O que é o desporto? (artigo de Vítor Rosa, 4)

Espaço Universidade 07-02-2019 22:35
Por Vítor Rosa

Falamos muito sobre desporto. Tornou-se uma palavra mágica, em todos os domínios. É o remédio universal. A paz encontra-se em perigo? Invoca-se o desporto para ajudar e proclama-se os Jogos Olímpicos (JO) para resolver a paz universal, ocultando a rivalidade das nações. A integração social não funciona? Recorre-se ao desporto. A obesidade é uma obsessão de saúde pública? Eis que surge a palavra desporto. Os laços sociais estão em crise? Apela-se ao desporto para criar o cimento entre os indivíduos. Uma litania faz-se ouvir: desporto, desporto, desporto!

 

No entanto, se nós perguntarmos: o que é o desporto? O que é ser desportivo?, entendemos palavras confusas. A resposta não é fácil, e, no entanto, ele é objeto de uma organização administrativa notável à escala local, nacional e internacional, responsável pela sua promoção e o seu desenvolvimento. O conjunto é gerido por ministérios específicos, dotados de meios (variáveis) e regulamentado por imponentes textos legislativos. Os candidatos a professores de educação física hesitam na sua definição. Eles veem que o desporto é principalmente uma atividade do corpo, mas não é somente isso. Para além do gesto e da técnica, toda a prática desportiva comporta uma tática. Todavia, o gesto pode ser reduzido ao mínimo como no xadrez, onde se limita a mexer as peças de uma casa para outra.

 

Basta consultar alguns livros sobre sociologia do desporto para se constatar que existem imensas definições de desporto. Na aceção atual do termo, dois elementos são importantes: i) o caráter público e, muitas vezes, coletivo das manifestações desportivas; ii) a noção de proeza física mensurável e, neste sentido, suscetível de dar lugar a confrontações de resultados e a recordes.

 

Não sendo progressista nem regressista, o desporto é a perpétua criação dos homens e das mulheres que o praticam e organizam. Por seu turno, esses homens e mulheres são transformados por essa criação. Como fato social, ele exerce uma influência muito importante na vida dos cidadãos. É um fenómeno cultural de ambição mundial, que “atenua” as pluralidades culturais para as transferir para valores internacionalmente reconhecidos. Ele é consumidor de tempo e produtor de imagens.

 

Para que haja desporto, é necessário que o lazer tenha um lugar na existência e nos valores sociais dos indivíduos. Foi o que se verificou na história do crescimento e do declínio do desporto na Antiguidade e no mundo contemporâneo.

 

Remontando um pouco ao passado, sabe-se que a civilização helénica assentava sobre a distinção de uma classe de homens livres e de uma classe de escravos. Os homens livres beneficiavam de uma liberdade formal, puramente política. Os escravos exploravam o solo ou faziam os trabalhos artesanais. Só os homens livres, de língua materna grega, não condenados por crimes e não tendo cometido nenhum perjúrio ou traição, tinham o direito de entrar em competição nos JO, que duraram doze séculos. Os escravos, que poderiam se tornar treinadores, tinham um segundo plano. Os concorrentes (atenienses, espartanos, siracusanos, etc.) sentiam-se gregos. As mulheres casadas, como as escravas, não podiam participar nos jogos masculinos nem serem espetadoras (segundo alguns autores, haveria os Jogos de Hera para as mulheres helénicas, mas eram realizados num momento diferente para elas). As entradas no recinto sagrado (Olímpio), durante os jogos de Zeus (deus grego, o deus dos deuses), eram proibidas sob pena de morte. O desporto na Grécia, que não é apenas o símbolo da cultura grega antiga, mas a sua coluna vertebral, foi submetido às contingências da história e da natureza. A maior parte das estátuas antigas surgem vestidas. O ginásio vem da palavra grega gumnos, que quer dizer nu, sem roupa. Note-se que o culto do corpo no esforço desportivo, como o erótico do nu, está em completa unidade e harmonia com a religião, a arte, a filosofia e a espiritualidade da civilização grega. Contrariamente aos Gregos, Roma não conheceu os desportos. As suas diversas disciplinas atléticas levam a passar, sem transição, da disciplina militar aos jogos de circo. Este povo de conquistadores não tinha nenhum gosto pela luta desinteressada. O catolicismo, inimigo da expressividade do corpo, matou o desporto.

