Quem “matou” a mudança? Suspeito nº 8 – A Relação com o Líder (artigo de João Oliveira)

Espaço Universidade 26-11-2018 11:08
Por João Oliveira

Tudo estava calmo e tranquilo, o Detetive Colombo caminhava junto à margem do rio, até que toca o telemóvel com aquele som estridente – de forma a nunca perder qualquer chamada. Olha para o visor e vê o nome Robert Jones e de imediato atende. “Olá Colombo, necessito falar contigo, tenho um problema com os meus filhos e necessito da tua ajuda” e sem deixar o Detetive Colombo responder, continuou – “podes almoçar comigo hoje?”. “O que te preocupa e é tão urgente?” – perguntou o Detetive. “Colombo é urgente, pode ser?” – devolveu o seu amigo Robert. Num flash de menos de um segundo, passaram-lhe pela cabeça todas aquelas imagens em que se conheceram, durante a recruta em Infantaria, se apoiaram e começou a sentir alguma apreensão, com a urgência, com o tom de voz do seu amigo e com a companhia da voz interior que lhe dizia - tens que responder sim - e de imediato disse – “sim, claro, onde e a que horas?”; “ao meio-dia na Taberna” – devolveu o amigo.

 

Depois de desligarem, o Detetive Colombo ficou algo inquieto e questionava-se – “o que é que está a preocupar o Robert, é urgente e tem a ver com os filhos?” Ao chegar ao Taberna, verificou que o amigo já o esperava, o que achou estranho, pois era muito boa pessoa, mas chegava sempre atrasado a tudo o que combinavam e se o amigo já lá estava, é porque era mesmo importante. Por isso, o Detetive Colombo ficou ainda mais preocupado. Enquanto se aproximava do seu amigo, que ao contrário do habitual, não o estava a receber efusivamente, observou um olhar e rosto fechado e, depois de se saudarem, o Detetive Colombo tirou a sua famosa gabardine e perguntou – “o que se passa, que te preocupa e é urgente?”. “São os meus filhos” – respondeu o amigo Robert. “O que se passa? Está tudo bem com o Julian e com o Henry?” – perguntou com um ar angustiado o amigo Colombo.

 

O Julian e o Henry eram dois adolescentes, gémeos verdadeiros, aparentemente semelhantes em tudo. Ambos altos, morenos, bem constituídos e até tinham um sinal igual na cara. Adoravam futebol e ambos jogavam no F.C. Galácticos. Nada os distinguia, a não ser o comportamento.

“Colombo, como sabes não sou de incomodar ninguém com os meus problemas, mas a situação está a provocar um desconforto enorme, não estou a conseguir resolvê-la e necessito de ajuda. Estás disponível e queres ajudar-me?” – perguntou o amigo Robert. “Claro que sim. O que se passa Robert?” – perguntou o Detetive Colombo, até que são interrompidos pelo garçom – “boa tarde, sejam bem-vindos ao Taberna, aqui estão as ementas. Há alguma coisa que possa trazer de imediato, enquanto escolhem?”. Esta interrupção e pausa pareciam ter demorado uma eternidade. “Obrigado, respondeu o Detetive. Por favor, traga uma água enquanto escolhemos” – disse o Detetive Colombo.

“O Julian e o Henry estão a preocupar-me.” – começou por dizer o amigo Robert – “O Henry faz tudo o que o treinador lhe pede, segue à letra as suas solicitações, não dá um passo sem o aval do treinador, enquanto o Julian parece o negativo do Henry, pois está sempre contra todas as indicações do treinador, não o ouve, faz tudo à sua maneira. Estou irritadíssimo com o que está a acontecer com ambos e não sei qual é a alternativa”.

 

“Qual é a imagem que te aparece, quando pensas em cada uma das situações?” – indagou o amigo Colombo. “A de uma pessoa que necessita de ajuda para tudo, no caso do Henry, como se estivesse dependente do treinador para tudo e a de uma outra pessoa que recusa qualquer ajuda dos outros, no caso do Julian, como se estivesse contra qualquer dependência do treinador” – devolveu o amigo Robert. “O que é importante para ti Robert?” – perguntou o amigo Colombo. “É importante que os meus filhos respeitem e escutem os outros, que se respeitem a si próprios e sejam autónomos” – respondeu o amigo Robert, que perante o olhar do amigo Colombo continuou – “como sabes ambos treinam há muitos anos, ambos adoram jogar, mas o Henry parece que não confia nas suas enormes capacidades, quase que as nega, até receia as consequências de confiar nelas e portanto não arrisca, não toma a iniciativa, induz a ajuda das outras pessoas, nomeadamente do treinador e para mim é importante que eles aprendam a fazer algo, a lutar por aquilo que desejam, não fiquem sempre dependentes, à espera que os outros os ajudem. Por outro lado, o Julian manifesta uma confiança do tamanho do mundo nas suas capacidades, receia as consequências de não confiar nelas, desconfia da capacidade dos outros, inclusive de colegas e do treinador, assume que tem capacidades e toma a iniciativa, mas não escuta nem aceita qualquer ajuda dos outros, quando muito e curiosamente, está sempre pronto para ajudar os outros”.

