Euroloucura (artigo de Joaquim Queirós, 4)

Espaço Aberto 13-07-2015 16:43
Por Joaquim Queirós
O futebol em Portugal, tal como noutros países com a crise económica instalada, tal a como a nossa - e até pior -, parece viver num estado de não saber o que fazer ao dinheiro. Fala-se em milhões com uma facilidade como se as tesourarias funcionassem no Banco de Portugal. Fazem-se contas e há quem por saber - às vezes mal - dar uns pontapés na bola, ganha mais num dia do que milhares e milhares de trabalhadores num ano de trabalho.

E, pior, um trabalhador que recebe menos de 20 euros por dia, se cometer um erro na sua actividade profissional, logo corre o risco de ser despedido. No futebol, pago a peso de ouro, o treinador pode-se enganar na táctica ou na escolha de um futebolista; este pode falhar um golo; o guarda-redes dar um “frango”, que nada acontece se não uma ladaínha de impropérios dos apaniguados e um mutismo dos patrões, pois não podem despedir, porque se o fizerem, pagam bem pago as asneiras dos seus contratados.

Pegamos num papel e lápis ou na calculadora e, meu Deus, não é possível ver tantas parcelas milionárias. Os dirigentes pagam e ficam nas mãos dos recebedores. Os dirigentes inventam movimentos financeiros com fundos e sem fundos, prática que a continuar assim irá deixar, não se duvide, alguém sem fundilhos.

Abrem-se subscrições de todo o tamanho na caça ao dinheiro, oferecendo juros que a banca mais apetrechada financeiramente não pratica. Emissões de empréstimo, atrás de emissões, num estilo de pescadinha de rabo na boca. O esvoaçar dos euros é uma constante e com mais velocidade da águia do Benfica, da força do leão do Sporting ou das medonhas chamas do dragão do FC Porto.

Mas, por mais estranho que cada vez mais pareça, o dinheiro aparece, pelo menos na contabilidade dos clubes, obrigando a que dirigentes como Luís Filipe Vieira, Bruno de Carvalho e Bruno de Carvalho não consigam dormir sem tomar a pílula do sono. Não pode ser doutra forma.
Os treinadores querem aquele e aqueloutro, querem vedetas, sejam elas já nomes em tempo de reciclagem ou não. Não há dinheiro, pois arranjem-no, não aceitando dar garantias que as vitórias vão aparecer e os campeonatos vão ser ganhos.

Por outro lado, o futebol português cada vez está mais internacionalizado e até já tem lugar para vedetas, algumas que nem sequer sabem se Portugal é em Espanha ou no norte da Europa. E mais, esses nomes sonantes não importa que estejam a caminhar para a idade do senhor Silva, que está no Lar de Beirais de Cima.

Nos balneários dos chamados três grandes a língua oficial é manual, ou seja, é quase por gestos, tamanha é a algaraviada com som de fundo da comunicação, havendo a necessidade de na equipa técnica, para além dos treinadores da bola, os tratadores do físico, os psicólogos, também se arranje um lugarzinho para os tradutores. E tudo a ganhar bem.

O Zé o que quer é a bola a saltar, e atreve-se a comprar os saldos das colecções de bilhetes, para além das quotas, nem que para isso, lá em casa, só haja acesso ao diário prato de arroz e sempre só arroz, quando não, adeus às bancadas da Luz, de Alvalade ou do Dragão. Os livros escolares do Neca e da Lurdes podem esperar ou o “Com Coração Lá da Rua” dará uma ajuda.

Mas esta “euroloucura” não está a contaminar os três grandes. Nada disso. Por outras bandas em que um euro é um euro, faz-se conta ao endividamento a contar que se… E como esse se, na maior parte das vezes, se esquece de se confirmar, então crescem passivamente os passivos. E seja o que Deus quiser. Na II Liga também se joga futebol. E na III, também. E, então, nos distritais é que é animado. Pois é. Somos um país de cavaquinhos e queremos ser virtuosos do violino.

Joaquim Queirós, jornalista, foi diretor de O Comércio do Porto e da Gazeta dos Desportos
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