 

A Idade Média, onde se travou um grande número de batalhas pela causa religiosa, conheceu um espírito desportivo, sobretudo o dos torneios, com uma intensidade e uma “frescura” superior ao da Antiguidade Grega. O espírito do Renascimento levou à derrocada do desporto da Idade Média. Se os cavaleiros e os escudeiros, de espadas e lanças nas mãos, eram desportivos, o humanismo não o foi. Outros usos e costumes. A elite intelectual, depois a Corte, depois o povo, perderam o gosto pelos exercícios físicos. A aristocracia entusiasma-se por um desporto funesto: o duelo importado de Itália.

 

É num contexto social bem diferente do que teve lugar, primeiro em Itália, nos Estados do Papa desde o século XV, e depois em toda a Europa, que a tímida tentativa de restauração desportiva encontrou os seus ardentes “advogados”. Em meados do século XIX, o reverendo Thomas Arnold (1795-1842), principalmente no colégio de Rugby, retomou a obra abandonada. Sendo o principal “chefe de fila”, teve o apoio dos seus alunos e “missionários”. Em Inglaterra, primeiro nas “publics schools”, depois nas “grammar schools” e, por fim, nas “high schools”, o desporto surge como um elemento central na educação geral. Ao mesmo tempo, as sociedades de ginástica formam-se na Alemanha, sob o impulso de Friedrich Ludwig Jahn (1778-1852), na Suécia com o apelo a Pehr Henrik Ling (1776-1839), em França pelo trabalho do espanhol Francisco Amorós (1770-1848).

 

Em 1896, em Atenas, sob a iniciativa do barão Pierre de Coubertin (1863-1937), inspirado pelo exemplo da Grécia, os atletas de diversos países restauraram as Olimpíadas. Os exercícios físicos são recomendáveis, o gosto da luta desportiva é bom em si mesmo porque desenvolve certas qualidades úteis na vida moderna: força, saúde, sangue-frio, coragem, amor pela concorrência e de iniciativa. Os JO constituiriam um oásis de fraternidade cavalheiresca, uma sociedade desportiva das nações. A rivalidade desportiva, mais viva e visível do que a rivalidade industrial, é menos feroz do que ela. Não se contam vidas, nem misérias numa guerra de preços. Na luta desportiva também se morre, certo, mas por acidente. É preciso mostrar o quanto somos numerosos, fortes e decididos.

 

Os desportos começam a surgir como uma instituição maior do nosso tempo. Aldous Huxley, escritor britânico conhecido pelo seu célebre romance “O Melhor dos Mundos”, enuncia mesmo que o desporto é uma das maiores descobertas dos tempos modernos e que reflete as estruturas da sociedade. A prática desportiva passa a ser um direito do indivíduo.

 

O desporto é um fenómeno social que impregna profundamente a vida quotidiana dos homens e das mulheres do século XXI. Divertimento aristocrático na origem, a prática desportiva conheceu, desde o século XIX, um crescimento prodigioso e continua a ser um dos fenómenos sociais mais marcantes da nossa época, dando, assim, razão a Huxley. A sua prática democratizou-se amplamente e envolve quase todos os indivíduos. Simultaneamente, o seu carácter internacional não cessa de se afirmar com maior força. É um fim em si mesmo. “A criança brinca por brincar: o homem também, quando ele pode” (Georges Magnane, Sociologie du sport, 1964, p. 80).

 

Na sua obra Pédagogie sportive (1922), o barão Pierre de Coubertin reivindicava o lugar dos desportos nos programas de educação e pressentia claramente o papel considerável que seria chamado a desempenhar numa sociedade em transformação pela civilização industrial. Deseja-se, cada vez mais, um “homo sportivus” em detrimento de um “homo economicus” ou “homo capitalisticus”.

 

Se o desporto continua a ser para muitos uma distração, às mãos de um grande número de indivíduos, ele é também, atualmente, uma atividade de compensação indispensável a um Homem maltratado pelos múltiplos constrangimentos da vida moderna. Ele é um espetáculo popular com dimensões grandiosas. É a alegria da “alma” na ação. Ele é, sobretudo, um meio de educação, um precioso fator de desenvolvimento pessoal da personalidade e um meio de promoção humana.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

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