Eu, professor me confesso - Parte 7 (artigo de José Neto, 75)

Espaço Universidade 25-11-2018 17:48
Por José Neto

Na sequência da minha intervenção profissional que ao longo dos temas tenho vindo a publicar, houve um facto que teria de justificar perante a boa gente da minha terra.

Logo após a revolução de Abril de 1974, várias foram as circunstâncias que me motivaram a aprender, partilhar e envolver na arte de cultivar os valores da democracia. Nesse sentido, não obstante os vários convites de líderes locais e distritais que se me dirigiram para tomar conhecimento das linhas programáticas dos partidos defendidos e, claro, com o objetivo de receberem a minha inscrição, ou por dificuldade de agendamento de datas para as reuniões que pela noite dentro se prolongavam até altas madrugadas, ou por não estar de acordo com as ideias que mais me motivavam, o certo é que uma noite lá me dirigi a um local onde pontuavam alguns amigos, pessoas de confiança e duma exemplar qualidade humana, por respeito dos valores familiares, profissionais e sociais bem próximos das minhas intenções renovadoras sociais – democratas, e por lá me fiquei.

Deixo no texto a seguir, a minha última intervenção na qualidade de deputado municipal, alguns traços de identidade e ajustes pessoais de apoio e confronto, que mais me cativaram.

Muito haveria a referir neste campo, mas fica a promessa de o fazer no tempo certo numa publicação autobiográfica que penso levar a efeito.

Confio ao meu estimado leitor em forma de síntese, (não tato quanto isso), algumas intervenções de ordem profissional, inseridas num quadro de admissão política que, entendo, também ajudei a engrandecer o nosso património do Desporto como cultura e arte pelo movimento.

Não deixarei ainda de fazer constar a existência de vários convites para fazer parte e mesmo liderar um projeto para a candidatura dum executivo autárquico, (com a possível certeza duma vitória), no entanto nunca abdiquei do cumprimento do dever em cumprir a sagrada profissão de continuar a ser Professor.

Vamos a isto:

 

“ASSEMBLEIA MUNICIPAL 27 Setembro 2017

 

Excelentíssimo Senhor Presidente da Assembleia Municipal e Excelentíssima Mesa

Excelentíssimo Senhor Presidente da Câmara Municipal e Excelentíssimos Senhores Vereadores

Excelentíssimos Senhores Deputados

Excelentíssimo Público

Comunicação Social

 

33 anos …porventura 35 …mas que sejam 33!...

… O tempo prolongado duma existência neste órgão legislativo da minha terra e que muito me honrou!...

Dizia-me em tempos o meu amigo Doutor Fernando Seara que “a liberdade era um bem … a maldade, um veneno… a memória, um privilégio … a gratidão, uma virtude!”... É nesta virtude da gratidão, como mãe de todas as outras que eu gostaria de iniciar esta minha intervenção de despedida.

Gratidão por todos aqueles que depositaram em mim a confiança, no decorrer de passadas mais de 3 décadas.

Gratidão ao PPD/PSD, partido que logo após o 25 de Abril me convidou a me envolver, após a criação e desenvolvimento da frente democrática, cujo objetivo se referia a um melhor esclarecimento num processo que gerou a constituição dos partidos, reunindo um conjunto de homens bons, a exemplo de Paulo Alão, Luís Coelho, José Maria Moreira, Fernando Machado, Mateus Ferreira, Toninho Matos … liderados pelo carisma, integridade, autenticidade, resiliência e desempenho do Dr. Fernando Vasconcelos. Uma estrutura verdadeiramente referencial com base duma doutrina popular, renovadora, observando e cumprindo os sagrados deveres da democracia.

Nesta recordação feita memória do tempo, vou escutando o silêncio da saudade de quem partiu, mas numa abrangência de imagens que lhe conferem grandeza.

Ensinaram-me que o respeito pelo outro implicava uma renovada visão do humanismo, configurada nos modelos limiares de comportamento, assentes na observância de padrões de conduta civilizada, de liberalidade e generosidade, de respeito e consideração pelos outros como cidadãos portadores de valores. Todos e em especial por aqueles que combatiam por outras causas, evitando o conformismo, mas respeitando as diferenças.

É assim que jamais gasto as palavras que me sobram do coração em relação ao pai da democracia na nossa terra, Dr. Fernando Vasconcelos, que por via duma solidez de princípios e firmeza de conceitos, converteu num ávido relacionamento humano, uma partilha de cumplicidade.

