O Martelo de Nietzsche III (artigo de Gustavo Pires, 115)

Espaço Universidade 22-05-2020 16:21
Por Gustavo Pires

1- Depois de anos a fio de um sepulcral silêncio imposto pela nomenklatura politico-desportiva que, nos últimos anos, liderou o desporto ao estilo do quero, posso e mando, perante os estragos provocados pelo CODVI-19, os dirigentes da dita surgem por todo o lado com iniciativas completamente desatinadas que, à força da mais primária demagogia, pretendem adivinhar o futuro a fim de, com o habitual espírito de camaleão, se ajustarem ao que aí vem. Todavia, os retardatários da reflexão estratégica vão certamente aprender que o futuro é incognoscível. Quer dizer, o futuro não se adivinha… constrói-se. Constrói-se a partir da prospetiva enquanto primeiro produto do processo de planeamento.

 

2- A máxima do filosofo grego Empédocles (444–443 aC) continua na ordem do dia: “sobrevivem aqueles que estiverem mais bem-adaptados”. Esta premissa voltou a ser considerada já na idade contemporânea por Charles Darwin (1809-1882) quando na Origem das Espécies afirmou que “nascem muito mais indivíduos do que aqueles que podem sobreviver” e, depois, concluiu que só “sobrevivem, os indivíduos mais bem-adaptados”. O problema é que no desporto, na ausência de Políticas Públicas, a sobrevivência está a ser feita à custa dos princípios e dos valores numa luta fratricida de soma nula.

 

3- Para Heraclito de Éfeso (540-470 aC) a máxima da vida estava no “polemos pater panton”, quer dizer, a guerra é o pai de todas as coisas. Neste sentido, o combate competitivo quer ele tenha sido grego, chinês, zulo, índio ou persa, está inscrito no código genético da humanidade que, depois, se expressa através da cultura tanto na arte da guerra quanto nas destrezas das competições desportivas. O problema é que, embora a cultura desportiva faça parte do septuagésimo nono constitucional de há 46 anos a esta parte, do ponto de vista desportivo, continuamos a viver num país com uma cultura inculta.

 

4- Thomas Hobbes (1588-1679), na obra Leviatã, sobre a natureza humana afirmou que muito embora alguns homens possam ser mais fortes ou mais inteligentes do que outros, nenhum se eleva acima de todos os outros ao ponto de poder desprezar o medo de que os outros homens lhe possam fazer mal. Nesta perspetiva, cada homem tem direito a tudo. Mas, como todas as coisas são escassas, existe uma constante “guerra de todos contra todos” – “bellum omnia omnes”. Políticas Públicas em matéria de desporto deixadas em roda livre só podem conduzir a um antissistema de todos contra todos.

 

5- Num ambiente “bellum omnia omnes” os dirigentes do futebol, para além de terem ido a São Bento como quem vai a pé a Fátima à espera de um milagre deviam começar por aceitar que estão condenados à “cooperação por interesse próprio” através de um contrato social sob pena de, se o não fizerem, continuarem a destruir o futebol. Porque, no quadro da independência do desporto, nenhum Primeiro-ministro pode salvar o futebol dos seus próprios dirigentes.

 

6- À falta de futebol, surgem nas parangonas dos desportivos alguns presidentes de umas federações desportivas, numa de marketing de trazer por casa, a afirmar que as respetivas modalidades são autênticas potências internacionais!!! Ora, modalidades que apresentam Taxas de Descarte à volta dos 95% jamais serão potências ou qualquer coisa de parecido mesmo que ganhem a cobiçada medalha olímpica. Modalidades que descartam milhares de jovens ao atingirem os 18 anos de idade a fim de, ao serviço do Estado, aplicarem os parcos recursos disponíveis na proletarização de um número reduzido de atletas, alguns contratados no estrangeiro e naturalizados de aviário, a fim de alimentarem a propaganda neomercantilista não são uma potência são uma vergonha.  E até o futebol, que é considerado nos rankings internacionais a tal potência, como infelizmente se tem estado a ver, não passa de uma potência com pés de barro.

 

7- “Pro patria est, dum ludere videmur” era a máxima que alimentava as hostes desportivas em princípios do século passado: “Quando Jogamos fazemo-lo pela pátria mãe”. O resultado de tal espírito acabou na guerra de trincheiras da Primeira Grande Guerra (1914-1918) onde, para além dos feridos, morreram mais de dois mil soldados portugueses. O desporto colocado ao serviço de desígnios nacionais é protofascismo. Infelizmente, há dirigentes que, na sua ignorância, têm uma visão militarista do desenvolvimento do desporto. É gente perigosa.