 

“Como é que o treinador reage a tudo isso?” – perguntou o amigo Colombo. “A reação é extremamente paradoxal e acaba por ser confusa” – devolvia o amigo Robert, enquanto o amigo Colombo exclamava – “paradoxal e confusa!”. “Sim, o treinador no início tem uma excelente relação com o Henry, dado que ele segue todas as suas indicações, contudo e com o tempo, quando chegam os jogos importantes e o treinador precisa que o Henry vá à luta e arrisque, não é isso que acontece, porque o Henry está à espera que seja o treinador a resolver o problema. Ou seja, ambos estão à espera que o outro resolva, mas dada a relação de dependência alimentada, o Henry não toma a iniciativa, os resultados não são os esperados pelo treinador e ele começa a irritar-se com o Henry, por ele se ter tornado no que o treinador alimentou” – disse o amigo Robert, enquanto com extrema curiosidade o amigo Colombo perguntava – “e quanto ao Julian, o que se passa de paradoxal?”.

 

“O Julian irrita o treinador desde o início da época, os problemas, as repreensões, os castigos, o ficar fora da convocatória, as ameaças de abandono, a rebeldia e revolta, (…), são constantes, o que é desgastante para todos: ele, treinador e nós pais. Entretanto, quando chegam os momentos decisivos, os jogos a “doer”, que marcam as épocas, o Julian tenta, arrisca, faz algo para as coisas acontecerem e umas vezes correm mal e outras vezes correm bem. Quando correm bem, acabam por ser os “Julians” os jogadores que ajudam a ganhar os jogos a “doer”, mas de uma forma individualista, e, paradoxalmente, acabam por receber os elogios dos treinadores. Ou seja, é elogiado por se ter recusado a tornar no que o treinador inicialmente desejava” – devolveu o amigo Robert.

 

“Ou seja, os jogadores que dependem os treinadores, recebem a sua aceitação no imediato, não confiam nas suas capacidades, não as desenvolvem, não ajudam as equipas a vencer e, a longo-prazo, colhem o desinteresse dos treinadores. Isso irrita-te, porque acreditas que a autonomia, a liberdade, a iniciativa e o direito à diferença são importantes; enquanto, os jogadores que se revelam contra a dependência dos treinadores, obtêm a sua reprovação imediata, mas e por confiarem nas suas capacidades, continuam a tentar, desenvolvem as suas capacidades e confiança e, por vezes, acabam por ajudar as equipas a vencer. Consequentemente, a longo-prazo, recebem o interesse dos treinadores e isso irrita-te porque o respeito pelos outros, a congruência de comportamentos e a justiça são coisas importantes para ti. O teu desejo é que ambos desenvolvam e confiem nas suas capacidades, mas que também confiem nas capacidades dos outros, que ambos respeitem os outros e que ambos se respeitem a si próprios, ou seja que ambos sejam capazes de criar relações de interdependência com treinador hoje e com os líderes amanhã, quando forem trabalhar” – tentava resumir o amigo Colombo. “Correto, entendeste-me na perfeição e, já agora e pior, este problema não afeta só dos meus filhos. Pelo que percebo esta situação é comum às diferentes equipas do Clube” – comentou o amigo Robert.

 

Enquanto ouvia a aprovação do amigo Robert, o Detetive Colombo associou esta situação a: dois colegas de trabalho, um sempre dependente do chefe, a tentar agradá-lo, mas que não toma a iniciativa e um outro que está sempre a fazer tudo à sua maneira, “sofre” as explosões do chefe e que geram problemas idênticos aos descritos, com emoção, pelo amigo Robert; dois primos e da relação que mantinham com Pai deles, que tanto tentavam agradar-lhe que acabaram por se tornarem no que o Pai não desejava, pessoas reativas; alguns treinadores que queriam muito ganhar, para isso necessitavam de jogadores proativos, mas fruto do tipo de relação que semearam com eles, acabavam por colher exatamente o oposto; de outros treinadores que tentam estimular a autonomia e iniciativa, dizendo menos e estruturando mais, e que alguns dirigentes e pais confundem com falta de apoio, quando apenas desejam que os seus Atletas e Filhos façam por serem o que desejam ser.

Para além disso e dado que continuava a trabalhar na investigação do crime - quem tinha “matado” a mudança no F.C. os Galácticos - o Detetive Colombo pegou no seu bloco de notas e escreveu:

 

1.       “A relação com os líderes, de dependência ou de contra dependência, é mais um dos suspeitos de estar a “matar” a mudança nos Galácticos;

2.       Tenho de falar com o Presidente Angie, se quer que a mudança aconteça, então é importante substituir as relações de dependência e contra dependência por relações de interdependência, no seu Clube”.

 

Entretanto, o jovem garçom regressa à mesa e pergunta: “já escolheram …” Enquanto o amigo Robert pegava na ementa pela 1ª vez, para escolher, o Detetive Colombo pensava – que tipo de relação os pais querem estabelecer com os filhos, os professores com os alunos, os treinadores com os jogadores e os líderes com os colaboradores?

 

João Oliveira é Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia – ISMAI e formador em Desenvolver Equipas Eficazes, Motivação e Gestão do Pensamento em Contexto Profissional, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.

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