Infelizmente, por via da atualidade, certas verdades que poderiam abrigar-se nesta manifestada influência dum líder humanista, respeitante dos valores da pessoa sobre o político, estão pelo contrário expostas nos placards das encomendas e por vezes a densidade do lamaçal agiganta-se, a perversão da razão encolhe-se, as cruzetas do oportunismo inclinam-se e o carácter das pessoas de bem, entra em agonia.

Nesta passada do tempo é-me muito grato referenciar figuras que fizeram a marca da minha vida, como o cavalheirismo bem representativo de Fernando Santos, (militante do P.C.P.); a racionalidade do pensamento crítico do Dr. Aloísio Lobo, a paixão doutrinal de Alberto Batista, a cortesia de Mateus Ferreira, a sagacidade prazenteira de Rodrigo Pedrosa, a gratidão de Glória Araújo, o equilíbrio cultural e emocional do Dr. Ricardo Pereira, a fluidez de pensamento do Dr. Sérgio Silva, (militantes do P.S.); a bondade do Eng.º Meireles (militante do C.D.S.); a sensatez pedagógica do Prof. Costa Alves, a envolvência fraterna do Dr. Eugénio Coelho, a guerreira impulsividade da Doutora Paula Gonçalves Álvaro, a educação pelos valores de Miguel Martins, a jovialidade com futuro do Dr. Miguel Pereira, a nobreza de princípios do Dr. Bastos, (militantes do P.P.D./P.S.D.) e perdoem-me outros tantos, mas a saudade … tanta saudade de Raúl Teixeira, que no leito da despedida, dias antes de partir, conseguiu converter em esforço, palavras de veludo neste belo texto que guardo sempre junto ao coração e vos dou a conhecer:

 

Lyon 16/9/1983

 

“Ai que saudades … dos tempos que passamos à beira dos caminhos … Debaixo das ramadas … no triângulo das Bermudas!...

Dos tempos que passamos no café, no futebol, na rua, no Clube, na Câmara, no Partido, nas camonianas, no carro … ai que saudades dos tempos, nos tempos!...

Ai que saudades, meu irmão … mas neste cativeiro sofro a minha dor, sou prisioneiro deste grande ardor!...

Ai que saudades, meu irmão. Da malha moída moldada, com ferros e sangue da gente, mãos por ti arrastada, raiz dum povo valente!...

Dos minutos … do tempo dos minutos … do voleibol, da manutenção … das lâmpadas contadas … da conquista pela vinda do Marcelo Rebelo de Sousa para batizar na Citânia os nossos jovens guerreiros!...

Ai que saudades do luar … das construções para fazer … dos projetos de mudança …  os dois!...

Os dois éramos muitos… agora aí só tu … agora aqui só eu! ...

Até logo meu irmão!”...

 

Faleceu, não chegou a 3 meses depois, 10 de Dezembro de 1983, transportado em ombros pelos tais jovens guerreiros, desde a sua residência em Sobrão (bem próxima da minha), até ao Campo Santo, Meixomil/Paços de Ferreira.

 

Nesta passagem do tempo, houve um momento de uma certa inquietude, rasteira e fugidia, pelo facto de eu ter assumido o cargo de Diretor do Pavilhão Desportivo Municipal e enfim, por ter o estatuto de militante do PPD/PSD.

Confiaram-me de facto este cargo no início da década de 80, após a sua inauguração, porventura resultando duma confiança política associada ao facto de ter sido o primeiro e único licenciado em Educação Física e Desporto do concelho, advindo do primeiro curso superior em Portugal integrado na Universidade do Porto 1976/81, auferindo por isso uma compensação financeira pelos serviços prestados, registados numa média de 3 horas diárias, idêntico ao vencimento/hora da qualidade de docente. Mas como todos sabem, as funções que assumi encontravam-se muito além do quadro de exigências que um diretor de instalações devia exercer.

 

Assim foi que levamos a efeito diversas ações de carácter formativo ao nível de Treinadores/Animadores e Dirigentes nas áreas do Andebol, Basquetebol e Voleibol, (modalidades praticamente desconhecidas a nível concelhio).

