Miguel Veloso: «Ainda tenho receio quando saio à rua»

Verona 19-03-2020 11:55
Por Eduardo Marques

Desde o centro de Verona, na região de Vêneto, uma das mais afetadas em Itália, o médio português Miguel Veloso deixa apelos e conselhos devido à pandemia devastadora que assola o mundo. Fechado em casa há dez dias, na companhia da mulher, Paola Preziosi, e dos filhos, Leonardo e Ginevra, alerta para o perigo, mas pede que ninguém entre em pânico.

 

Em primeiro lugar como está o Miguel Veloso e a sua família nestes tempos conturbados que se vivem em Itália? 
- Está tudo bem, estamos em casa há alguns dias e só dá para sair para ir ao supermercado comprar comida e à farmácia. Só coisas alimentares e de farmácia. Tens de fazer uma autoprocuração para deslocações ao trabalho, supermercado ou farmácia e, no caso da polícia te mandar parar e esse papel não corresponder à verdade, podes levar uma multa ou pena de prisão. 

- Como é o seu dia a dia? 
- Praticamente correr atrás deles [risos] e depois fazer algum exercício. Todos os dias o responsável do clube envia o plano de trabalho para o dia seguinte. 

- Tem de continuar a trabalhar para manter a forma física. Como consegue? 
- Tenho de me desenrascar. Já tinha em casa algumas ferramentas de ginásio e é com isso que faço o meu trabalho diário. Se o clube enviou algum material? Não. Trabalho apenas com o que tinha em casa.  


- Que medidas o clube teve para com os jogadores? Fornece alimentação, contacto diário, também trabalha às mesmas horas que os seus companheiros de equipa? 
- No Verona o doutor mandou lista com coisas que devemos comer ao almoço e ao jantar e depois decidimos em família. Não, não faço exercício aos mesmo tempo que os meus companheiros de plantel, cada um tem o seu programa e decide quando faz. E pode fazer mais do que está planeado. 

- O calcio devia ter parado mais cedo? 
- Sim. Deveria ter parado mais cedo porque somos pessoas iguais a todas as outras de todo o Mundo. As pessoas vinham aos estádios e não queríamos infetar ninguém, principalmente a nossa família e colegas. Isto está tudo ligado, deviam ter parado logo. Aliás, vê-se a quantidade de casos, os números do vírus... 

- Em Portugal fala-se no regresso aos treinos das equipas de futebol em maio. Em Itália há alguma previsão para o regresso aos treinos e à competição?  
- Não se sabe ainda. Fala-se que no final deste mês os clubes poderão regressar aos treinos, mas não se sabe datas ou quando recomeçará campeonato ou até como terminarão as competições. Nada está ainda definido. 

- Está em Verona, cidade da região de Vêneto, uma das mais afetadas pela pandemia. Têm sido dias difíceis… 
- Sim, a verdade é que está tudo fechado, as pessoas estão todas em casa. Para mim o grande problema foi que de início ninguém levou muito a sério este vírus e deixaram passar algum tempo. A realidade é que é grave, neste momento estamos todos fechados em casa e sair só para coisas básicas. 

- Ainda sente receio quando tem de sair à rua para ir ao supermercado ou à farmácia? 
- Receio, sim, até porque a realidade é que o vírus tem os mesmos sintomas de uma simples constipação. O grande problema são as pessoas com idade, os que têm problemas crónicos ou respiratórios... O meu grande medo é transmitir para a minha família ou outras pessoas. É importante respeitar as regras para não transmitirmos ao próximo. 

- Em Itália o vírus foi e está a ser devastador. Há algum sentimento do povo italiano de que nem tudo foi feito no tempo devido para parar o alastrar da pandemia?  
- Exatamente. E acho que em Portugal aconteceu o mesmo. É difícil ver as praias cheias em Portugal quando é declarada uma pandemia. Em Itália acabaram por deixar andar e não levar tão a serio este vírus. 

- Que conselhos deixaria aos portugueses que estão a viver esta realidade que o Miguel já vive há alguns tempos? 
- Acima de tudo que não entrem em pânico, mas que tenham a consciência de que este vírus é mesmo uma realidade e pode facilmente contagiar as outras pessoas. Respeitem as regras, aproveitem este momento para poder estar com a família o que nem sempre sucede quando estamos a trabalhar, dar mais valor a estes momentos que são impagáveis. O mais importante é a nossa família.

 

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