E já são muitas as saudades de Nick Cave, Pavement, Beck, Gorillaz ou a surpreendente Little Simz

Música 14.06.2022 16:24
Por Pedro Cadima

O poderoso ressurgimento do Primavera Sound deixou uma cidade assoberbada e deslumbrada. Os dois anos de interregno acentuaram expetativa e ansiedade e a paixão pela música independente, sonoridades ousadas e propostas frescas no risco, provocação ou radiosa encenação convergiram numa azáfama de melómanos, propagando-se cultos, fossem de álbuns seminais ou estrelas inconfundíveis de lastro cintilante, apalpando-se venerações diversas num Porto solarengo e sorridente, abençoado por um Parque da Cidade inundado de gente, de tribos vários da música apoiadas em conceitos estéticos, cobertas de adereços ou inúmeros requintes de uma vincada confissão sentimental. Postais ilustrados de um festival onde se espreme um saboroso batido de tendências, visuais e musicais, convida as famílias e uma comunhão geracional.Foram batidos recordes de assistências e 30 mil pessoas por noite respondem, sem reservas, ao sucesso deste Primavera Sound, reativado na cidade após o fantasma da pandemia. Entre vários palcos desenhados para acomodar grandiosas atuações, dançavam pelo recinto pedidos de primeira fila, ouviam-se ecos de admiração a cada intervalo para mais uma cerveja, mesmo que vendida a preços proibitivos, não fosse o regime de exceção traçado para tantas vidas só pelo acontecimento de três dias. 

A noite de sexta pertenceu como se antecipava a Nick Cave, sempre monstruoso, virtuoso na forma de estar e com um domínio esmagador dos anseios da plateia, ladeado, pois está, dos seus inseparáveis e bestiais Bad Seeds. A terceira presença no Porto, em cartazes do Primavera Sound, voltou a furar lógicas de apreço terrestres, transcendeu a adjetivação normal e fez descobrir paladares nunca antes provados ou explorados. Agigantou-se, fez por mais de uma hora a sua escada para céu, pregou com uma banda sonora de luxo, numa aparição divina para Porto/Matosinhos, firme na mestria com uma coleção de retumbantes clássicos. Quem lá andou ficou sem palavras, estarrecido, abananado, curvado ao Deus, suspirando por mais. O que ficou para trás para trás ficou…por muitos predicados em palco, ou até por génio e novidade.

Os Tame Impala levaram a sua fúria visual coberta de abundantes efeitos psicadélicos e iluminaram a sua atuação entre temas que já motivam comunhão de cânticos entre tantos fãs fervorosos em Portugal. Chamem-lhe bom e apelativo, vivo e esplendoroso. Mas quem acaba como acaba uma noite do Primavera Sound, Nick Cave teve a presença de rei, deixa pouca margem para outros caberem na galeria de memoráveis. 
A segunda noite marcou a viagem de uma multidão aos noventas…primeiro entregues à sublime condução dos Slowdive, elegantes do primeiro ao último segundo no seu shoegaze trilhado a partir das suas origens e com uma adorável ressurreição feita a partir de 2014, que já os trouxera, então, ao Porto. Tudo combinado na perfeição, a melodia e o ruído, as vozes supremas e harmonizadas, a atmosfera, a paisagem e a luz do dia…ainda presente a perder lentamente o brilho como que não se desligando, presa pelo encanto irradiado do palco. Os Slowdive chamaram os seus devotos e não os defraudaram e no, final, todos levaram um aroma para degustar, uma memória para preservar, autorizados a procurar outros abrigos. Foi, por essa altura, que King Crule também impunha a sua própria catarse auditiva…muitos jantavam e sentiam esse baque. O festival estava colorido e florido para aclamar o festim de Beck…uma incontornável companhia de muitos ouvidos, fazendo dos seus álbuns exercícios de clássicos que nos fizeram as delícias em noites de rock, infindáveis noites de música rasgadinha. Lá entravam sempre as propostas de Beck. Reapareceram no Porto, numa altura que poucas pistas sobram dessas capelas, desses cantinhos sagrados da nossa juventude. Beck reacendeu tudo fiel à sua matriz, ao seu estilo e a sua imagem, mantendo a sua airosa juventude. 

E, que dizer dos Pavement! As silenciosas estrelas do indie foram elegantes sem ponta de presunção, no que tocam, no que sentem e na forma como respiram a música que criaram. Guiados por um líder inspirador como Stephen Malkmus…as composições dos lendários californianos roçaram a perfeição na sua interpretação. Belos, luminosos e soberanos na sua majestosa roupagem musical. Fizeram da sua estreia em Portugal, muitos por eles esperaram 30 anos, uma venturosa viagem de hora e meia ao elegante repertório, casando colossal leveza e magnitude com uma plateia embebida na magia, e cada desejo individual era aquecido com um momento preferido. Não há tema que não soe a clássico e os Pavement podem orgulhar-se de serem um absurdo de classe, por não chamaram a si a fama de grandes sucessos.

Transparentes…em tudo, até pela confidência mais celebrada neste Primavera Sound. Aproveitaram para conhecer a cidade ao longo de cinco dias, foram vistos no meio do público noutros concertos, provaram uma francesinha na Cufra e não rejeitaram os cachorrinhos da Gazela. 
Já eram muitas as sensações de um triunfal festival, reforçadas na noite de fecho…com os Gorillaz de Damon Albarn, mestres em fusões, a marcarem o seu lugar na intemporalidade, agarrando gerações várias na música, na postura e no alcance visual do seu concerto.

Despercebidos, longe de qualquer fulgor, os Interpol…passaram apenas pelo Porto. Selo forte foi deixado, sim, pela rapper Little Simz, que protagonizou, porventura, o concerto com maior efeito surpresa de todo o festival, animando e contagiando gente de diferentes afinidades musicais, pela frescura e explosão em palco. Antes tempo para um confronto mais relaxante com as viagens de Helado Negro, no palco principal, uma certa doçura cândida desprovida de faísca, e dos virtuosos texanos Khurangbin, dominadores do deserto com um funk abrasivo e melodioso a experimentar todas as fronteiras, conduzindo a mente e o corpo dos presentes.

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