Luís Castro salienta: «O jogo já não vai ser igual»

Shakhtar Donetsk 25-05-2020 10:09
Por Pedro Marques Maia

Enquanto prepara o regresso do Shakhtar à competição, empenhado em defender a liderança da liga ucraniana e selar a passagem aos quartos de final da Liga Europa, o treinador português abriu o coração a A BOLA e A BOLA TV. Um discurso elaborado de um mestre em futebol e de um cidadão atento a estes tempos inesperados.

 

- Disse, no Instagram, a 22 de abril, que sentia falta de tudo o que tinha que ver com futebol. Saudade é a palavra que melhor define os tempos de quarentena?

 

- Quando perdemos coisas que nos são habituais, ficamos com saudade. Muitas saudades dos jogos, dos treinos, de sentir a pressão da competição, a pressão dos pontos. Quando perdemos tudo isto, sentimos muita falta.

 

- Sei que gosta de liderar a partir do coração. Quando se apela ao distanciamento, como se consegue matar saudades?

 

- Quando falamos de saudade, aqui [na Ucrânia] não entendem. Ela tem a maior expressão quando o fado entra pela nossa casa dentro. É algo que faz parte de nós. Agora temos de saber viver com ela e temos de esperar um pouco mais. Nós, que estamos distantes de tudo, sentimos muito a falta da família. Quando saímos do país para trabalhar e o trabalho nos falta, o dia deixa de fazer sentido. A nossa tentação é andar de volta do embaixador para perceber quando poderemos viajar para Portugal para ver a família, os amigos, o sol, o mar. Tudo o que faz parte da vida inteira. Não estou amargurado, estou tranquilo, a aguardar serenamente as decisões. Neste momento, o que sinto é que de manhã ouvimos uma coisa e à tarde ouvimos outra: de manhã ouvimos que é preciso máscara, à tarde não; de manhã diz-se que o campeonato vai começar, de tarde não… Estas incertezas provocam instabilidade e alterações de humor que vamos sentindo.

 

- O Shakhtar já está a trabalhar. Como está a ser feita a retoma?

 

- Após termos feito os testes, iniciámos os treinos em conjunto, depois de conhecidos os resultados. O trabalho começou por ser setorial, com grupos de defesas, médios e avançados. Fizemos um trabalho mais virado para o setorial, abandonando o individual. Depois de alguns treinos, começámos a preparar a equipa para o primeiro jogo do campeonato, previsto para 31 de maio [à espera de autorização governamental]. Foi uma pré-época de cerca de duas semanas, curta, mas percebemos que é uma situação excecional. Fizemos uma pré-época de cinco semanas e meia; uma segunda, de inverno, de quatro semanas e esta de duas semanas e meia. Esta teve uma paragem longa e nós não treinámos. Deixa-me um pouco na expectativa de como estará a equipa quando encontrar o Dínamo Kiev no campeonato. Temos que caminhar em função do que achamos que vai acontecer.

 

- O cenário é bastante positivo. A equipa tem 13 pontos de avanço sobre o Dínamo Kiev no campeonato e na Liga Europa está perto dos quartos de final [vitória 2-1 em Wolfsburgo na 1.ª mão dos oitavos]. É possível trazer alguma coisa de março [último jogo do Shakhtar foi a 15 de março] para agora ou é preciso construir tudo de novo?

 

- A forma desportiva residual que se mantém durante algum período após o término de uma competição foi perdida. É o mesmo quando lemos um livro e depois voltamos a pegar, lembramo-nos de muita coisa. Os jogadores vão recordar-se dos conceitos de jogo, da forma como pressionávamos rapidamente, como trabalhamos com e sem bola. Primeiro vamos pô-los em contacto com princípios mais macro do jogo para eles instalarem neles tudo o que é a nossa forma de pensar o jogo. Depois as coisas já vão decorrer melhor, nos lados mais micro do treino. Não é uma situação ideal, mas também penso que a inteligência que os nossos jogadores têm não vai criar grandes dificuldades em se instalar isso nas primeiras semanas de trabalho. O problema é aguentarmos os 90 minutos ao mesmo nível, se não se vão ressentir. A resistência mental vai ter de ser muito forte e eles podem não ter essa capacidade já. Mas isto também vai acontecer com as outras equipas, estamos todos ao mesmo nível. Todas as seis equipas que disputam a poule de campeão vão sentir o mesmo.

 

- O tetra está perto, na Liga Europa chegar aos oito melhores abre hipóteses de ganhar o troféu. Há hipóteses fortes de conquistar os dois troféus?

 

- Quando numa prova de ciclismo há oito corredores perto da meta, os sprinters têm sempre mais hipótese de ganhar. Isso faz com que todos pensem que podem ganhar a prova. Só poderemos ganhar a Liga Europa jogando bem e tendo a pontinha de sorte nos jogos e nos sorteios. Temos primeiro um jogo muito complicado com o Wolfsburgo, apesar da vantagem que trazemos da Alemanha. Tenho a certeza de que eles são uma equipa boa e fazem parte de um dos melhores campeonatos europeus. Se os conseguimos ultrapassar, entrando nos quartos de final, tudo é possível. É um caminho muito complexo, mas sim, estamos sempre com um olhar na final.

