A difusão dos desportos e o imperialismo anglo-saxónico (artigo de Vítor Rosa, 34)

Espaço Universidade 17-05-2019 00:15
Por Vítor Rosa

As atividades físicas sempre existiram. O homem sempre caminhou, correu, nadou. Mas o desporto que nós conhecemos há mais de um século, com as suas estruturas, regras, caraterísticas, princípios e finalidades, é o produto de um desenvolvimento social recente. É na Inglaterra, onde o sistema capitalista se desenvolveu mais cedo, que é necessário procurar a origem do desporto moderno. É difícil avançar uma data precisa, na medida em que se trata de uma evolução complexa, mas pode-se relembrar que, em 1730, o relojoeiro inglês Georges Graham (1673-1751), membro da Royal Society, ao aperfeiçoar o cronómetro, permitiu comparar as performances dos cavalos com as performances humanas.

 

Segundo Elias (1986), a caça à raposa apresenta as características do desporto moderno. No século XVIII e no início do século XIX, a caça à raposa era um dos principais passatempos dos “gentlemens” em Inglaterra, ao qual se aplicava o termo “desporto”. Os proprietários dos terrenos praticavam, essencialmente, a equitação, o tiro e diversas formas de caça, entre as quais a caça à raposa.

 

Em rutura com as práticas anteriores, mas também com as conceções estrangeiras, elas tornam-se um passatempo, regido por uma organização e convenções específicas, colocando mais em relevo a matilha de cães do que os caçadores eles mesmos, que não deveriam usar armas. Caçavam por procuração. Laurie (1883, pp. 253-254) relata uma dessas entusiásticas caçadas à raposa: “o interesse desta caça, e a dificuldade para os cães, é que o odor da raposa, muito forte no início da largada, diminui e se evapora à medida que ela foge. Não entra em transpiração, pelo efeito da corrida, como os outros predadores, e não semeia, pela estrada, as gotas de suor denunciadoras, mas, pelo contrário, quanto mais ela corre, menos deixa rasto, e se ela se atira à água, lavando-se na passagem, os cães só têm a vista e o instinto para a seguir. É o que torna esta perseguição emocionante”. Neste relato, refere ainda: “os cavalos, relinchantes e de veias inchadas, na sua indumentária luzente, pareciam possuídos pela mesma emulação que os seus donos” (Laurie, 1883, p. 254).

 

Podemo-nos questionar sobre qual é a contribuição do sistema educativo. O sistema educativo inglês, as publics schools, ocupam um lugar central. Estranha denominação para uma estrutura educativa privada, paga, reservada às classes médias e superiores. A apelação de “public schools” abrange uma grande diversidade de origens e de estatutos.

 

A pedido do Ministro Francês da Instrução Pública, Victor Duruy, Demogeot & Monucci, visitaram a Inglaterra e a Escócia, em 1865, com o objetivo de obter informações detalhadas sobre o estado do ensino secundário e superior. Escreveram um extenso relatório sobre o sistema de ensino e as suas práticas (Demogeot & Monucci, 1868). Referem que “um colégio inglês é uma sociedade de homens devotos ao estudo, que se recrutam entre si por eleição, como os nossos académicos [em França], e se felicitam comummente, como os membros das ordens religiosas, sob a reserva dos seus estatutos, das propriedades e vantagens da sua instituição” (Demogeot & Monucci, 1868, p. 9). Observam também que, uma parte essencial da educação nas escolas, e a mais importante aos olhos dos alunos, e talvez dos seus professores, eram os jogos. Não eram os jogos sedentários dos salões “decadentes” franceses, mas de exercícios atléticos: ténis, futebol, canoagem, regatas, corrida, críquete, etc. “Um estrangeiro que visita Inglaterra fica surpreendido ao ver a alta estima que obtém a superioridade de todos estes exercícios”, sublinham Demogeot & Monucci (1868, p. 20), como foi, aliás, o caso de Pierre de Coubertin, que viajou várias vezes a Inglaterra, e que quis implementar o mesmo modelo educacional e desportivo nas escolas francesas. Nesta altura, os “estudos eram reduzidos respeitosamente para dar lugar aos jogos atléticos. Duas ou três vezes por semana, as aulas terminavam ao meio-dia; o resto do dia era livre para os exercícios do corpo. “Nós vimos o mesmo ardor, os mesmos combates à Oxford, à Cambridge” (Demogeot & Monucci, 1868, p. 21). Na perspetiva destes “inspetores” franceses, a paixão pelos jogos atléticos tem as suas vantagens e desvantagens para as escolas inglesas, referindo que “as vantagens são consideráveis”. E detalham alguns pormenores interessantes da época vivida: o jogo da bola (futebol) tinha lugar três vezes por semana a Harrow, como em muitas outras escolas, e exigia, em média, a cada aluno uma hora e meia de cada vez. O críquete, por seu turno, ocupava quinze horas por semana. A Eton, ele exigia vinte e sete. Na Winchester consagravam-se ao críquete pelo menos três horas por dia. Mas esta proporção era a mais modesta: o aluno ambicioso, numa qualquer escola, que desejava ficar em primeiro lugar na equipa de onze, praticava críquete pelo menos cinco horas por dia. O género de vida, a dieta, a comida, etc. eram modificados(as) para os futuros concorrentes, em quem repousava a glória da escola. Havia competição entre as várias escolas (Eton, Rugby, Harrow, etc.), que não hesitavam em expor os seus troféus.

