Evocação do 25 de abril (artigo de José Neto, 86)

Espaço Universidade 21:28
Por José Neto

De Abril das causas e dos sonhos, dos princípios reivindicados em uníssono canto, foram esmorecendo os sobressaltos interpretados por anseios e inquietações, numa esperança curvada pelo desespero de olhar e pouco encontrar.
 

De Abril das causas pela liberdade do pensamento crítico, ajustado às premissas da compreensão e respeitabilidade, vão sobrando tantas vezes os laivos de alienação, manipulação e descrédito.
 

De Abril rasgado na história do meu País com ar fresco e paisagem limpa em que a harmonia das ideias conquistadas abrilhantaram o arco íris da esperança, desaguaram águas turvas poluídas por alguma gentalha instalada no púlpito do poder.
 

Quem os ouve, quais paladinos dos templos sagrados, tecendo loas aos demais, “palrando” ardilosamente para desviar para si e para quem os acolhe, os poucos direitos dos humilhados, alienando os princípios da ética e da estética.
 

Os atores do mercado político sobem assim ao palco do poder e mentem de forma descarada, fundamentalmente quando se lhes afiguram a possibilidade de salvaguardar lugar na “manjedoura”.
 

Quando se recomendava contenção nas palavras e prudência nas acções, usam como receituário pessoal os exemplos da displicência, fazendo a apologia duma miserável abundância.
 

Proclamam a elevação e a seriedade no trato, mas fazem o uso da leviandade.

Dizem-se senhores da honradez, mas servem-se da hipocrisia e da mentira.

Antigamente chamava-se mentiroso a um indivíduo que faltava à verdade. Agora o contexto da palavra é muito mais flexível, tornando-se mais próximo da distractibilidade que a indiferença polui e conserva. Por isso as qualidades da honradez, integridade e respeitabilidade esvaem-se por entre uma tão rude tibieza de quem tem que os aturar.

Da aquisição do conhecimento através do esforço, disciplina e estudo permanente, sobrou-lhes a necessidade por um saber acumulado e quantificado que as célebres estatísticas recomendam. Em vez de humanistas, gente grande e inteira, passamos a ter profissionais técnicos operacionais, mas preguiçosos no pensamento, idiotas avessos à interrogação, dum saber sustentado pela dúvida permanente, atrelados a uma ligeireza de consciência …sem alma e sem razão.
 

Enfim, perante o meu País, por vezes exausto, deprimido, anestesiado e dormente, eu quero exortar Abril e quem lhe soube acudir o desejo de conquista duma sociedade mais justa, solidária e democrática, assente nos pilares do respeito, na persistência duma luta firme para a dignidade da pessoa e para a civilidade do cidadão.

À medida que a idade avança vamos lendo o tempo e as suas circunstâncias à distância dum pôr do sol.
 

Valorizamos os factos, revisitamo-nos apegados ao sabor do seu paladar, caiamos a história com palavras de saudade e as ideias com a generosidade dum sentimento imortal. Tornamo-nos conservadores e muitas vezes ciosos do passado, não por resistência ao valor da mudança, mas pela exposição dum saber que a prática da vida sustenta e exorta.
 

À medida do tempo só começamos a avaliar devidamente uma coisa a partir do momento em que estamos próximo de a perder.
 

Por vezes as coisas não têm sido nada, mesmo nada fáceis para quem tanto espera por uma vida vivida com mais dignidade. Mas a experiência também nos tem dito que somos capazes do melhor quando as coisas se tornam previamente mais difíceis. Pelo contrário, e os exemplos atestam-nos, também somos capazes do pior quando as coisas se apresentam previamente mais acessíveis.
 

Assim como os grandes escândalos que o quotidiano nos revela, transformando-nos em terceiro mundistas, os êxitos fazem-nos crer que somos tão bons como os melhores!... os mais pobres dos ricos e os mais ricos dos pobres.
 

Umas vezes magnânimos nos sentimentos e no combate em prole dum atendimento colectivo!... Outras vezes agressivos, loucos no trato nas palavras e nas ideias, pré históricos nas ameaças que espreitam o conflito e muitas vezes até dele nos alimentamos.
 

Mas por isso mesmo, este é o momento ideal de darmos as mãos, reforçando os laços que nos unem à volta da conquista dos valores para a conquista do futuro.
 

Dizia Horácio que “ a adversidade tem o efeito de fazer despertar talentos que em circunstâncias próprias teriam ficado adormecidos”. Está na hora de mostrar a nossa identidade, colocar a paixão, o entusiasmo, a emoção nos trajectos para a mudança, exercitando a disciplina, cultivando a imaginação, a alegria e o optimismo, reinventando o presente, praticando o que nos dignifica e engrandece.
 

 Lutemos pelos ideais que nos orientam, apurando as dúvidas que nos inquietam, as perplexidades que nos incomodam, mas de forma justa e em que as palavras não façam corar quem as escuta!
 

 Saibamos conter o elogio, mobilizemos a nossa atenção para a força mobilizadora de aproximação entre os homens que lutam para avivar os sonhos da esperança – Assim todos estaremos a evocar Abril!...
 

Nota final … no dia 25 de Abril de 1974 estava a cumprir a fase final do meu tempo de militar voluntário na Força Aérea. Nesse dia estava convocado para um exame de admissão para um emprego no Banco Pinto e Sotto Mayor … era quase certo a inserção. É evidente que não se realizou tal expectativa inicial e ainda bem, pois rumei à universidade de Coimbra, transitando uns tempos após para o 1º Curso Superior de Educação Física da Universidade do Porto (1976/81).

Com Abril …perdeu-se um bancário … um advogado (ou outra área do Direito)…mas ganhei-me Professor … esta forma de andar por aqui, misturado de sorrisos e abraços e vontade de conquistar o sonho do tamanho do mundo e daqueles que me vão sendo confiados …uma forma de transformar a vida numa vontade eterna de a viver com paixão e amor!... VIVA O 25 DE ABRIL!...

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário.

 

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