústias ou acidentes de variadíssima ordem.

 

Carlos que se fez notável em Portugal ao serviço do Boavista, campeão romeno pelo Steaua e internacional por Angola, teria tudo para estar hoje a respirar feliz pelo que fez e conquistou ou realizado por manter ligação ao eterno prazer do jogo. Já fintou o pior, esteve imerso em dúvidas, asfixiado na sua falta de confiança, vivendo um drama comum a muitos mortais. Um jogador de futebol não tem de ser menos candidato a uma depressão, não tem de ser superior aos tormentos da mente... e não tem que esconder os problemas que atravessa.

 

Carlos abriu-se e redescobriu-se, expeliu os fantasmas, reacendeu uma chama de esperança. E assumiu-se, sendo o rosto de uma campanha pela saúde mental, promovida pelo Sindicato de Jogadores. Carlos é inspirador para quem quer ser guarda-redes mas também amplifica o seu raio de sol sobre um meio que tantas vezes enclausura o jogador numa bolha.

 

«Sinto-me vivo, é a melhor forma de transmitir o que sinto. Treinar e jogar é o mais importante», atira, sem rodeios, Carlos Fernandes, recapitulando o seu trajeto em traços gerais, não disfarçando algum incómodo e desgosto.

 

«Eu tive uma carreira que não foi má, foi boa, mas continuo a pensar que podia ter feito um trajeto mais bonito. Posso não ter sido bem aconselhado, pode-me ter faltado essa pessoa. Acho que foi isso que me levou da ribalta para o nada. Foi como se uma luz se tivesse apagado, isso fez-me confusão e deixei de ver o dia de amanhã. Foi realmente assustador!», desabafa, sintetizando a agonia que se instala subitamente.

 

As portas a fechar

 

 «A questão da idade é um problema e acabas por perceber a certa altura que não vais jogar mais em alta competição. Isso deita-te completamente abaixo», revela Carlos, descrevendo a inquietação que se abateu sobre ele, mal saiu da esfera profissional, ao regressar a Portugal, após passagem por Angola para atuar no Vilafranquense.

 

«Senti o peso, porque entrei em negação. Uma pessoa sente-se sozinha, começa a visualizar as portas a fechar, o telefone deixa de tocar, as pessoas deixam de aparecer. É frustrante! Sabes que tens a capacidade para jogar mas passas a ser julgado pelo passado ou pela idade. Isso deitou-me abaixo, fez-me cair num fosso sem fundo. Fiquei com vergonha de sair de casa, medo de sair, medo das perguntas sobre o futebol, não sabia o que responder, porque estava desempregado e sem clube», conta, resumindo.

 

«Foi um ano difícil, estive três meses sem sair de casa. Fiquei sem rumo. O facto de não ter hábito de saídas noturnas pode ter sido a minha sorte. Ter jogado como joguei no Amarante, ter feito a época que fiz, é fruto da vida que levo. É difícil explicar o que se passou naquela altura. Eu acordava de manhã, levava a minha filha à escola e depois já não sabia o que fazer, ficava parado à frente da escola. Acabava por ir para casa dormir»

 

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