O Homem-Máquina (artigo de Manuel Sérgio, 288)

Espaço Universidade 14-04-2019 14:59
Por Manuel Sérgio

 Um antigo aluno meu, que trabalha na Câmara Municipal de Lisboa, disse-me, há poucos dias, na Biblioteca Municipal D. Dinis, em Odivelas, antes de uma charla por mim proferida nesta Biblioteca: “Professor,  as suas aulas eram mais filosofia do que desporto e nós, alunos, não o compreendíamos. Francamente, só hoje o compreendo”. Isolado, já velho, entre as flores secas das minhas recordações; rodeado do bafio glorioso de alguns livros que ainda me acompanham – relembro as minhas aulas, no ensino público e no ensino privado, em Portugal e no estrangeiro. De facto, o que poderiam interessar o Fédon, de Platão, ou a História da Sexualidade e o Nascimento da Clínica e o Vigiar e Punir, de Michel Foucault, ou as Cinco Lições sobre Psicanálise de S. Freud, para alunos que viviam a prática desportiva, como o propugna a “sociedade de consumo”, tão certeiramente descrita por Baudrillard? E o racionalismo de Descartes e Leibniz, o Leibniz que chegou a escrever: “tudo o que se faz com o corpo do homem é tão mecânico como o que se faz com um relógio”? E o monismo de Espinoza, tão diferente do dualismo de Descartes e, por isso, tão próximo da “matéria que destila espírito” de Teilhard de Chardin? E aquela frase de Claude Bruaire: “o corpo é compreendido, como Deus é concebido”? E uma outra frase (esta da minha autoria): “o desporto atual reproduz e multiplica  as taras da sociedade capitalista”? Sim, acredito que para pouco ou nada lhes servissem umas páginas avulsas da História da Filosofia. Mas a verdade é que, sem Filosofia, não entenderemos nunca a História do Corpo, nem a História do Desporto e da Educação Física e da nascitura Ciência da Motricidade Humana. No caso do “homem-máquina”, a expressão foi criada pelo Dr. Julien Offray de la Mettrie (1709-1751). Era francês, nascido na Bretanha e, a partir de 1725, licenciou-se em Filosofia, depois em Ciências Naturais e, por fim, em Medicina que lhe proporcionou “o pão de cada dia”. A Medicina, durante o século XVIII e antes da Revolução Francesa, imobilizara-se numa lamentável mediocridade, que podemos visionar nas teses aprovadas pela Faculdade de Medicina de Paris. Vejamos os temas de algumas delas: “A mulher é mais lasciva do que o homem?” e “As moças bonitas são mais férteis do que as outras?” e “A mulher pode transformar-se em homem?” e “Pode diagnosticar-se o amor, tomando o pulso do doente?” e  “Pode a devassidão engendrar a calvície?”…

 

 A medicina francesa do tempo de La Mettrie é bem ridicularizada, nas peças de Molière. De facto, nela, não penetrara ainda  o espírito moderno de John Locke, de Condillac e de Helvetius , o que provocou em La Mettrie funda estranheza e hostilidade. Por isso, em 1733, após o seu doutoramento correu a encontrar-se com o que de melhor havia, na medicina europeia. Em 1746, publicou um panfleto incendiário, A política do médico, em que levantava dolorosas interrogações à competência profissional da grande maioria dos seus colegas. Antes da obra, que mais fama lhe grangeou, O homem-máquina, ainda publicou uma comédia, A faculdade vingada, onde zurziu sem piedade tanto médico charlatão e tanto cirurgião açougueiro, que proliferavam no  seu País. Entretanto, em 1748, com O homem-máquina, adiantou sem receio que os homens, como os animais, eram máquinas, máquinas tão-só, se bem que mais engenhosas do que os animais. E portanto sem nenhuma substância espiritual a informá-las. Ainda em 1748, e sem muitos motivos para festejar a publicação de O homem-máquina, que provocou nos meios protestantes e católicos a mais frontal rejeição, deu à estampa O homem mais que máquina onde mais radicalizou as suas teses mecanicistas e materialistas e as normas da sua moral laicizada, o que lhe mereceu, naturalmente, o franco aplauso de alguns e a mais ousada repulsa de quase todos. Porém, embora as tempestades adversas, que lampejavam em sátiras e sarcasmos e ameaças, o rei da Prússia, Frederico, fez dele o seu médico privativo e nomeou-o, num ímpeto retórico em que o apresentou como “vítima dos padres”, membro efetivo da Academia de Ciências de Berlim. Todavia, o seu exílio dourado na Prússia não durou tempo demasiado, ao mandar imprimir, fremente de paixão, mais um panfleto, Discurso sobre a felicidade, com uma linguagem que ofendia os mais elementares preceitos da moral civilizada. E assim, tanto na Prússia, como em França, o consideraram um louco (os próprios iluministas assim o começaram a tratar). E, em Novembro de 1751, durante a digestão de um opíparo almoço, faleceu.

