Sergey Syzyi luta pela família em Trás-os-Montes

Campeonato Portugal 01-04-2022 09:46
Por Pedro Cadima

Entre dias terríveis de angústias e notícias de puro terror que foram chegando da Ucrânia, literalmente invadido por imagens de uma guerra cruel e atroz, Sergey Syzyi, agora acompanhado da cunhada Alina e do sobrinho Savelii, que escaparam de um cenário dantesco e se refugiaram em Portugal, procura em Vila Real um reencontro com alguma normalidade, normalidade essa que todos percebemos estar muito longe de ser palpável ou concretizável.

Ninguém está indiferente aos acontecimentos em solo ucraniano e aos ataques massivos e grotescos das tropas russas a mando de Putin. A apreensão é global. Muito menos indiferente pode estar um jovem ucraniano, que cresceu feliz num país autónomo, livre e com desejos crescentes de afirmação no mapa europeu. Ainda em junho, Syzyi, 26 anos, médio que percorreu as seleções jovens da Ucrânia, visitava a sua amada Kharkiv, a cidade onde nasceu, cresceu e se fez jogador, sorrindo como uma criança encantada, envolvido por sonhos de prosperidade dos seus compatriotas. Um encanto feito de saudades com sete anos de vida e carreira em Portugal, passando por Aves, Fafe, Sanjoanense, Coimbrões e Vila Real.


Pois foi sobre Kharkiv que foram desencadeadas as primeiras e bárbaras ofensivas da Rússia, ainda hoje massacrada e despedaçada, refém de uma proximidade com as fronteiras sob a égide de Moscovo. Syzyi confessava nos primeiros dias o abalo emocional, o inconformismo por estar longe dos pais, avós, do irmão, da cunhada Alina e do sobrinho Savelii. Sabia deles escondidos em bunkers, ameaçados pelos bombardeamentos, encurralados pelo risco de fuga de uma cidade demasiado cercada e com comunicações intermitentes. Ao fim de algumas semanas, Sergey viu a família escapar para uma zona segura, onde residiam os avós. Apesar dos dramas de muitos ucranianos em vários pontos do país, cidades dizimadas e arrasadas pela carga bélica inimiga, o jogador do Vila Real respirou de alívio percebendo maior conforto dos seus entes queridos. Lutou, no entanto, por os trazer para perto de si e agora delicia-se com os primeiros chutos do sobrinho Savelii, enquanto a cunhada Alina procura traçar um novo caminho, enquanto há um conjunto de imagens que não se apagam, persistindo a incerteza na condição de quem ficou. São duas presenças para lá de encorajadoras, verdadeiro remédio para a alma e um fio condutor de maior esperança. Syzyi volta a sorrir... animado por outras forças em seu redor.


«Estou numa fase mais calma. Estava muito preocupado com o meu sobrinho, de apenas três anos. A minha cunhada veio, o meu irmão não conseguiu sair. Foi difícil, mas tanto ele como os meus pais parecem estar em segurança, numa cidade onde não aconteceu nada. Mas nunca sabemos nada ao certo, nem sabemos o dia de amanhã numa guerra», revela, num português perfeito, assaltado por inevitáveis contrições.


«De início foi muito, mas muito difícil, não sabemos o que podia acontecer, de repente vemos a guerra escalar, todo o mal à vista. São bombardeamentos, tiros… muita destruição. E é difícil pensar», atira, viajando por outras imagens e por comparações que tornam doloroso aceitar a realidade.


«Ainda passeava em Kharkiv em maio ou junho, estava lá com a minha família. Agora vê-se tudo partido, arrasado, falo de ruas e parques onde cresci e brinquei. Não dá para imaginar ou perceber a verdadeira dimensão. Falo com amigos e aquilo tudo o que vimos pela televisão é só uma parte da destruição. É tudo muito pior», desabafa, mergulhado em notícias aterradoras.

 

«Acabou de morrer um amigo meu de infância este último fim de semana. Decidiu combater, tinha 26 anos. Andámos na mesma escola, estudámos e jogámos juntos. Perdemos o contacto há dois ou três anos. Mas são estas as notícias que nos chegam e não queremos», regista.
«Morreu já muita gente, muitas crianças. É terrível. Sobre Kharkiv nunca pararam os bombardeamentos, não houve sossego um dia, algo sempre acontece. Ainda tenho lá uma tia fechada num bunker, só sai para ir buscar comida», confidencia .
 

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