“Juízo Final” - Conclusões/Tributos/Saudações (artigo de José Neto, 106)

Espaço Universidade 12-08-2020 10:27
Por José Neto

Dizia eu no artigo anterior “F.C. Porto acreditou, confiou e ganhou, fazendo da vontade de vencer uma escolha abnegada de ir para a luta e nunca se render e todos sabemos que aqueles que nunca se rendem são os que têm a única oportunidade de triunfar”.

 

E continuava :“penso que Sérgio Conceição indexou na sua filosofia de liderança  essa arte inteligente de acolher com circunstância e paciência a capacidade que jorra no espírito que marca a história do tempo que a dupla interpretada pelo saudoso Sr Pedroto e pelo eterno Presidente Jorge Nuno Pinto da Costa, interpretando os problemas como desafios, impondo um reservatório de energias que a equipa funcione como identidade coletiva demolidora, fazendo de cada gota de suor um momento de confluência dum saber ser com um saber fazer”!...


E tudo se viu confirmado na conquista da taça de Portugal na “dobradinha” que perante o adversário S.L.Benfica se aguardava desde há mais de seis décadas.


As vicissitudes operadas no decorrer do jogo, interpretadas pelo melhor árbitro português da atualidade e um dos melhores a nível internacional (aspetos disciplinares com mostragem de cartões amarelos, expulsões … a merecer discussão ou retaliação), parece que funcionou como rastilho indutor no sentido de encontrar as melhores estratégias de superação, transportando na alma o espírito congregador de combate para a conquista da vitória.


Todos sabemos que por vezes os talentos, podem por si só ser razão suficiente para vencer jogos, mas a dedicação, a entrega permanente, a paciência, em esperar sem desesperar, acolitada por uma gestão de competências de forma inteligente, são a razão evidente para vencer campeonatos, ou neste caso a duplicação dum título conquistado.


Creio que só deste modo, tendo presente uma equipa movida como uma roda dentada, liderada pela imagem dum “cavador de sonhos”, cautelosa pelo possível excesso de confiança, sabendo que muitas vezes o sucesso pode entorpecer, cava sonhos feitos por castelos no ar, sem ferro, areia ou cimento capazes de os sustentar, ficando traídos pela neblina com que se deixam envolver.

 

Sérgio Conceição ao descobrir a magia da crença, foi cultivando um padrão de imagens positivas, revigoradoras na busca de novas causas. Descobria-se através do sereno entendimento do seu olhar uma enorme vocação para cultivar um espaço para lutar e ganhar. No estado de fé, residia a perseverança no ataque perante as questões mais desfavoráveis. No turbilhão da sua voz, misturado com os gestos do inconformismo, fazem-no pertença duma inquietude que para muitos pode parecer rebeldia, mas para mim reside no eco das imagens por quem a mágoa de saudade é impossível conter.


Só alguém que passa pelo beco das intempéries pode chegar ao fundo da alma e sacar o que lhe resta de energia para catapultar as armas para a vitória.


De jovem menino nascido e guiado próximo nas encostas de Coimbra, como tantos outros na descoberta dos sonhos, sobrou-lhe o ar dum crescimento experimentado e coloriu-se-lhe a alma do sentimento exercido, deixando-lhe com 16 anos a marca duma última e trágica viagem de motorizada nos ombros de seu pai que partiu e lhe doou o estatuto que por vezes as lágrimas se deixam colorir como bênção divina e logo, dois anos após, o adeus à sua mãe. Na sua memória sempre habitará um eco de silêncio duma figura de nobres princípios, sempre pronta a cultivar a beleza de quem lhe deu vida.


Eu sei do que me orienta este espaço de reflexão em relação ao Sérgio Conceição e sua afetuosa família. Tenho o privilégio de contar com dois dos seus cinco filhos como meus alunos na faculdade. Há ali um código de valores que jamais pode estar destituído desta sua capacidade ganhadora. Estou perfeitamente convicto que reside no seu seio familiar um tesouro do encontro com a vida e nessa genuína e revigoradora energia da sintonia de amor que tanto os abençoa. Também aqui, na reconciliação íntima da sua existência se forja a imagem dum verdadeiro Campeão.


Congregando esta dádiva do coração, com a inteligência na liderança da arte ganhadora do presidente eterno Jorge Nuno Pinto da Costa e a focalização do espírito Pedrotiano, que a imagem móvel do tempo  sempre persiste em  cultivar, temos as grandes razões do SER PORTO GANHADOR que da organização faz regra ..da regra disciplina…da disciplina resultado e do resultado sucesso…imbuídos, (como refere de forma repetida o presidente), pela paixão, rigor, competência e ambição.


Permitam-me neste “Juízo Final” deixar em forma de dedicação pela estima que me move, três ou quatro notas complementares:

 

A primeira é dedicada ao meu bom amigo, supercampeão desse meu temp(l) o sagrado Bi Bota D´Ouro Fernando Gomes, desejando-lhe as maiores felicitações para a nobre função que a partir desta época se lhe foi justamente atribuída. Coordenar todo um departamento de formação dum clube campeão dos campeões, reveste-se dum ato de elevada mestria. O significado que está inscrito no código de valores que o símbolo do Clube lhe reserva, é sem dúvida o melhor testemunho de reconhecimento e amor que lhe é confiado. Como de resto se vem notando, existe na orgânica estrutural, moral, técnica e operacional de liderança para as exigências neste binómio formar para render e crescer para vencer, exemplos de presença de ex jogadores campeões, que do clube construíram os alicerces que os levaram a bater nas portas do céu.


