José Gomes Pereira, membro da Comissão Médica do Comité Olímpico Português, sem querer ser alarmista, fala de tempos perigosos e diz como se devem preparar os desportistas de alto rendimento, incluindo os que estarão nos Jogos Olímpicos do Japão, sejam eles quando forem… se forem!
«Está a ser uma experiência nunca antes vivida, aliás esta situação é uma novidade para todas as pessoas em todo o mundo. Não há ninguém vivo neste planeta que tenha passado por isto. A última pandemia à escala mundial e devastadora foi em 1918! As medidas estão a ser tomadas de acordo com o conhecimento que vamos tomando dia a dia e neste contexto acho que as medidas devem ser muito restritivas, devem ser medidas de uma dimensão significativa para que não tenhamos de reagir a toda a hora, porque o mais importante é anteciparmo-nos às situações», pede.
Depois, o primeiro diagnóstico: «A situação é grave. É óbvio que toda a gente compreende esse facto. A questão é: que medidas é que podemos tomar, quais os comportamentos é que podemos adotar para fazermos face a esta pandemia e para ganharmos esta guerra? E essas medidas é preferível que sejam tomadas por excesso que por defeito.»
Será que os agentes do desporto já acordaram para uma realidade arrepiante, devastadora mesmo? «O desporto penso que acordou para a realidade, só quem está completamente desatento é que não o fez. Os números falam por si e o facto de ser uma situação pandémica é indesmentível. Estamos todos conscientes do momento que estamos a viver. Agora, especificamente quanto aos desportistas de alto rendimento: é óbvio que têm característica adaptativa mercê de realizarem exercício diariamente, exercício de grande intensidade, que lhes cria uma fisiologia própria de dependência desse mesmo exercício, que não pode ser interrompido bruscamente porque isso tem implicações no próprio funcionamento orgânico dos atletas», refere.
De exemplos concretos vive esta perceção: «Pelo mundo fora vemos exemplos de modalidades, atletas, federações que instituíram a interrupção de atividades. Sempre baseados em princípios de que é difícil conter a propagação do vírus em certos ambientes, nomeadamente onde se pratica exercício, como balneários, dos desportos de contacto, a proximidade com o outro… tudo o que ajuda à disseminação do vírus.»
«Temos uma mensagem importante a passar», acrescenta Gomes Pereira, deixando transparecer preocupação no discurso: «A medicina é exercida por médicos, a enfermagem por enfermeiros, mas a saúde é por todos nós. E cada um tem de zelar pelos comportamentos mais adequados para fazer face a uma situação que é grave.»
A questão será: deverão os atletas do projeto olímpico manter os programas de treino que vinham cumprindo? «Se o atleta estiver saudável, não estiver infetado e realizar exercício em ambientes protegidos, nomeadamente com afastamento social utilizando o ar livre, teoricamente não há risco. Mas só no plano teórico! Temos de pensar que neste momento é preciso reunir esforços e ter os comportamentos adequados para fazer face a esta grave situação e não pensar apenas no desporto em si», destaca o médico do Comité Olímpico Português.
E há bons exemplos a ter em conta, diz: «Campeonatos foram encerrados, houve clubes que fecharam, clubes de grande nome a nível mundial que aconselharam os atletas a recolherem-se em casa. Acontece neste momento na Europa, que vive uma situação extremamente grave. Ouvi uma entrevista que me impressionou bastante, de um médico em Itália que está na linha da frente a dizer ‘por favor, fiquem em casa’. Ou seja, esta situação ultrapassa muito as necessidades e as preocupações de um atleta de alto rendimento. É só durante um tempo. É só até nós conseguirmos vencer esta guerra! Depois tudo voltará à normalidade. Não corram riscos!...»
Leia a entrevista completa na edição impressa de A BOLA deste domingo.