O Pecado de Jesus (artigo de Joaquim Queirós, 1)

Espaço Aberto 26-06-2015 22:07
Por Joaquim Queirós
Os nossos olhos e os de toda a gente que segue o Europeu de Futebol dos sub-21 ficam pregados numa figura: o português Bernardo Silva.

Enche os relvados que pisa com a sua arte, a sua classe ainda de um menino, mas um menino virtuoso. Está ali um nome grande que, certamente, não parará por muito tempo no Principado do Mónaco e onde já é quase tão idolatrado como o... Príncipe Alberto.

Ora este “menino d’ouro” andou pelos terrenos do Seixal, à espera que os olhos que mandam se voltassem para ele. Pediu muitas vezes a Deus que Jesus se lembrasse dele…

Mas o treinador não ía lá muito com a sua habilidade de “comer a bola”, das suas estonteantes diagonais e até dos seus golos. Era um garoto. Teria de crescer e aparecer.

O técnico que comandava a matéria humana de muitos quilates da moeda europeia ou do leque de notas do Tio Sam. Havia tempo para esperar e isto de tratar de meninos que ainda usam fraldas, não dá assim muito jeito. É mais prático colocar em campo alguns que não sabiam sequer em que ponto cardeal fica Lisboa e retirar deles o que já outros trabalharam.

O miúdo que continuava sentado no banco à espera da sua hora ou de alguém que se lembrasse de o vir buscar e a seus alguns colegas.

E foi o que fez Leonardo Jardim.
Quando treinou o Sporting conseguia dar uma espreitadela para o outro lado da rua ou ter alguém a espreitar lá pela Outra Banda. E não hesitou, quando lá de longe, do enclave dos casinos, tentou a sorte de comprar o menino e por milhões, milhões que o Benfica aproveitou de imediato.

E Jesus ficou impávido e sereno a inventar a colocação de Pizzi, Samaris ou Fejsa, enquanto o nosso Bernardo dava lustro às chuteiras e começava a distribuir brilho por onde passava. Não tardaria saltar aos olhos do selecionador nacional e logo para a equipa A, brilhando, agora, entre os sub-21 com grande fulgor.

E, assim, surgiu um dos pecados de Jesus. Aliás pecados que são praticados por esse Portugal fora, por muito Judas do futebol português, preterindo jovens com real valor, a necessitar do trabalho dos técnicos, mas que são trocados por uma maioria de pernas de pau e que só conseguem balbuciar um “bom dia”, depois de falharem dois ou três golos.

Deus, certamente, não perdoará este pecado a Jesus.
O chamado Messizinho do Seixal, que em 10 de agosto fará 21 anos, será uma das muitas pedras no sapato de um treinador que não gostava muito dos jovens, sobretudo os portugueses.

Razão tem Luís Filipe Vieira para ter fé na Academia do Seixal e não se deixar levar por ladaínhas pouco católicas, sobretudo agora que já não pode falar com o Espírito Santo.

Joaquim Queirós, jornalista, foi diretor de O Comércio do Porto e da Gazeta dos Desportos.
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