 

Thomas Arnold (1755-1842), antigo aluno da Universidade de Oxford, padre da igreja anglicana, casado e pai de uma família numerosa, torna-se o responsável principal no colégio situado em Rugby, em 1828, ficando até à sua morte 1842. A cidade contava com cerca de 8 mil habitantes, em 1867. A escola foi fundada em 1567. Rugby não era, como no caso de Eton, um colégio, na medida em que ele não tinha um “estado-maior” de presidentes e de professores qualificados. Na verdade, eram os estrangeiros que governavam a casa. Rugby era um externato. Segundo os inspetores franceses, o colégio contava com 496 alunos, recrutados essencialmente na classe média superior, e que procuram uma certa gratuidade no ensino.

 

As bolsas de estudo não eram atribuídas às famílias, mas aos alunos, fazendo com que eles se sentissem responsáveis, sabendo que um dever lhes era exigido e uma punição severa era aplicada para as infrações.

 

Arnold, “homem de fé”, encontra um estado de “desagregação moral”: desrespeito pelas regras, chacota relativamente aos sentimentos honestos, influência preponderante dos maus alunos, tirania dos mais fortes, torturas afligidas aos mais fracos, etc. Neste sentido, segundo Arnold, era preciso princípios religiosos e morais, um comportamento de gentleman, e aptitudes intelectuais. Arnold empreende reformar o clima de desagregação social e de insubmissão à autoridade pedagógica dos reputados colégios ingleses. O seu método é inovador, pois em vez de impor uma disciplina aos jovens dá-lhes uma grande autonomia: a responsabilidade da criança pela liberdade e a aprendizagem da disposição do seu tempo pelo espírito e pelo corpo. Decide aumentar o tempo dado aos exercícios físicos. Coloca o desporto ao serviço da ação moral. As práticas desportivas eram, neste sentido, um meio poderoso de educação. Tinha as “classes nas suas mãos”, procurando fazer dos alunos “missionários”. Darbon (2008, p. 21) refere que tinha uma “dimensão carismática e exerceu uma influência considerável sobre os seus alunos e colegas, modelando profundamente a conceção da escola inglesa”. Se a educação era carismática, como refere Darbon (2008), ela também é acompanhada de alguma rigidez, severidade e paternalismo. Para relembrar a sua autoridade, e a dos professores do colégio, cada um recebia sobre os ombros “cinco ou seis golpes de ponteiro ou reguadas”, quando cometia uma infração ao regulamento interno. A escola parecia ter resolvido o problema de unir a disciplina com a liberdade, que recusa os soporíferos e os sedativos dos sonhos. Muitas outras escolas seguiram exemplo de Rugby. Darbon (2008, p. 32) diz que, “num contexto de competição escolar feroz entre as public schools, foram imitadas as inovações introduzidas por Arnold por outros estabelecimentos”. Sem descurar este ponto de vista, é preciso dizer também que são, de fato, os antigos alunos de Rugby que começam a dirigir outros estabelecimentos de ensino, como é o caso de Marlborough College, uma escola pública, cujo reverendo e diretor M. Bradely, era um antigo aluno de Rugby”. Outro aluno de Arnold, “C. J. Vaughan, diretor de Harrow de 1845 a 1859, tornou o futebol obrigatório” (Darbon, 2008, p. 25). Em 1883, recolhendo junto do túmulo do reverendo Arnold, Pierre de Coubertin confessa que faz uma homenagem à “pedra angular do Império britânico” (Attali, 2004, p. 22).

