Portugal em “offside” (artigo de Joaquim Queirós, 7)

Espaço Aberto 23-07-2015 23:10
Por Redação
Estamos a atravessar um período nervoso, até conflituoso, na praça pública do futebol português. Há um carrossel em movimento louco com os mais variados componentes de discussão.

Instalou-se a guerra dos milhões, fazendo-nos causar algum espanto o facto de toda a gente discutir e pouca procurar a razão.

O adepto que está no desemprego ou que tem para viver só o magro salário mínimo, fala de fortunas de euros como se todos os dias tivesse de se confrontar com os saldos dos seus extractos bancários. Invectiva o presidente do seu clube porque deixou fugir o cicraninho de tal, pois ele decidira não dar guarida ao pedido do ordenadão do profissional de futebol. E não pode ser - diz ele - que é isso de três milhões por época? Então ele não merece? Uma bagatela, logo aquele que marca golos e que se esfarrapa todo para defender o clube.

Ajudemos a chamar a razão para toda essa gente boa, mas que não puxa pela máquina de calcular, nem apalpa o seu bolso das calças que já precisava de trocar por novas, mas o pilim não chega.

Façamos as contas, arredondadas daquele ponta de lança ou o “come bola” doutro jogador: ganha perto de 250 mil por mês (50 mil contos), ou melhor cerca de oito mil por dia (1.600 contos), melhor ainda,350 (70 contos) por hora, e mesmo a dormir! Uma bagatela, não acham?

E estamos a falar de vencimentos baratinhos, de nenhuma das estrelas por aí anunciadas e em que os milhões é assim coisa sem importância.

Alinho no “team” do Zé Mourinho quando este critica os disparates financeiros da contratação do futebol português, lembrando-se da aflição do seu Vitória de Setúbal, a procurar segurar a porta aberta, apesar de não oferecer na maioria dos futebolistas que treinam e jogam no Bonfim muito mais de 5% dos números que deixamos atrás descritos.

Podem “atirar pedras” a este texto, todos aqueles que o que querem é bola a saltar, vitórias, e que se lixe o resto, ao mesmo tempo que lembram ao filho do guarda-redes Félix Mourinho, quanto é que ele no Chelsea paga da recheada carteira de Abramovich.

Mas o que se passa, ninguém duvide, nem tape o sol com uma peneira, porque quer queiramos ou não há que ter os pés assentes no chão: Na terra lusa os euros não são assim coisa tão fértil tal como alguns pensam que seja.

Esta croniqueta abriu-nos mais o apetite para a escrever, ao lermos a luta que se prenuncia na Liga Portuguesa do Futebol Profissional, com o ex-árbitro Pedro Proença a saltar a terreiro para pousar o apito e se sentar na cadeira de comando do jogo, que fez dele um homem de quem o mundo fala e que pretenderá, legitimamente, ser o dono disto tudo.

Depois de passarmos os olhos pelo seu currículo, verificamos a sua vasta actividade profissional, na área da economia e das finanças, com a vantagem de ser um especialista em insolvências de empresas.
Ora aqui está o homem certo.

É que, sem ponta de ironia, o amigo Pedro vai ter que se aplicar nas suas recomendações aos seus filiados, caso seja eleito. A todos. Mesmo àqueles que lhe deram uma palmadinha nas costas e o atiraram para a fogueira.

O homem de preto que, dizem, tem alguma simpatia pelo Benfica e nesta eleição tem os amens do Sporting e do FC Porto, vai ter de se confrontar com um vasto terreno de decisões aterradoras no consumo de euros, e até da origem do dinheiro, dos fundos, dos investimentos, das garantias.
É que, nesta hora, desvairadamente, a ordem é para vender e comprar, mas nem todos, sobretudo os maiores, podem falar em grandes negócios de vendas.

Sabemos que comprar, lá isso compram. Verbas de fazerem perder a razão cerebral. A Banca estremece. Ela que já anda com nervoso miudinho há muito tempo, as capas dos jornais e as notícias e comentários televisivos escrevem e falam em loucuras de números. Há futebolistas famosos em todos os cantos do mundo. Quem diria?!

E tudo isto, com grandes parangonas e até ganância nos três maiores, mas em todo o resto também reina o investimento, dizem - e nós sorrimos - em segurança, com sociedades anónimas periclitantes, com o Fisco e a Segurança Social em aturada emissão de certificados de honorabilidade dos clubes, que, certamente, o Natal os irá desmentir.

O futebol português não tem suporte para aguentar tamanho esforço. Temos de convir que, mesmo com as notas de fingida alegria que nos é dada pelos governantes, a realidade diz-nos que só temos dinheiro para mandar cantar um cego e nem mais um.

Durante muitos anos fomos um país que tinha nos três “efes” a sua “salvação”: a verdade que o fado continua afirmar-se, embora já haja mais fadistas do que guitarras; a devoção mantém a sua força, mas o futebol é mentira. Temos jeito, mas falta o melhor.

E o dinheiro, meus amigos, cada vez está mais raro e caro!
Façamos parar o carrossel da loucura. O país está em “offside”.

Joaquim Queirós, jornalista, foi diretor de O Comércio do Porto e da Gazeta dos Desportos
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