 

8- É sempre útil recordar que  o desporto, que tem as suas origens na luta pela sobrevivência e na preservação da vida, em diversos momentos e circunstâncias da história contemporânea, foi animado por metáforas mais ou menos fascizantes ao serviço de regimes quer socialistas, quer liberais: “Pelo trabalho e pela defesa” (URSS); “Vençam ou morram” (Itália); “Trabalhar para a educação de personalidades socialistas, ambiciosas de realizarem altas performances para a glória da pátria” (RDA);  “O corpo ao serviço da pátria” (Paraguai). “É de interesse nacional voltar a ganhar a nossa superioridade olímpica e, uma vez mais, darmos ao mundo uma prova da nossa força interior e vitalidade” (USA). “Levantem-se e marchem…” (RPC); O desporto é um desígnio nacional (Portugal).

 

9- O futuro do jornalismo está na ordem do dia. Debates, seminários, conferências, artigos e ensaios surgem por todo o lado. Por isso, num tempo em que a credibilidade do jornalismo é posta em causa, as palavras de Sérgio Figueiredo Diretor de Informação da TVi são de repudiar. Diz ele:

“… Jornalismo é informar, mas é sobretudo ter a noção do papel que desempenha na sociedade. Por isso também é filtrar, ter a noção do tempo e do modo como o nosso trabalho impacta na vida dos outros. Enquanto os incêndios não se apagam, não é hora de questionar os bombeiros”. “Não ignoramos as falhas, mas estar a insistir nelas, estar sobretudo preocupado em denunciar o que não funciona, assusta as pessoas e afasta-as da antena, provoca rejeição. As televisões têm agora a preocupação de informar, de esclarecer, de ser pedagógicas, de perceber que as pessoas precisam sobretudo tranquilizar-se e confiar. Não basta termos a nossa verdade, as nossas certezas, se isso fragiliza ainda mais uma sociedade já frágil e desorientada perante o desconhecido”.

A institucionalização desta maneira de pensar é a morte da credibilidade do jornalismo. Os jornalistas não podem ser metidos numa prisão psíquica para, ao serviço de não se sabe quem, passarem a filtrar a informação que entendem que a sociedade, que consideram mentecapta, pode consumir. Se o fizerem, transformam-se em simples funcionários de um mais do que previsível Ministério da Verdade. Sendo eu filho e neto de jornalistas e colaborador (pro bono) de jornais e revistas há mais de quarenta anos não gostaria de os ver em semelhante situação.

 

10- Vicente Araújo, o eterno líder burocrático do Voleibol nacional, afirmou ao Record (2019-02-24) que “o voleibol está bem e recomenda-se”.  Lamento dizê-lo, mas estou completamente em desacordo. E a razão imediata tem a ver com o facto de Vicente Araújo que, para além dos anos em que exerceu as funções de Director Técnico, geriu a Federação de 1996 a 2000 na qualidade de presidente e de 2016 a 2020 na qualidade de vice-presidente, ser o único candidato à liderança da Federação para o quadriénio 2020/2024!!! Pergunto: Ao cabo de, praticamente, mais de 30 anos de Vicente Araújo, entre os 403 dirigentes do voleibol nacional (cf. IPDJ) não há ninguém competente e com outras ideias capaz de dar uma diferente orientação à modalidade? Até porque, nem o voleibol está bem nem se recomenda. O voleibol encontra-se mesmo numa situação muito difícil. Para além de não ter praticantes não tem resultados. Do ponto de vista da base da pirâmide o Voleibol, segundo as estatísticas oficiais, apresenta uma Taxa de Descarte superior a 96% quando os jovens atingem a idade de juniores. E do ponto de vista do vértice da pirâmide a Federação não conseguiu estar presente nos Jogos Olímpicos quando os réditos da Federação relativo ao corrente Ciclo Olímpico vão ser certamente superiores a 15 milhões de euros. Quer dizer, o Voleibol nacional em matéria de praticantes tem uma falsa base, não tem estrutura intermédia e o vértice a um custo médio seguramente superior a 7 mil euros por praticante não conseguiu atingir os Jogos Olímpicos. Por isso, na minha opinião, o voleibol não está bem nem se recomenda pelo que é um erro continuar a apostar na experiência de 24 anos de liderança de Vicente Araújo que, perante os resultados da sua gestão, somos obrigados a concluir que não passa de um ano de experiência repetido 24 vezes. É triste ver velhos dirigentes, colados ao poder, convencidos que o seu capital de experiência é condição suficiente para dispensar a necessária e urgente renovação a desencadear pelo efeito vivificador dos conhecimentos mais atuais e entusiasmo das novas gerações. Pobres contribuintes que, perante a mais confrangedora abulia das autoridades político-administrativas, têm de suportar os custos de tal estado de coisas enquanto veem os seus filhos a serem descartados da prática desportiva porque é o desporto que é considerado um desígnio nacional e não as pessoas.

 

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