 

Para além dos colégios, as competições universitárias também impulsionam as práticas desportivas. Oxford, Cambridge, Harvard, Yale, Amherst e William desafiam-se em remo, râguebi e basebol, “e desenvolvem os departamentos de educação física e de desporto, dotados de uma miríade de profissionais preparados pelos programas especializados em administração do desporto” (Guttmann, 2006, p. 68). Assim, para Guttmann (2006, p. 86), o desporto moderno passa a ter “secularismo, igualdade, especialização, racionalização, burocracia, quantificação e procura de recordes”, que os distingue dos desportos primitivos, gregos, romanos e medievais.

 

Como sublinha Vigarello (2002, p. 57), “a verdadeira originalidade das práticas inglesas tem, portanto, dispositivos menos visíveis e mais profundos: a visão moral, a organização e o desenvolvimento dos encontros. O projeto é educativo”. O desporto constitui um “privilégio” e um “dever” e o “sportsman” vai identificar-se com o “gentleman”.

 

Os jogos desportivos desenvolvem-se, assim, nas public schools e juntam-se aos desportos tradicionais praticados pela aristocracia inglesa.

 

Um dos principais desportos praticados na época, pela nobreza, era a equitação e as apostas eram florescentes. O hipismo tem o seu “General stud Book containning pedigrees Races Horses”, registo dos puro-sangue, desde Guillaume III (fim do século XVII) e o Jockey Club é fundado em 1750. As corridas de cavalos tornaram-se um fenómeno cada vez mais importante. Ainda que a velocidade não fosse ainda muito acreditada, passaram a ser frequente as apostas, levando aos recordes e à procura sistemática do aperfeiçoamento dos treinos.

 

A corrida a pé (atletismo) começa a seguir o mesmo caminho que as corridas de cavalos, surgindo as primeiras competições organizadas. São profissionais ou semiprofissionais. No final do século XVIII veem-se os nobres, os burgueses e os militares a correr. A aristocracia faz correr os “footmen” como os cavalos. Outras práticas desportivas começam a ter relevo: futebol, râguebi, golfe, luta, esgrima, boxe, etc. São criadas as primeiras federações desportivas e os regulamentos. O sucesso do desporto excede muito rapidamente o registo escolar para evoluir para um fenómeno social, instaurando a competição desportiva como lazer e como eixo de construção social do indivíduo.

 

Com a revolução industrial do século XIX, o sistema institucional desporto não tardará a expandir-se a todas as classes sociais. Brohm (1976, p. 79) afirma que “a institucionalização do desporto se opera em todos os países quase em simultâneo, à medida que o modo de produção capitalista se instala e se consolida definitivamente, antes de conquistar todo o planeta”. Bouet (1968, p. 346), por seu turno, sublinha que “o desporto inglês foi assimilado progressivamente, tornando-se um fenómeno mundial, e é objeto de relações internacionais”. As competições internacionais multiplicaram-se, levando à formação de organismos federativos internacionais que contribuíram fortemente para a evolução das normas dos diferentes desportos em direção da racionalidade”. Como nota McIntosch (1963, p. 80), “a maioria dos desportos correntes e uma grande maioria dos mais populares foram exportados da Grande Bretanha”. Com efeito, o império britânico semeou pelos quatro cantos do mundo as práticas desportivas da sua aristocracia e da burguesia industrial.

 

Segundo uma estimativa de Thistlewhaite (1964), cerca de 22 milhões de pessoas emigraram a partir das ilhas britânicas entre 1815 e 1912. O seu destino foi essencialmente para os EUA. Por outro lado, os britânicos que estavam em funções noutros países não era somente uma classe dirigente. Era também uma classe de lazer. A prática dos jogos aprendidos nas public schools tinham por função distrair os expatriados, isolados no meio das populações mais ou menos hostis, mas ao mesmo tempo manter um sentimento de pertença. No processo de difusão, os missionários, os professores, os militares e os civis todos tiveram um papel importante na expansão dos desportos. “É a desportivização do mundo”, ligada, em parte, à mediatização.