 

 “A tese da continuidade entre o homem e o mundo animal está sendo cabalmente confirmada pela moderna biologia. As semelhanças genéticas são extraordinárias. O genoma da mosca drosófila tem cerca de 15000 genes, ao passo que o genoma humano só tem o dobro de genes. O genoma dos primatas superiores é semelhante ao humano em mais de 90%. Não se comprovou ainda a tese de La Mettrie de que os papagaios podem manter com seres humanos uma conversa racional, mas comprovou-se que a comunicação é possível com gorilas que aprenderam a linguagem dos surdos-mudos (…). La Mettrie teria visto, em todas essas conquistas da ciência moderna simples confirmações de suas teorias sobre o “continuum” existente entre animais e plantas e entre o animal-máquina de Descartes e o seu homem-máquina” (Sérgio Paulo Rouanet, in AA.VV. O Homem-Máquina, Companhia das Letras, S. Paulo, 2005, pp. 55/56). No meu pensar, confirma-se, de facto, no processo universal da evolução, a passagem do mundo animal ao mundo humano, mas nem tudo, no ser humano, parece regido por leis físicas e mecânicas. No que há motricidade humana diz respeito, não julgo que possa adiantar-se, sem mais, que a alma imaterial não representa um “salto qualitativo”, em relação ao puramente material, ou mesmo à biologia. Quando se define a motricidade humana como “o movimento intencional e solidário da transcendência”, quer dizer-se também que, no ser humano, nem tudo pode estudar-se, abeirando-nos unicamente da razão, pois que os sentimentos, as emoções, a fantasia não podem reduzir-se ao cartesiano esprit de géometrie. Quando o João Félix, um jovem futebolista do S.L.Benfica, no jogo com o Eintracht Frankfurt, para a Liga Europa, conseguiu um “hat trick” e  desatou num copioso choro – ele emocionou-se e emocionou os muitos que o viram, tanto no Estádio da Luz como pela Televisão. E, nesse momento, não lhes minguaram os recursos da razão, nem a ele, nem aos espectadores. Mas a emoção diz mais, em menos tempo…

                O Eintracht não conhecia o travo da derrota, há 15 jogos consecutivos e situa-se, em lugar de relevo, na Bundesliga: o quarto lugar! Mas o génio de um rapaz de 19 anos, fraternalmente acompanhado pelos seus colegas de equipa, embaraçou, dobrou o colosso alemão. Descrito o jogo, com acerto e pormenor, a Imprensa dos “quatro cantos do mundo” deixou seduzir-se pela “classe” do João Félix: porque fez o que o sentido previsor dos especialistas esperava? Não, fez o inesperado, o inopinado, o imprevisto. Como os génios fazem! O treino permitiu-lhe a força, a velocidade a certeza do remate. Mas o génio transforma o Homem-Máquina em Artista. Não há corpo, sem alma. Tendo a neurologia, como sólido alicerce,  é possível descobrir no cérebro uma localização muito precisa, para grande parte dos nossos movimentos. Se se estimular um determinado grupo de células cerebrais, é certo que o paciente pronunciará algumas palavras, ou executará alguns movimentos. E assim poderá afirmar-se, sem quaisquer dúvidas, que a alma é o corpo, quando regido por leis determinadas? Eu posso responder com o que aprendi, em Henri Bergson, nos livros da autoria do insigne filósofo, mormente Matière et Mémoire (editado pela PUF, Paris) e A Evolução Criadora (editado pelas Edições 70, Lisboa): não há alma, sem corpo, no entanto a alma não é corpo tão-só; por isso, na genialidade, há mais do que movimento como realidade física e mecânica. Há um excesso de ser, na alma, em relação ao corpo. Não é tanto por ser matéria e máquina que o homem é génio, mas porque transcende a matéria e a máquina e se faz espírito também.                         

                      

     

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