Outra nota de referência se destina ao meu F.C.Paços de Ferreira e a toda esta gente boa e humilde que cultiva a terra, molda o aço, transforma a madeira  e dela faz capital. Na liderança dum saber estar devidamente partilhado por uma cultura de exigência, o presidente Dr Paulo Menezes consegue colocar em permanência a honestidade de linhagem dos diretores que têm feito do clube sua história, e ao longo do tempo mantido no horizonte do sucesso uma referência fundamental da minha terra para o mundo.

 

Conheço muito bem o Diretor Geral Carlos Carneiro e Treinador Pepa noutros passos de desempenho obtido, vertidos em lágrimas de alegria. Para mim, juntamente com o secretário técnico Paulo Gonçalves, está garantida nesta tríade, a segurança que mantém um eixo mediador de tranquilidade dum PAÇOS ESFORÇO E VITÓRIA.


Nota também especial para os atributos de excelência de um dos melhores treinadores da atualidade, Carlos Carvalhal. Tive a felicidade de o ter como atleta nos inícios da década de 90 no S.C.Braga. Um Clube no momento movido por padrões de enorme dificuldade estrutural, mas que, segundo um trabalho de investigação desenvolvido juntamente com um colega do 1º mestrado da U. Minho, Jorge Sequeira, concluímos que estava inscrito no potencial do seu desenvolvimento, um vulcão como que adormecido, agora em chama ardente a debitar focos de competência por todos os poros, envolto numa cidade inscrita nos valores duma dimensão histórica, cultural e patrimonial exemplar, sempre com os horizontes focados no futuro.


De atleta estudante, Carlos Carvalhal soube cultivar a prática sustentada com potencial mestria. Ainda muito me honra o facto de ter sido seu preletor de todos os níveis dos seus cursos de treinador (I, II, III e IV/UEFA-PRO), encorpando neste último, uma turma muito especial que contava como colegas, Zé Peseiro, Couceiro, Pedro Martins, Zé Mourinho…etc… Na sua competência técnica e científica, associa valores duma muito especial fidalguia de trato, robustecida pelo exemplar traço social e humanista que desagua na ternura do seu regaço familiar. Não tenho dúvidas que está devidamente preparado para fazer da sua história a história das suas gentes.


Outra referência que não posso deixar em claro, reside ao nível de treinadores, numa das minhas mais consagradas bandeiras de mastro bem alto, a desafiar o infinito. De seu nome José Gomes. Tenho mesmo muita dificuldade de expor as circunstâncias que sempre e em qualquer circunstância abonarei em sua defesa. Não apenas por ter sido meu aluno no 1º ano de faculdade e na opção futebol do último ano. Nem tão pouco por ter sido eleito como o melhor treinador da Hungria quando esteve ao serviço do Videoton. Nem pelo facto de ter passeado sua classe pelo mundo Árabe e regressar com êxito de experiência feita ao Rio Ave Europeu ou quando em  Inglaterra ao serviço do Reading, aquando do último jogo, deixou  a marca da sua existência,  sentiu o arrepio no corpo quando em toda a volta do estádio as cores de Portugal se envolviam com seu nome. Tão pouco pelo facto de ter liderado uma das equipas (Marítimo) que após o recomeço deste campeonato, atingiu um dos rankings mais expressos nos pontos e exibições conseguidas. Mas outras causas maiores anunciam este legado de entendimento entre memórias e imagens, que só pelo eco do silêncio se conseguem entender. Sempre em aplauso, agora que no campeonato de Espanha tem mais um trampolim de exigência, que poderá ser a reconversão em novos sonhos, onde sempre desagua uma sagrada esperança.


Um abraço especial revestido dum sentimento bem fraterno para o meu menino/jovem/adulto Vasco Seabra. Desde tenra idade que lhe sigo a vida. Com dedicação exemplar fez a viagem do tempo até esta consagração de treinador de alto nível. Na escola da vida na Faculdade este meu bom vizinho soube usar o empenho, compromisso, dignidade e respeito baseado numa constante busca do saber, baseado no estudo e investigação e sempre sustentado na experimentação. Creio que poderá fazer regressar o Boavista ao Boavistão de ouros tempos com marca do Sr Pedroto e de outro vizinho de devoção fraternal Jaime Pacheco. Lhe desejo as maiores venturas.

 

Outra nota muito evocativa para Carlos Pinto que ainda mais vizinho tem a notável capacidade de envolver tudo o que faz revestido num ato de amor. Vivemos juntos a glória do acesso à 1ª Liga do Santa Clara. Mas muito mais do que esse compromisso do dever que muito me honrou, encontro no Carlos Pinto um espírito de liderança inquebrantável e que irá de certeza levar o Desportivo de Chaves ao galarim dos notáveis.

 

Por último uma palavra de saudação a apreço para quem ao longo do tempo também semeou dedicação, feita em suor e lágrimas, devoção, educação, cidadania e classe, muita classe,  e agora inicia as funções técnicas como líder do Vitória S.C.  Tiago Mendes.


Também foi aí, em terras de D. Afonso Henriques, que no início dos anos 80 conheci a figura que mais me marcou a minha vida no Futebol e cuja memória eu revisito em permanente saudade, Sr José Maria Pedroto. Mais tarde com Bernardino Pedroto e recentemente, (um tempo muito curto de final de época), com José Peseiro. Senti o pulsar dum povo que faz do seu clube um hino de grito e voz de tanta gente …tanto querer e sede de vencer, sendo Vitória até morrer. Essa gente de notável entusiasmo que faz do Clube uma das fortes razões da sua existência.

 

Perante um grau de dificuldade tão elevada, nada melhor do que um Clube desta grandeza para colocar em prova a competência e audácia de quem tem um longo caminho a percorrer.


Deus te ajude Tiago Mendes a fazer do percurso a reconversão do tempo em distância e onde o sucesso possa marcar encontro com a oportunidade dos valentes 

 

José Neto: Metodólogo em Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário.
 

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