«Caso Saltillo quase se repetiu em 1993»

Futebol 21-06-2021 23:10
Por Nuno Perestrelo

Foi dito vezes sem conta durante a tarde desta segunda-feira e diz a história que é verdade: há um futebol português antes de Carlos Queiroz e outro depois. Na apresentação do livro A Geração de Ouro, na Faculdade de Motricidade Humana, o antigo selecionador nacional, responsável pela conquista dos títulos Mundiais de sub-20 em 1989 e 1991, falou para uma plateia atenta, ciente, como lembrou, da presença de jornalistas, e passou uma imagem ponderada e de paz. Com o passado e com o futuro.

«Peço a quem ler este livro que não julgue os factos nele relatos à luz do que hoje se sabe, ou dos valores atuais», começou por dizer, destacando o esforço dos autores Hugo Sarmento e Duarte Araújo para contarem «uma história muito longa, feita de penas histórias, um trabalho que começaram em 2014».

 

Focando-se no passado e na importância de se prestar justa homenagem a toda a história do futebol português e não apenas à dita Geração de Ouro, que teve em Figo e Rui Costa expoentes máximos de celebridade, Queiroz deixou importante reparo aos responsáveis da FPF para que façam justiça a José Torres, antigo selecionador nacional, que morreu vítima do que considera uma injustiça: ser considerado pela opinião pública culpado do caso Saltillo, no Mundial-1986 – os jogadores ameaçaram fazer greve devido à distribuição dos prémios. E, por esse motivo, Queiroz voltou a dizer o que dissera ao abrir: que o passado não pode ser julgado à luz da realidade atual: «José Torres não teve culpa alguma do que se passou em Saltillo e essa injustiça não foi reparada pela FPF. Naquele tempo as coisas eram assim. E hoje posso revelar, passados estes anos, que a história de Saltillo quase se repetiu em 1993, antes de um jogo de apuramento para o Campeonato do Mundo de 1994, com a Itália [Portugal perdeu e no final o então selecionador disse que era preciso «varrer o lixo da Federação»]. Nas vésperas desse jogo foi assinado um acordo comercial nas costas dos jogadores. Foi graças à ajuda do então dirigente do sindicato que hoje está aqui [José Couceiro], que silenciosamente conseguimos abafar um novo escândalo. É por isso que digo que é preciso homenagear quem fez o passado do futebol português e respeitar a memória de Eusébio, Pedroto, entre outros».

 

«Ganhávamos pouco, mas divertíamo-nos muito»

Sentado em frente a Nelo Vingada, amigo de longa data e com quem cavalgou o sucesso nas camadas jovens de Portugal, Carlos Queiroz lembrou tempos de luta que tiveram «desafio, aventura, coragem e ousadia». «O meu querido amigo Nelo Vingada dizia que ganhávamos pouco, mas divertíamo-nos à brava e era verdade. Partilhámos um momento de chegada a esta casa [Faculdade de Motricidade Humana], que vivia um sentimento especial. Havia militância à volta das disciplinas e das modalidades. Eramos jovens e ficávamos esmagados, pois estavam aqui todos os selecionadores nacionais, como Hermínio Barreto e José Branco, entre tantos outros. Queríamos ser como eles e como o professor Jesualdo Ferreira», prosseguiu Queiroz, lembrando também que face à experiência acumulada «inovar não era tarefa fácil e houve várias batalhas travadas, que nunca foram conflitos pessoais».

 

Um dos problemas de que Carlos Queiroz melhor se recorda era o do treino. «Estávamos encurralados pelo volume de treino. Começámos então um projeto de treino, estudando neurociência, para desenvolver modelos para preparar uma equipa para o Mundial de 2018, que se realizou na Rússia. Eram modelos especiais, num campo novo. Olhando hoje para trás, temos vários jogadores desta geração de ouro que não foram mais longe por se terem lesionado e este outro desafio para a ciência do treino», disse, apontando casos com o de Amaral, João Oliveira Pinto, Paulo Pilar e Gil, entre outros.

 

Os carolas do futebol

Apesar de focado no lado científico do trabalho que ele e Vingada empreenderam sob orientação de Mirandela da Costa, Queiroz voltou a frisar a importância de homenagear também os «carolas do futebol», aqueles que «fizeram acontecer o futebol juvenil em Portugal».

«Devo ter levado os meus filhos duas vezes à escola, mas todos os dias levava no meu carro jogadores do Olivais ou do Belenenses para os treinos, para cá e para lá», apontou como exemplo do trabalho invisível que milhares levam a cabo no dia a dia e que raramente é reconhecido.

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