 

Callède (2007, p. 347) afirma que “inventado em Inglaterra, generalizado pela Grã-Bretanha e difundido a nível internacional por esta grande potência marítima, o desporto moderno impõe-se inicialmente como um indicador sociológico pertinente, para difundir um tipo de sociedade, e como uma ferramenta social do processo de civilização”. Por fim, para Elias e Dunning (1986, p. 25), para quem “o conhecimento do desporto é a chave do conhecimento da sociedade”, existem várias condições para o aparecimento do desporto: uma etapa relativamente avançada do processo de civilização, a liberdade do controlo das emoções, o desenvolvimento da evolução das normas de comportamento cada vez mais exigentes, a homogeneização progressiva das atitudes.

 

É preciso insistir aqui sobre os vários fatores que levaram ao desenvolvimento mundial do desporto: 1) aumento do tempo livre e do lazer. A prática desportiva situa-se na parte não-trabalho que a expressão “tempo livre” coloca em valor de forma significativa. É o tempo de liberdade, onde o indivíduo, livre das suas obrigações e também dos “papéis” tradicionais que a sociedade lhe impõe, acede a uma consciência renovada da sua unidade vital; 2) a mundialização das trocas proporcionadas pelos transportes e os meios de comunicação de massa; 3) a revolução científica e técnicas; 4) o confronto entre as nações.

 

No primeiro caso, a aparição histórica do lazer permite consagrar uma parte do tempo a atividades não produtivas. O tempo de repouso é, claro, um tempo de recuperação para força de trabalho, cujos horários são extenuantes (jornadas de 10, 12 horas de trabalho). “Para a luta contra a fatiga do trabalhador industrial, o treino desportivo propõe métodos eficazes”, afirma Magnane (1964, p. 69). O desporto surge como um meio de recuperação, de distração e de cultura. No segundo caso, os transportes proporcionam a deslocação dos atletas para participar nas competições. No terceiro caso, as aplicações da ciência abriram perspetivas de treino dos campeões, mas também da ascensão ao desporto pela massa de indivíduos que podem adaptar a aprendizagem das especialidades desportivas porque os meios são mais racionais e manipuláveis. Outra consequência é a criação de novas práticas desportivas (automobilismo, motociclismo, mergulho, espeleologia, etc.). Por fim, no quarto caso, o desporto exige instituições “democráticas”, garantindo a comparação igual e livre dos indivíduos. As instituições constitucionais-democráticas permitem uma certa fluidez e mobilidade das classes sociais.

 

Com o evento do desporto moderno, o espetáculo desportivo assumiu uma importância considerável. As grandes manifestações desportivas multiplicaram-se com o aumento das competições nacionais, internacionais e olímpicas.

 

Referências:

Attali, M. (dir.) (2004). Le sport et ses valeurs. Paris : La Dispute.

Bouet, M. (1968). Signification du sport. Paris : PUF.

Brohm, J.-. (1976). Sociologie politique du sport. Paris : Jean-Pierre Delarge Editions Universitaires.

Callède, J.-P. (2007). La sociologie française et la pratique sportive (1875-2005) : essai sur le sport. Forme et raison de l’échange sportif dans les sociétés modernes. Pessac : Maison des Sciences de l’Homme d’Acquitaine.

Darbon, S. (2008). Diffusion des sports et impérialisme anglo-saxon : de l'histoire événementielle à l'anthropologie. Bordeaux : Éditions de la Maison des Sciences de l'Homme.

Demogeot, J. & Montucci, H. (1868). De l'enseignement secondaire en Angleterre et en Ecosse. Rapport pour le Ministre de l'Instruction Publique. Paris : Imprimerie Impériale.

Elias, N. & Dunning, E. (1986). Sport et civilisation. La violence maîtrisée. Paris : Fayard.

Guttmann, A. (2006). Du rituel au record : la nature des sports modernes. Paris : L'Harmattan (trad. Thierry Terret).

Laurie, A. (1883). La vie de collège en Angleterre. Paris : Hetzel.

Magnane, G. (1964). Sociologie du sport : situation du loisir sportif dans la culture contemporaine. Paris : Gallimard.

McIntosch, P. C. (1963). Sport in society. Londres: Watts.

Thistlewhaite, F. (1964). “Migrations from Europe Overseas in the Nineteenth and Twentieth Centuries”. In Herbert Moller (ed.). Population movements in Modern European History. New York: MacMillan Company, pp. 17-57.

Vigarello, G. (2002). Du jeu ancien au show sportif. La naissance d'un mythe. Paris : Seuil.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

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