Não durou tanto quanto desejaria, mas deixou marcas. Das boas. Assim define Andrei Karyaka a passagem de ano e meio pelo Benfica - entre o verão de 2005 e janeiro de 2007. Aos 42 anos, e a partir de Moscovo, o antigo avançado russo analisa o clube da Luz e deixa a promessa: voltará a Lisboa, que adora, depois da crise.
Ainda acompanha o Benfica? Conhece o projeto do clube? Mudou muito desde que saiu, em 2007.
Sim. E gostaria de mandar um forte abraço a todos os adeptos do Benfica, aos funcionários, aos dirigentes, ao presidente [Luís Filipe Vieira], que segue uma política sensata. Não se pode vencer tudo, as derrotas acontecem. Mas o Benfica está no caminho certo, tem boa visão, formando, selecionando e comprando bons jogadores. E o Benfica também vende bem, o que faz parte da estratégia do clube, embora nem todos a aceitem. É uma gestão inteligente, positiva e fácil de compreender.
E os jogos entre Benfica e Zenit, da última edição da Champions? Que lhe pareceram?
O Zenit ganhou em São Petersburgo por 3-1, mas o Benfica venceu na Luz, por 3-0, garantindo a classificação para a Liga da Europa. O Benfica não tem tido ultimamente grandes sucessos na Europa, apesar de investir forte, pagando inclusivamente 20 milhões de euros por jogadores, mas estes investimentos nem sempre são garantia de conquistas. Há clubes na Europa que gastam ainda mais em aquisições e tão pouco têm sucesso, o dinheiro que circula no futebol aumentou sensivelmente nos últimos anos, mas ao mesmo tempo há em toda a parte cada vez mais clubes que desaparecem por causa de falta de recursos, como aconteceu com o meu Amkar. É lógico que hoje é difícil para o Benfica, bem como para o Zenit, concorrer com clubes mais poderosos da Europa, extraterrestres, como Manchester City, Bayern, Real Madrid e Barcelona. A vantagem do Benfica é não deixar de criar novos talentos. Quase todos os anos produz jogadores promissores, o que lhe permite vendê-los e assim ganhar dinheiro e sobreviver nos momento mais difíceis.
Guarda momentos especiais?
Lembro-me muito bem que logo quando cheguei vencemos a Supertaça, por 1-0. Entrei na segunda parte e joguei uns 20 minutos. Fiquei feliz por poder começar assim, conquistando um troféu pouco tempo depois de chegar ao clube. E tivemos também sucesso na Liga dos Campeões, passando a fase de grupos. E logo a seguir eliminámos o Liverpool nos oitavos de final. Nos quartos defrontámos o Barcelona, empate em casa e derrota fora, mas foi memorável. E lembro-me bem como os adeptos nos receberam depois da vitória em Liverpool. Chegámos ao aeroporto muito tarde e apesar de ser noite estava lá uma multidão. Ambiente incrível! Vou lembrar-me disso toda a vida. Grande, grande momento!
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… e foi uma pena que não tivéssemos conseguido passar o Barcelona. Não tivemos muitas oportunidades no jogo de lá, mas no primeiro, em Lisboa, o árbitro não marcou um penálti a nosso favor por mão na bola de um jogador do Barcelona. No jogo de lá houve um lance idêntico e o penálti foi logo assinalado… Moretto ainda defendeu, mas não deu para mais, foi difícil resistir ao Barcelona de Ronaldinho Gaúcho e Samuel Eto’o. Foram eles que ganharam essa Liga dos Campeões. Mas também ficaram na minha memória os jogos com o FC Porto, sobretudo aquele que ganhámos no Dragão, por 2-0. Entrei logo a seguir ao intervalo. Continuo a guardar esses momentos. Tal como o meu golo ao Celtic, na Liga dos Campeões. Também não dá para esquecer uma coisa dessas.
«Pizzi é um verdadeiro líder»
Ainda segue com atenção a equipa do Benfica e a Liga portuguesa?
Claro! Continuo a gostar muito do Benfica e este ano é praticamente igual a todos os outros, com o Benfica a lutar de perto pelo título com o FC Porto. Creio que a decisão será mesmo nas últimas jornadas. Espero que o Benfica seja campeão, seria um bom motivo para agarrar na minha camisola encarnada e festejar uma vitória. Tenho carinho pelo Benfica e quando defronta equipas russas é um dilema para mim. Mas acho que vou apoiar os russos [risos].
E quem destaca na equipa atual?
Do atual plantel, gosto muito de Pizzi, tem muito empenho, é um verdadeiro líder. Também gosto de Carlos Vinícius, Rafa, Chiquinho e Rúben Dias, na defesa.
O que ainda se lembra do Benfica?
Lembro-me sempre do fantástico ambiente que havia dentro do Benfica no meu tempo. É realmente um clube de top. O Estádio da Luz estava quase sempre cheio e em Lisboa toda a gente nos dava carinho. Era normalíssimo desconhecidos chegarem ao pé de mim na rua para falar comigo ou pedir-me um autógrafo. E, na realidade, nunca tive problemas com isso, foi verdadeiramente um prazer. Aliás, gostei muito dos portugueses, pessoas boas e abertas. Mantenho recordações muito boas dos tempos em que vivi em Portugal.
Já regressou a Portugal? Em trabalho ou em férias?
Não, não fui a Portugal depois de ter saído do Benfica, mas tenho o desejo de voltar. Os amigos que deixei lá não se cansam de convidar-me. Estão sempre a dizer: ‘Andrei, vem!’ Confesso que está nos meus planos ir a Lisboa quando a situação normalizar.