«Só não fomos campeões porque o Varandas despediu o Peseiro»

Sporting 23-06-2019 12:20
Por Rogério Azevedo/Eduardo Marques

Há precisamente 30 anos, a 23 de junho de 1989, José de Sousa Cintra, então com 44 anos, tornava-se presidente do Sporting. Três décadas depois, o líder leonino entre 1989 e 1995 recebe-nos no seu imponente escritório na lisboeta zona do Restelo. E falou dos meses que, no ano passado, num dos períodos mais conturbados da história centenária dos leões, passou como presidente da SAD e membro da Comissão de Gestão.


- Está magoado com Frederico Varandas?

- [pensativo] Ele devia ter mais consideração por aqueles que, naqueles três meses, diariamente, aos sábados, domingos e feriados, sem férias ou fins de semana, deram tudo para resolver os problemas do Sporting. Eles ignoraram tudo o que se fez naqueles três meses.

 

- Quer dar um exemplo concreto?

- Quando entregámos a pasta a esta Direção, a equipa de futebol estava em primeiro lugar [com 10 pontos em quatro jornadas, a mesma pontuação de Benfica e SC Braga] e já tínhamos jogado com o Benfica na Luz. Acreditei que podíamos ser campeões. As pessoas, por vezes, dizem: ‘Ah, o Cintra é um otimista, fala sempre com demasiada confiança!’ A minha convicção era de que seríamos campeões. Ainda agora sinto que, se o presidente Varandas não despede o José Peseiro, tínhamos sido campeões. Com ele até ao fim, éramos campeões nacionais. Ganhámos duas taças e podíamos ter ganho o campeonato. A equipa estava formada e estava com ânimo e entusiasmo.

 

- Qual o peso de José Peseiro naqueles quatro meses?

- Ainda bem que me falam nele. Convém ter uma palavra de grande apreço para com o Peseiro. Ele foi um senhor. Aturou-me tudo e mais alguma coisa e fez um trabalho brilhante no Sporting. Não estou nada arrependido de o ter contratado para o Sporting. Ele era o melhor para o clube. Preferia um português, vi outras alternativas…

 

- Claude Puel?

- Agora não interessa. Sei que juntos trabalhámos dias a fio em prol do Sporting e o Varandas parece que se esquece disso. Abandonámos a família e os negócios para servirmos o Sporting. Não se podem esquecer do passado, nem entendo porque o fazem. O Peseiro tem grande caráter, conhecia os cantos à casa, tinha levado o Sporting a uma final europeia [Taça UEFA 2004/2005] e perdera o campeonato quase no fim. Não tem mérito?! Falavam no pé quente e no pé frio, mas ele é grande treinador. Procurou ajudar-nos a construir o plantel. Via as possíveis contratações de forma minuciosa. É um grande profissional. Via e revia porque sabia da situação do Sporting e não queria comprar por comprar. Ainda recentemente dei uma entrevista e as pessoas pensaram que o estava a criticar. Nada disso. Ele e também o doutor Pedro Pires, que foi muito importante na reconstrução do plantel, um homem com grande cultura de futebol. Só não fomos campeões porque o Varandas despediu o Peseiro. De repente, alteraram tudo…

 

- No futebol?

- Claro. Trocaram de treinador, contratando um estrangeiro que nada tinha vencido. Tenho óbvio respeito por Marcel Keizer, quanto mais não seja por ser o treinador do meu clube, mas ele nada tinha ganho até entrar no Sporting. Para que é que ele mandou o Nani embora?

 

- Diz-se que por questões de ordem financeira.

- É mentira. Ele ganhava o mesmo que os outros. O Nani é um sportinguista de alma e coração e sofre pelo Sporting. Ele não suava a camisola do Sporting, ele sangrava pela camisola do Sporting.

 

- Chegou a falar-se numa pesada herança financeira deixada por Sousa Cintra.

- [furioso] Mas qual herança pesada?!

 

- Aumentou muito os ordenados dos jogadores que rescindiram e regressaram?

- O Bruno Fernandes não quis aumento de ordenado. O Bruno é das pessoas mais brilhantes que eu já conheci. Como jogador e como pessoa. É encantador. Agora, os empresários é que, por vezes, complicam as coisas com a percentagem de dez por cento. E os clubes têm de se habituar a isto. Foi com o Bruno e com o Bas Dost, outra pessoa encantadora.

 

- E o empréstimo obrigacionista?

- Quando deixámos o Sporting o empréstimo obrigacionista estava pronto e aceitado. E quando estes chegaram quiseram fazer diferente. Mude-se o que está mal, mantenha-se o que está bem. Mudar para quê? Fizeram outro empréstimo obrigacionista e pagando mais juros. Quem não se sente não é filho de boa gente. Quero que o atual Sporting tenha grande sucesso, até porque tem um grande presidente da mesa da Assembleia Geral…

 

- Rogério Alves.

- Sim. Ele é um grande presidente. Aliás, era ele o meu candidato. Infelizmente, não quis avançar.

 

- É verdade que, no novo contrato de Bruno Fernandes, há uma cláusula em que, em caso de recusa de uma proposta de venda do passe por €35 milhões, o Sporting é obrigado a entregar €5 milhões ao jogador?

 

- Isso está lá no contrato. Ele teria de sair por um montante [€35M] e se não o deixássemos sair teríamos de lhe pagar €5 milhões. Mas qual era o problema? Interessa é o futuro do jogador.

 

- Teve muitos casos para renegociar, como Bruno Fernandes, Bas Dost e Battaglia, por exemplo, mas houve outros que não regressaram.

- Alguns não voltaram porque não quiseram voltar mesmo. É o caso do Gelson Martins. Esse estava com a cabeça toda já em Espanha. Ainda tive uma reunião com ele, mas tinha a cabeça no Atlético de Madrid. Tentei, tentei, mas não consegui. Podence foi uma questão de verbas e não podia complicar o vencimento dos outros jogadores. Tinha de haver um equilíbrio.

 

- Um dos casos mais polémicos é o de Rafael Leão.

- Esse foi o maior sofrimento que tive. Lutei, lutei, mas com o pai e o empresário foi impossível. Por ele ainda estava no Sporting, mas foi impedido pelo pai e pelo empresário. Foi uma dor de cabeça para todos nós. Não vale a pena contar a história, pois seriam necessárias umas três horas. Fiz os possíveis e impossíveis pelo Rafael Leão. Ele esteve com o contrato na mesa todo pronto e tudo combinado, mas as cenas do pai, sinceramente, foram coisas caricatas. Mas foi por uma unha negra que ele não ficou…

 

- Teve de meter dinheiro seu em 1989 quando se candidatou. E em 2018?

- Não. Todas as despesas pessoais foram suportadas por mim, tal como todos os membros da Comissão de Gestão. Nada ganhámos, pois estávamos ali para servir o Sporting. E servimos o melhor que soubemos e com resultados à vista, a credibilidade voltou, os sportinguistas voltaram a sorrir e viram que o clube estava vivo, cheio de garra e com pujança para continuar a sua bonita caminhada. É um dos clubes mais ecléticos de Portugal e do Mundo, com um passado e história que orgulha qualquer sportinguista. Não podemos perder esse caminho de ser os melhores em todas as frentes.

 

Leia mais na edição digital ou na edição impressa de A BOLA.

 

 

Ler Mais
Comentários (138)

Últimas Notícias

Mundos