O falso amor à camisola (artigo de Joaquim Queirós, 6)

Espaço Aberto 19-07-2015 18:38
Por Joaquim Queirós
Somos do tempo do verdadeiro amor à camisola, das gerações que pagavam para jogar, vestiam a camisola que muitas vezes quase dava pelos joelhos, uns calções da largura da bacia do Douro e umas botas, com travessas e não com os aerodinâmicos pitões de alumínio ou fibra.

Chuteiras que pesavam mais do que as chancas que os operários calçavam nos dias de trabalho. E a bola que pesava que se fartava e mais cómodo era, ainda, o rectângulo de jogo, “almofadado” a macadame e com uns focos de gravilha para amaciar as pernas quando se batia com o corpo no chão.

Só havia um pormenor importante, nesse tempo dos pelados os atletas não caíam tanto como hoje se espreguiçam nos relvados…

Mas, perguntará o leitor mais exigente e menos dado a consentir estes devaneios históricos? Que quer este indivíduo dizer?

Tem razão, caro amigo que nos está a ler. Na verdade, como se diz na gíria popular, quem pensa como nós, é dos tempos dos afonsinhos. A estes foge sempre a recordação para o orgulho que havia em se defender a camisola, jogando-se com amor à mesma, sem se pensar em mais recompensas que não fossem os aplausos do público e a alegria de se praticar o jogo e de se vencer. Não havia o profissionalismo e a mentira da dedicação.

É verdade que hoje os tempos são outros, os meios utilizados não são comparáveis, talvez o jogo seja mais atraente, mas o futebol como profissão comprou as consciências e, sobretudo, manchou a dignidade de muitos que o praticam e de outros tantos que o servem nos mais diversos patamares desportivos e administrativos. O futebol hoje é uma indústria, uma fonte comercial, em que o marketing é necessário.

E a nossa lenga-lenga continua, exacerbando mais o nervoso a quem nos está a ler. E, na cabeça desses, salta mais que uma bola a pergunta: desembucha, amigo. Então, lá vai a biqueirada no esférico.

Temos o desejo, muitas vezes, de virar as costas ao futebol de que tanto gostamos e que aplaudimos há muitos, muitos anos, sobretudo quando vemos comportamentos mentirosos de protagonistas que nos pretendem iludir, desde o porteiro do estádio às distinguidas “estrelas”, muitas delas pagas a peso de ouro.

Ficamos deveras nervosos e, agora, já no fim da vida, quando são mais as vezes que vemos o futebol pela TV, sentimos vontade de desligar o aparelho, quando damos com os olhos na figura do futebolista que ao marcar um golo ou ao saudar uma vitória, dá um longo beijo no emblema estampado na camisola, demonstrando o seu orgulho por servir aquelas cores. Bonito, mas falso.

Palmas e abraços e todo o mundo envolvente fica sob uma manto de alegria. Aquilo, sim, dirão alguns, nem parece um profissional que ganha a vida ao serviço de quem paga melhor o seu suor. Mentira, meus amigos. O gesto, na grande maioria dos casos, é uma ilusão, um puxar ao sentimento daqueles que pagam - e bem - por amarem o futebol e as mais diversas cores.

Ora toda esta procissão de lamentos saiu à rua, sobretudo pelo impacto que existiu na inesperada mudança de ares do uruguaio Maxi Pereira, do Benfica para o FC Porto. Um profissional a quem pediam, somente, para se aplicar seriamente na defesa de quem lhe pagava; a quem solicitavam o “esforço” de assinar o recibo de chorudo salário, mas sem necessidade de beijar constantemente o emblema da águia, em manifestações que, ao fim e ao cabo, eram emoções fingidas.

Não se julgue que é só o Maxi Pereira que procede desta maneira. Não, nada disso. Do tal profissionalismo fazem parte estas habilidades de cativação de amores falsos, de marketing. E, se não temos razão, estacionemos os olhos na leitura das declarações do defesa ex-Benfica, que jurou quase dedicação eterna, quando este afirma, vestindo as novas cores dos “dragões”: “é um orgulho vestir esta camisola do FC Porto”.

Trata-se de um acto escusado e que não fica bem a quem o protagoniza. É preciso agradar a quem lhe paga melhor e avivar a fogueira dos calores azuis e encarnados.

Irá certamente cair sobre nós a Torre dos Clérigos, mas custa aceitar que existam personalidades desta natureza no mundo do futebol, embora saibamos que é um comportamento muito usual, pois o dinheiro tem mais brilho do que o emblema a quem se tivesse demonstrado, um dia, um amor sem fim.

Antes de colocarmos o ponto final, de registarmos alguns comentários, uns escritos e outros apetecidos, mas não transmitidos para o computador, esperamos que se faça uma viagem pela consciência e se confirme que não vale a pena delirar com o beijo no emblema das nossas cores, pois, na maior parte das vezes, estamos a aplaudir um beijo de Judas.

Quantos assobios ouviu Maxi quando beijou o emblema das “águias”? Imensos. Assobios que, hoje, se transformaram em aplausos.

Triste a vida destes profissionais que se servem da emoção popular, esta sim, aquela que beija com amor as suas cores, respeitando o que se diz: pode-se mudar de mulher, pode-se mudar de partido, pode-se mudar de profissão, mas de clube, isso, nunca!

Maxi, foi o máximo, quanto a confirmar que o futebol profissional, quem o serve, na sua grande maioria dos casos, começa a ser uma estafada mentira.

Joaquim Queirós, jornalista, foi diretor de O Comércio do Porto e da Gazeta dos Desportos
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