Domingo: calor no Algarve (artigo de Joaquim Queirós, 10)

Espaço Aberto 05-08-2015 16:52
Por Joaquim Queirós
Falta pouco para a bola saltar no estádio algarvio que, se não houvesse estes jogos especiais e não acontecessem no pino do verão, num espaço desportivo que custou milhões, seria um vasto terreno mas só indicado para pequenas hortas da população.

Assim, o elefante branco saído da selva do habitual desperdício nacional vai ser, domingo à tarde, um “campo de Aljubarrota”, com os agora chamados franganotes do Benfica e o destemido esquadrão do Sporting, este de bandeira ao vento, com a imagem de Jesus. Uma visão que, pelo que se lê e se ouve, por parte da grande maioria dos habituais comentadores, num estilo profissional do bruxo de Fafe, uma grande maioria aposta que a águia irá aparecer, coitada, com adesivo no bico.


Ora foi neste estado ambiente que fomos encontrar, num boteco dos Poiais de S. Bento, o Botas, sócio encarnado desde o tempo em que o Cávem lhe ofereceu a camisola, e o Solha, parceiro diário de viagem de Paço de Arcos para Santos, um leão que só põe na mesa um copo de verde, abominando tudo o que seja tinto. E surgiria um diálogo nada doce, numa sangria de euforia e desânimo.

Ambos já tem bilhete para a viagem até ao local da batalha algarvia. E o Solha não trava o mosquete que lhe vai na alma:

- Tem paciência, mas eu se fosse a ti não punha os pés lá em baixo. Depois do que eu tenho visto, o Jesus vai fazer ajoelhar o Vitória. Agora a conversa é outra, rapaz. Já foi tempo em que a águia voava alto, mas agora já não tendes o Espírito Santo para vos levar nas asas. Somos uma família com verde da esperança, bem vivo. Nada de coisas negras.

- Garganta, garganta - atira o Botas, com o dedo apontado para o pescoço, elevando a voz de falsete. Julgais que são favas contadas, mas cuidadinho com a língua, pois eu tenho cá um palpite que vos vamos encostar às cordas com um golo do Jonas no tempo dos descontos. Vou-me rir. Até o Jesus se vai engasgar com a chiclete e o Octávio vai-lhe saltar o capacete…

- Conversa da treta, nunca vocês estiveram tão por baixo. Nós, agora, temos futebol e temos carcanhol que chega e sobra para comprar vedetas.

- Carcanhol, carcanhol… Como diz o outro, é dinheiro da família, de um sobrinho que veio de longe…

O Solha não gostou da biqueirada nas canelas:

- Olha que eu não gosto disso. Baixa a bola. Pensa bem que, agora, vocês, vitórias, só no nome do vosso pássaro e do treinador, pois de resto, vai contando pelos dedos as derrotas. Ides afinfar com o terceiro lugar e é bem bom.

- Isso vamos ver lá para o Natal e pode ser que o menino Jesus se pisgue do presépio…

- Isso queriam vocês, mas ninguém nos vai parar. O Jesus faz as tácticas, o Slimani marca os golos e o Bruno afiambra a massa…

- Ai é?! Espera pela volta que o agora vosso amigo Pintinho também está cheio de pilim e diz que vai dar baile no campeonato.

- Precisas de ser dragão para nos atacar? P’ró Jesus, o Lopes ou o Lopeti, ou lá como se chama, é um figo. Ele já sabe como baralhar o espanhol. O JJ é o rei das manhas e troca-lhe o nomes e as tácticas.

O Botas viu que não tinha aquecimento para a luta, desandou, mas antes disso, ainda teve fôlego para tentar bem ficar:

- Olha, p’ra domingo, tenho fé no Jorge…

- Então não esqueces o Jesus, seu malandro?!

- Não é esse, é o Jorge de Sousa…

E o Botas teve de acelerar a saída, pois o Solha percebeu que aquele Jorge não é dos que estão no catálogo das compras.
Terminamos com uma previsão do tempo: domingo, no Algarve, ambiente quente, com períodos de possível trovoada e talvez aguaceiros projectados no perímetro entre Faro e Loulé.

Joaquim Queirós, jornalista, foi diretor de O Comércio do Porto e da Gazeta dos Desportos
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