Em casa, sentado no sofá

O Mundo dos Guarda-Redes 09-01-2020 17:45
Por Roberto Rivelino

Estão 22 jogadores em campo e todos querem ganhar. Preocupam-se com o rendimento individual – jogam para eles -, e na soma querem sair com a vitória. Dois desses 22, os guarda-redes de cada equipa, querem algo mais, algo palpável ou que paire no ar que faça transcender qualquer resultado, este, possível através do que A ou B deixou em campo, na transgressão da gravidade para impedir o contato da bola com a rede.

A ânsia, o desejo e o querer estão sempre presentes naquele que pisa o relvado e duplica quando, aquele que tem o privilégio de ser filmado a fazer o que gosta, se encontra a proteger a área de todos os sonhos. É, por isso, natural que os estados emocionais que começaram o parágrafo anterior se juntem à adrenalina natural do jogo e suplantem os motivos da racionalidade e os mecanismos ensaiados na preparação para a competição. Aliando esta mescla de estados que levam a ações, o guarda-redes é o sujeito em campo que mais tem a perder até na vitória – porque como é lido e dito inúmeras vezes «o Futebol é um jogo coletivo até ao guarda-redes errar».

Lendo isto, surgir-lhe-ão no campo de visão imaginário, leitor, inúmeros lances no qual a sua interpretação sobre a ação do guarda-redes se traduz em algo como: «estava a jogar tão bem e foi fazer aquilo» ou «aquela bola era dele e ele chegou depois do avançado». Só na tradução destas duas frases (são ainda muitas mais as que poderia incluir), percebe-se o escrutínio ao qual o guarda-redes está sujeito e que nunca se livrará do julgamento de alguém que viu tudo depois do próprio guarda-redes (porque mais do que ninguém o guarda-redes vê (e tem de ver), e sente tudo primeiro que os outros), normalmente numa postura que indica um afastamento à compreensão do Ser que ali está: quantos de nós, num primeiro avistamento de um lance, se gladia com os dilemas que estão presentes na cabeça do guarda-redes no certame em causa?

Poder de imaginação: bola a saltar, o avançado a aproximar, mais que ninguém o guarda-redes a poderá ganhar... Terá condições para o fazer? Estará a chegar cobertura? Chegará primeiro? Desprotegerá a baliza? Ganhará a bola com espaço dominado? Em casa, sentado no sofá a ver o Futebol, sem ânsia, desejo, querer e sem adrenalina, eu sou um guarda-redes que ocupa os relvados deste mundo e do outro.

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