As artes marciais e desportos de combate (artigo de Vítor Rosa, 31)

Espaço Universidade 30-04-2019 00:24
Por Vítor Rosa

O objetivo dos desportos de combate, sejam eles de tradição ocidental (e.g. boxe, as lutas amadoras) ou oriental (e.g. judo, aikido, karaté, taekwondo), é de colocar o Homem face a face com o seu semelhante. Na “Signification du sport” (1968), Bouet lembra que o “homem é um lobo para o homem”. Assim sendo, as regras definidas eliminam ou limitam as lesões corporais e estabelecem uma fórmula de “regulação de contas” de forma leal. Os desportos de combate são considerados como um espaço suscetível de confortar e de preservar a identidade masculina, controlando e reprimindo a expressão da violência física.

 

Aquilo que nós agrupamos com o termo “artes marciais” (desportos de combate orientais) faz referência a um conjunto complexo de práticas conhecidas depois do período Kamakura (fim do século XII) no Japão, que se repartem entre Budô (pacíficas, sem armas) e os bugei (utilizando armas), fundadas sobre o respeito do Bushidô (código de princípios morais) ou a “via dos guerreiros”. No século XX, com a ocupação americana do Japão (1945-1952), estas práticas foram proibidas. As artes marciais tinham sido transformadas no final do século XIX em práticas desportivas, isto é, codificadas, regulamentadas de forma a que fossem inofensivas para os praticantes, e algumas inscritas num quadro competitivo. Esta codificação teve a ver com a globalização/mundialização das práticas da tradição oriental para o Ocidente, ou por outras palavras, receberam influências do modelo de desporto moderno criado no Ocidente.

 

Depois da sua introdução no Ocidente, as práticas de combate asiáticas, popularizadas e depois mediatizadas, não pararam de suscitar interrogações quanto às razões do sucesso da sua implantação e difusão. Na sua origem são, antes de tudo, um fenómeno urbano, ainda que durante muito tempo sofreram de má reputação, pois foram conotadas com movimentos políticos “extremistas”. Este fato, levanta então a questão de como explicar o seu sucesso a partir dos anos 1970 na Europa? Uma parte da resposta encontramo-la em Braunstein (1999, p. 70), quando afirma que: “a criação de clubes deve-se à desestruturação familiar, sobretudo com as separações e divórcios, dando origem a um individualismo”. Os clubes criam um quadro familiar, isto é, encontram-se os amigos, os praticantes familiares (e.g. irmãos, tios, sobrinhos, etc.). O clube acaba por ser o prolongamento da família, onde se sente a franca camaradagem e a amizade. O clube é o intermediário entre a família e a pátria. De fato, o desporto foi concebido como um meio de integração e de adaptação do indivíduo. O clube é, assim, a “célula base” da organização desportiva. É a grande família. E ele se imbrica com outras instituições que estruturam o tecido social, nomeadamente a escola. Os clubes são também um campo de concorrência entre organizações “rivais”.

Também a mediatização das artes marciais e desportos de combate (AM&DC) através da difusão de filmes, colocando em cena personagens históricas, terá contribuído (e.g. Bruce Lee, Chuck Norris, Steven Seagel, Jean-Claude Van Damme, etc.). Podemos dizer que os meios de comunicação social contribuíram amplamente para muitos praticantes fazerem uma viagem real entre os dois imaginários (Oriente e Ocidente). A influência das técnicas de combate asiáticas é tão grande que basta constatar que elas substituíram alguns dos métodos de combate nacionais das forças de segurança.

 

Não estamos de acordo com Ordioni (2002, p. 33) quando afirma que as AM&DC marciais não tiveram sucesso no início do século devido ao “código da força ser dominante”. O que nos parece é que elas não tiveram sucesso no início do século pela simples razão de serem praticamente desconhecidas da maioria dos ocidentais. A sua proibição pelos americanos durante a ocupação do Japão, de 1945-1952 terá criado obstáculos à sua difusão. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945), na Europa, com a maioria dos homens na frente de combate, também não poderia proporcionar o “tempo livre” para uma divulgação e aprendizagem das artes marciais.

 

No caso de Portugal, algumas das AM&DC foram, igualmente, proibidas(os) e controladas pelo Estado, através da Comissão Diretiva de Artes Marciais (CDAM) (1972-1980), pertencente ao Ministério da Defesa. Só a partir de 1950 é que os primeiros praticantes ocidentais dão a conhecer as modalidades, assistindo-se à criação de vários clubes, e à chegada dos primeiros mestres japoneses para a Europa para ensinar e divulgar as suas disciplinas de combate, e também, à divulgação dos primeiros filmes com os combates coreografados (Bruce Lee, por exemplo), assim como foram divulgados os primeiros livros sobre o assunto.

 

A essência das AM&DC é ambígua. Exigem muita disciplina pessoal, um respeito autêntico e contínuo pelo outro (adversário), mas onde os antigos (veteranos) têm estratégias de conservação de “poder”, tendo por objetivo tirar proveito de um capital progressivo acumulado. Os mais novos (os novos aderentes) assumem estratégias de submissão orientadas para a acumulação de um capital específico. Bourdieu (2000, p. 200) resume bem a questão na sua teoria de campo quando afirma que: “a luta permanente no interior do campo é o motor do campo”. E “aqueles que lutam pela dominação fazem com que o campo se transforme, que ele se reestruture constantemente”.

 

A ligação forte às AM&DC mergulha as suas raízes no passado da humanidade e de desporto radical, levando a uma situação vital. Enquanto os outros desportos exigem espaços, material ou mobilizam uma equipa numerosa, os desportos de combate e as artes marciais contentam-se com a proximidade imediata dos dois adversários. Os dois reunidos e unidos na sua oposição constituem uma situação total, não interferindo outros elementos de forma determinante. O espaço é definido como um local de interação, com os limites dados pelos tapetes (tatamis) ou o ringue.

 

As AM&DC são de contacto físico. Não é apenas verdade para o boxe ou para a luta, pois o toque na esgrima é, de fato, um contato; e sabe-se que os golpes do sabre podem ser rudes. Bouet (1968, pp. 96-97) refere a este propósito que “a troca de golpes, a mútua aceitação provoca uma espécie de fraternidade viril e anula as suscetibilidades”, e que a “proximidade-promiscuidade dos corpos levam a um alerta das faculdades de atenção e de inteligência”. Os combatentes observam-se, procuram os pontos fracos, julgam-se, antecipam as suas ações e reações respetivas, organizam uma tática, e em certos momentos inventam, segundo uma verdadeira inspiração com paradas e ripostas com a prontidão do espírito. Como sublinha este autor, nos desportos de combate a personalidade é predominante.

 

Caraterizadas por elementos tradicionais e modernos, repetitivos e inovadores, a adaptação dos desportos de combate e das artes marciais tem-se vindo a fazer aos poucos, ainda que seja visível uma reviravolta desportiva nas últimas décadas, marcada pelo predomínio da competição.

 

 

Referências:

 

Bouet, M. (1968). Signification du sport. Paris : PUF.

Bourdieu, P. (2002). Questions de sociologie : Paris : Les Editions de Minuit.

Braunstein, F. (1999). Penser les arts martiaux. Paris : PUF.

Ordioni, N. (2002). Sport et société. Paris : Ellipeses.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

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