Como melhorar o futebol feminino em Portugal (artigo de Mónica Jorge)

A BOLA É MINHA 20-06-2020 14:32
Por Mónica Jorge

Isolados mas não sozinhos, confinados mas não alheados. Num momento único na história mundial, a capacidade de refletir sobre as nossas experiências e o que nos rodeia é, também, uma forma de liberdade. A BOLA dá voz aos grandes protagonistas do desporto em crónicas assinadas na primeira pessoa sob o título ‘A bola é minha’. Sem filtros.

 

AFPF não faz regulamentos sobre homens ou mulheres. Todos os anos, a FPF analisa as suas competições, em conjunto com as associações e parceiros de classe, e introduz alterações. De resto, é assim em todo o mundo.Não existe, pois, qualquer regulamento que discrimine por género. Nem podia haver.

A FPF decidiu, face ao período extremamente delicado que atravessamos, introduzir diversas mudanças nos regulamentos das provas que organiza. Mudanças nos formatos e nos regulamentos. O objetivo é sempre o mesmo: tornar a competição melhor, mais equilibrada, e assim potenciar o desenvolvimento de jogadores, treinadores e clubes.

O campeonato feminino é um desses casos.
A FPF decidiu introduzir um limite para o número de inscritas por plantel, para que os clubes mais poderosos financeiramente não possam limitar a circulação de jogadoras, mantendo-as no plantel mas com pouca utilização.

A FPF impôs medidas de controlo que obrigam os clubes a garantir que cumprem os compromissos assinados com as jogadoras, não permitindo atrasos.
A FPF aumentou o número de jogadoras formadas localmente na ficha de jogo, para garantir que existe espaço para as jogadoras da formação.
A FPF alargou o número de clubes na divisão principal e alterou o modelo competitivo para garantir maior equilíbrio entre as equipas e mais apoio para as jogadoras.
A FPF iniciou em 2019/2020 - e vai manter - um projeto de apoio a todas as equipas do campeonato feminino que envolve a entrega de 600 mil euros ao conjunto de clubes, mediante o investimento em formação e incentivo ao desenvolvimento da jogadora portuguesa.

A FPF decidiu também, de forma transitória, incluir a seguinte medida no regulamento para 2020/2021. «Face às circunstâncias excecionais decorrentes da pandemia Covid-19 e à necessidade de garantir o equilíbrio dos clubes e a estabilidade da competição, é estabelecido o limite máximo de 550 mil euros para a massa salarial das jogadoras inscritas na temporada 2020/2021. Entende-se por massa salarial do plantel a soma dos salários e/ou subsídios declarados no contrato de cada jogadora». Como resulta claro da leitura do artigo, não existe qualquer teto salarial. Nem podia existir. Os clubes são livres de fazer os contratos que entenderem com as jogadoras.

 

A base ainda é frágil

Esta medida foi tomada porque, infelizmente, o campeonato feminino é a prova sénior mais desequilibrada do futebol português. Na época 2019/20 realizaram-se 89 jogos: apenas 45 foram equilibrados. Houve 21 desequilibrados e 23 muito desequilibrados.


Uma competição com estas características precisa de ser constantemente melhorada e justifica a introdução de medidas que aproximem as equipas no campo de jogo.
O futebol feminino é uma área em grande crescimento, mas é importante que não esqueçamos que a base é, ainda, muito frágil. Jogam em Portugal pouco mais de mil jogadoras seniores. Apenas cinco clubes inscreveram jogadoras profissionais na época passada, num total que se aproximou das 70.


A FPF está, mais do que nunca, comprometida com a evolução sustentada do futebol feminino, que seja a tradução visível do plano estratégico de desenvolvimento delineado em sintonia com os clubes e as associações distritais e regionais de futebol.


Ao contrário do que acontecia no passado, as jogadoras portuguesas têm agora mais espaços e competições apropriadas para desenvolverem o seu potencial e agarrarem um projeto ligado à sua grande paixão.
As seleções nacionais femininas dos escalões de formação começam a ser a verdadeira base do futuro, como atestam os apuramentos para as fases finais nos escalões sub-17 e sub-19 e os percursos vitoriosos nos Torneios de Desenvolvimento da UEFA sub-16.
O mesmo acontece com a Seleção A feminina, que participou pela primeira vez numa fase final do Campeonato da Europa feminino, na Holanda, em julho de 2017.
Uma equipa que tem alcançado as suas melhores classificações no ranking feminino da FIFA e conquistado notoriedade internacional, ao ser sucessivamente convidada a defrontar as melhores seleções do Mundo.

 

A FPF acredita que um campeonato mais competitivo e equilibrado só reforçará a dimensão de estabilidade que é absolutamente essencial para o crescimento do futebol feminino em Portugal, e para a evolução das nossas seleções nacionais.
Muitas jogadoras deste campeonato estão ativas em diferentes escalões das seleções de Portugal. A aposta na formação e no desenvolvimento da jogadora portuguesa é sempre uma prioridade para a FPF.

 

Ao longo dos últimos anos, a FPF nunca hesitou em tomar medidas que promovam o desenvolvimento de um setor com especificidades e necessidades próprias. Fê-lo sempre depois de prestar atenção à opinião dos intervenientes. Assim continuará a ser.

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