 

- É apontado agosto como mês da retoma das provas europeias, mas a UEFA ainda não definiu como vão ser realizadas as eliminatórias. A dois jogos, num só jogo em campo neutro, qual lhe parece a solução mais justa?

 

- A primeira expectativa é saber quando e onde vamos jogar com o Wolfsburgo. Nós jogámos na Alemanha e, por isso, o justo é que joguemos a segunda mão na Ucrânia. Em campo neutro seria uma desvantagem para nós, mesmo sem público. A informação que temos é que, não havendo condições para fazer dois jogos, poderemos ir para um país e aí estarem as oito equipas que estiverem nos quartos de final e depois fazerem jogos a eliminar. A UEFA está à espera de que as Ligas definam o futuro para depois perceber a segurança da Europa, onde será o país mais seguro. Se estivermos à espera de jogar e treinar com toda a segurança, só depois da vacina aparecer. Já percebi que o R0 [número médio de contágios causados por cada pessoa infetada] é muito importante para a tomada de decisão das instituições, mas não nos podemos deixar enganar. A locomotiva deste processo é a economia, não a saúde. Se estivermos à espera da máxima segurança, só vamos sair todos de casa quando houver vacina. Até lá, estaremos sempre em risco. Se vamos jogar ou não, depende das pessoas nos quererem colocar em risco ou não.

 

- Há a hipótese de haver jogadores infetados durante a competição. O medo pode ser o sentimento dominante do que resta da temporada?

 

- O que nos foi dito é que a faixa etária em que os jogadores se encontram não está a ser muito afetada, mas o risco existe sempre. E assim existe medo. Vamos ter de largar o medo e competir. Não nos vamos poder equipar no balneário, não vamos poder ir todos no mesmo autocarro, vamos ter de usar luvas e máscaras, mas depois vamos ter que ir para o relvado todos juntos. O momento de risco vai ser o jogo. Todo este ambiente antes do jogo pode provocar muitos constrangimentos. O jogo já não vai ser igual porque não terá adeptos, mas também sei que tudo só voltará à normalidade quando houver vacina. Não vale a pena traçar outros cenários.

 

- Acha que os jogadores vão recear o contacto com os adversários?

 

- Penso que sim. Como se vai jogar com a distância social, com os jogadores separados por cinco metros? Isso não existe. A segurança máxima só existe quando é erradicada ou se pode prevenir uma doença. Não estávamos preparados para isto. Agora estamos a tentar juntar as peças, colocar um bálsamo em tudo. Para todos os que se muniram de mísseis, de grandes navios para guerras… O mundo preparou-se para essas guerras, não para esta. Deixámos que isto atingisse proporções escandalosas. Nunca ninguém esperou isto. O mundo tem que voltar a trabalhar, o mundo não está preparado para estar parado.

 

- Vítor Oliveira [técnico do Gil Vicente], em recente entrevista, disse não compreender como o futebol, gerindo tantos milhões, pode estar agora numa situação caótica. Consegue compreender o porquê de tantas dificuldades nesta indústria?

 

- O futebol não pode ser isolado do mundo. Todas as atividades implicam dinheiro. Em Portugal não se movimentam assim tantos milhões. Se compararmos com orçamentos de Espanha e Inglaterra, não movimentamos assim tanto dinheiro. Não temos essa expressão dos milhões em Portugal. Claro que há equipas com orçamentos de perto de 100 milhões/ano, mas essa dimensão atinge outros países de forma mais real. Se o Barcelona e a Juventus tivessem cheios de dinheiro, não tinham cortado salários. Os problemas financeiros atingiram todos os países. Poucos clubes apresentam contas positivas. Quando não há receitas televisivas, de publicidade, de bilhética, claro que os clubes entram em dificuldades. Como qualquer outra empresa.

 

- Mas o futebol não demonstrou uma fragilidade alarmante?

 

- O mundo mostrou uma fragilidade alarmante. Mas alguém achava que o futebol ia ficar à margem disto? Tudo se afunda e o futebol fica à tona? Claro que não, o futebol está inserido na sociedade. O que a pandemia veio mostrar foi a fragilidade da condição humana. Nós que estamos no futebol gostaríamos de passar à margem, mas é impossível. O planeta está a arder e nós estamos num paraíso, num oásis? Isso não existe. É com espanto que vejo o futebol nesta dificuldade tal como é com espanto que vejo o mundo nesta dificuldade. O futebol faz parte de uma economia, tem um modelo de negócio, se esse é travado, não havendo receitas, claro que há dificuldades. O mundo está em dificuldade porque deixou de ser gerada riqueza. Quando ouvimos uma notícia sobre 280 milhões de pessoas poderem passar fome, queriam que o futebol passasse à margem disto? Não passa e vai ser muito difícil a recuperação, do futebol, das famílias, dos empregos, da riqueza perdida. Chegou o momento que vai ser muito difícil para os líderes para nos gerarem novamente confiança e dinâmicas motivacionais. O mundo precisa de líderes a uma só voz para dizerem qual o caminho a percorrer.

 

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