Quem vier atrás que feche a porta (artigo de Joaquim Queirós, 2)

Espaço Aberto 02-07-2015 19:00
Por Joaquim Queirós
Sei que vou correr o risco de ser considerado um anjinho e com bolor nas asas, ou gente já fora do prazo de validade, mas realmente, mesmo correndo esse risco, não me calarei.

Na verdade é superior à minha capacidade de entendimento o que se passa no futebol português, sobretudo nos rios de dinheiro que os números anunciam, ao mesmo tempo que se amontoam as situações de pobreza e até de miséria extrema numa quantidade imensa de clubes.

Toda a gente parece ter dinheiro, mas todos se queixam que o não possuem. Uma contradição, digamos, um campeonato de mentiras e com uma posição de vida deplorável, pois ninguém quer saber como é que as equipas entram em campo. Resmas, paletes, como diz o outro, de gente rica de intenções, mas de bolsos rotos.

Mesmo os poderosos Benfica, FC Porto e Sporting, com caudais de receitas importantes, de anúncios de compras e vendas de muitos milhões, não cessam os vermelhos nas contas, os passivos superiores aos activos, os montões de notas explicados por engenharias financeiras, cada vez mais sofisticadas, dado que as portas dos bancos já não se escancaram para atender os pedidos de socorro.

Recorre-se à emissão de obrigações para pagar emissões anteriores, ficando juros e mais juros pelo caminho. O velho problema do cobertor curto...

E já não falamos na condução dos negócios, como agora o Sporting anunciou, com derrapagens financeiras com largos prejuízos para a instituição desportiva e para o moral dos condutores. Estampanço atrás de estampanço.

Desde o Europeu, quando se construíram estádios que custaram fortunas e, alguns deles, hoje, são verdadeiras e ferozes elefantes brancos, um deles até votado a campeonatos regionais, de muda aos e acaba aos doze, e outros com assistências do lá vem um… E ninguém teve culpa do que aconteceu, nem aqueles que fizeram figura de ricos com bolsa de pedintes.

Ganharam os empreiteiros e alguns deles ainda não sabem se ganharam, pois o dinheiro ainda por lá anda.

Há, depois, uma procissão de clubes que praticam a política de gestão de tapa aqui para descobrir acolá, de um faz de conta, que não se inibe de percorrer caminhos lamacentos da mentira e até da indignidade.

Cheques sem cobertura, tesoureiros a abandonarem as instalações administrativas pelas portas das traseiras, ataques de histeria colectiva quando se aproximam as datas de inscrição dos clubes ou de prova de estabilidade económica e financeira, imensas sociedades desportivas em que os associados do então clube e seus adeptos, perdem a sua identidade, mas continuam a contribuir para a desgraça, pois a bola para a frente é que importa. As dívidas...devem-se.

Uma maioria absoluta de falso profissionalismo também agrava a situação. Prometem-se contratos e assinam-se outros com a certeza antecipada que não são para cumprir. Salvam-se aqueles poucos em que a bola entra nas balizas adversárias, há vitórias e as dificuldades atenuam-se. Mas quando a bola entra na baliza e se somam as derrotas, está tudo perdido. Não se paga a ninguém. Os tais profissionais são chutados para uma vida de “off-side”, minimamente decente, e a vergonha de quem lhes deu emprego atira bolas fora ou tem falta de comparência no encontro com a seriedade de comportamentos.

Então, agora que se aproxima uma nova temporada aparece a doidice das transferências. Não faltam os euros para comprar ambições. Os empresários, únicos parceiros que vão sempre ganhando, não descansam com a apresentação dos catálogos, todos de futebolistas de eleição, guarda-redes famosos, defesas matulões, médios que comem a bola e avançados que só sabem fazer golos, agora, mais requintadamente aliciadores, através de sofisticados vídeos, mas de enganosa realidade.

As hostes associativas e simpatizantes querem mais e mais, enquanto os dirigentes se decidem suicidariamente pela máxima do fazer-se o que se deve e dever-se o que se faz.

E é assim que está o futebol português, com o desaparecimento dos clubes e o surgir a esmo das sociedades desportivas.
Até já existem empresas para adquirir a formação de futebolistas, pois o dinheiro dos clubes e das sad´s não suportam essa coisa de ver os meninos a crescer.

Para as equipas principais contrata-se já a “obra” feita, em carradas de africanos, de brasileiros de terceira qualidade, de falsos profissionais de Leste, tornando os clubes portugueses em autênticas babilónias, havendo jogos em que os únicos que falam português são as equipas de arbitragem.

Mas, ninguém pensa na realidade. Nem os chamados grandes.

Para muitos será blasfémia o que acabamos de escrever. Realmente somos de um tempo que já não se usa: ser cumpridor, ser sério.

Hoje, quem vier atrás que feche a porta.

Joaquim Queirós, jornalista, foi diretor de O Comércio do Porto e da Gazeta dos Desportos
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