Independentes dependentes… (artigo de Joaquim Queirós, 5)

Espaço Aberto 15-07-2015 22:36
Por Joaquim Queirós
Na vida dos jornalistas e dos comentadores há sempre a desconfiança de quem os lê e de quem os ouve, pois sempre os vê equipados com as várias cores da mais discutida clubite nacional, ou seja daqueles que costumam subir ao pódio.

Em mais que esperada resposta aos remoques que sucedem aos escritos e aos comentários, lá vem o carimbo e a resposta dos carimbados, justificando a sua independência, mas com a táctica do gato escondido com o rabo de fora.

É verdade que há aqueles que não deixam dúvidas a ninguém, uns por convicção pessoal e outros por razões de audiência, ou ainda outros porque consideram que ou há liberdade ou, então, vive-se no mundo da conveniência.

Eu, não poderia fugir à tal realidade e, mal dei os primeiros pontapés no esférico no digital de A BOLA, lá chegaram as reacções, umas embrulhadas em linguagem aceitável a quaisquer ouvidos, outras em estilo de meia bola e força.

Já deixei neste cantinho escrito que tenho simpatia pelo Benfica, vinda dos passados tempos dos anos 40/50, em que as sus vitórias eram quase um alimento do futebol nacional. E ganhei a afeição porque, como já repetidas vezes deixei expresso, porque gosto de bacalhau cozido com batatas! Isso mesmo. Não estou a delirar.
Mas eu conto, antes de avançar na conversa.

Tive um vizinho - o senhor Abílio, de Serpins, vendedor ambulante de azeite e comerciante - que era um benfiquista, como dizia alguém, já antes de nascer.

Eu, domingo a domingo, na brincadeira com um seu filho, era convidado para ouvir a telefonia e os golos do Julinho, do Rogério e do Valadas. E, ao fim do dia, era convidado para jantar, com a D. Matilde a trazer para a mesa um fumegante e apetitoso bacalhau cozido, com batatas, cebola, cenoura e a tronchuda penca, com a particularidade de um molho de azeite com...uns pingos de verde tinto.
E como eu gostava daquilo! E todos os domingos me fazia convidado, gritando “gooooolo do Benfica”!

Assim, com bacalhau, azeite e vinho, peguei de estaca com o meu benfiquismo, embora, está claro, as minhas raízes tenham o encarnado do Leixões.

Perguntar-se-á, neste momento do comentário: mas porque razão veio à tona o bacalhau à Benfica?

Ponhamos os pratos na mesa.

Da minha prática de jornalista e comunicador tenho testemunhado, este ano, uma desenfreada euforia pelo que se passa em casa dos dragões e dos leões. Até a mudança da empregada da lavandaria é capaz de merecer duas linhas ou um comentário.

Por outro lado, as águias que, durante anos foram o sustento de muitos, nesta hora em que parece haver na Luz um certo acordar para a realidade nacional de que o dinheiro terá de ser o grande árbitro, as notícias e os comentários saem a saca-rolhas e sempre com um “se” ou um “vamos a ver”.

Não compreendo, por mais que perceba o que é a lei da sobrevivência, como o Benfica passou de idolatrado a um quase mal-amado, enquanto um qualquer perna de pau que chegue à Portela, que vá para outros clubes, tem logo uns discutíveis vídeos a acompanhá-los e estatísticas de mais golos que jogos efectuados.
Por outro lado, o Rui Vitória passou a ser um candidato a Rui das Derrotas; o Jesus é o homem dos milagres; e o Julien Lopetegui o senhor Euromilhões.

A decisão benfiquista de contar os euros e estar com os olhos bem abertos para os extractos bancários, são acusados de estarem a ser ultrapassados pelo fervilhar do entre e sai na casa dos adversários.

Em Alvalade é pedido a Jesus que faça o milagre dos peixes, enquanto nas Antas parece que o dever está em primeiro lugar…

Vamos esperar para ver.

Deixemos a bolinha começar a saltar e os contabilistas a fazerem as contas, sobretudo a partir do dia 20 de cada mês, tal como o início do meter o nariz dos antipáticos servidores do Fisco.
Depois queremos ouvir e ler, todos os homens - e mulheres - do acalorado debate deste defeso, com tácticas de estúdio e de grafismos no jornais, com os avançados que na mala da roupa já trazem golos feitos, com os defesas com couraça de aço e os guarda-redes de baliza fechada a sete chaves.

E não será de abrir a boca de espanto se muito do verde de agora passar a vermelho do nervosismo, e o que era azul do céu passe a ser cinzento.

Se tal suceder, é da lei do jogo. Da bola que bata na barra, do milionário goleador que falha um golo que até o meu neto marcava, do defesa que custou este mundo e o outro que aplica cacete a torto e a direito e vai para descanso uns tempos, ou o guarda-redes que possa ter um biscate como assador de frangos. Pode acontecer.

O que nós devemos querer é um campeonato de barba rija, mas a três ou a quatro (cuidado com o Sporting de Braga). Com apitos limpos de dúvidas, com comunicação atenta e a falar verdade com todas as letras, doa a quem doer, deixando a discussão dependente para a mesa do café ou para o “uisquinho” da madrugada.

Guerra de loucuras, de dependência, deixe-se isso para o Metro, para o café ou para o barbeiro.

E, já agora, deixe-se, também, ficar a informação dependente para os órgãos de comunicação dos clubes. E esses já são muitos.
Não lhes façam concorrência. Deixem-nos. Em paz.

Joaquim Queirós, jornalista, foi diretor de O Comércio do Porto e da Gazeta dos Desportos
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