Também tidas em conta no decorrer de anos contínuos, torneios aniversário do Pavilhão entre Associações/Clubes e Escolas das modalidades referidas; criação e desenvolvimento duma biblioteca e videoteca desportiva e um Gabinete Médico com apoio gratuito de examinação médica a todos a que para tal o requeriam; Jornadas técnico-pedagógicas, palestras e colóquios na vertente da cultura desportiva e fair play; criação de turmas de Educação Física de Base para crianças e Manutenção para adultos e direção pedagógica das mesmas; apoio ao campeonato da Europa de Hóquei em Patins (sénior masculino) em 1998 e Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins (sénior feminino) em 2002; apuramento para os mundiais de Guatemala em Futsal (2000); finais de taças de Portugal em várias modalidades, etc…

Também dar resposta à ocupação da piscina da Esquadra 12 da Força Aérea aos fins – de - semana e após as 16.30 para o público, e em horários letivos destinada às escolas do concelho; animação desportiva com a prática dos jogos tradicionais no concelho; corridas de estafetas (abraço autárquico) com a participação de equipas de todas as freguesias do concelho; mês de Maio – mês do coração e que se desenvolvia entre Maio e Outubro nos circuitos de manutenção, (também para o efeito criados), tendo supervisionado a monitorização técnica e recebido apoio médico da Cruz Vermelha e Centro Médico de Paços de Ferreira; planeamento e utilização dos pavilhões desportivos das escolas Eb 2/3 de Paços de Ferreira, Freamunde, Frazão e Eiriz nas horas pós letivas para usufruto das Associações e Clubes do concelho, etc …   3 (três) horas por dia registadas numa função que pouco se assemelhava a um diretor de Pavilhão Desportivo, que eram desmultiplicadas nas diversas formas para criar uma dinâmica empreendedora de associar o “Desporto a uma Cultura em Movimento”, executadas unicamente pelo prazer e amor à causa, mas … mesmo assim fui ouvindo o ressoar de alguns fazedores de opinião que se espreguiçavam no lamaçal da injúria, e se revisitavam ao espelho da sua própria ignorância. Como me soube bem por parte dos deputados da oposição deste órgão legislativo, nomeadamente Glória Araújo, António Vieira, Dr.s Sérgio Silva e Paulo Ferreira ao fazer entender o importante e descartar o acessório, manifestando-se com palavras de conforto e louvor, que me deixaram claramente feliz e muito grato, não obstante a consciência pessoal do dever exercido, jamais me tenha abandonado.

 

Com a prestimosa colaboração do meu braço direito e meio coração, Aquilino Tojal e de 3 ou 4 técnicos contratados para os momentos de maior exigência, ficou registado no tempo de 1982 a 2006 um total de 81 Clubes/ Associações e Escolas, Grupos Federados e não Federados, que utilizaram o Pavilhão de forma dinâmica e contínua, contabilizando um registo de 880.666 utentes, numa ampla polivalência de prática desportiva, prolongando no tempo um forte sentimento coeso e participativo em que nenhum credo religioso, político ou qualquer atividade profissional ou clubística, foi suficientemente capaz para os dissolver.

 

No que corresponde à utilização da piscina da Esquadra 12 (após a assinatura dum regulamento de utilização, produto duma excelente parceria com a Força Aérea), do início da década de 90 até 2001, foram registadas por semana cerca de 500 utilizações da responsabilidade do desporto escolar, de forma totalmente gratuita, associando 1000 utilizações inseridas em turmas divididas por grau etário/sexo da responsabilidade autárquica, 70 utentes referentes aos clubes e 350 munícipes utilizadores, adquirindo estes uma simples senha, de valor económico pouco representativo.

 

Ficou assim o meu desempenho, com as contas do serviço prestado, a quem em mim confiou, para apenas gerir o Pavilhão Desportivo Municipal. Acrescento que, quando em 2005 solicitei a minha aposentação por antecipação, para me dedicar integralmente ao ensino universitário, terminei a minha função … e quando alguns responsáveis autárquicos me propuseram que lhe desse seguimento, apresentando um recibo pelos serviços prestados, eu respondi: farei o melhor que possa e deva fazer, contudo com uma única ressalva: de forma absolutamente gratuita, mas … ! …fico - me por aqui!...

 

Sempre procurei defender nesta Assembleia o que mais me anima. Não usei as vestes duma política atrevida, mas as cores dos desafios da minha terra. Por isso, algumas foram as vezes que me abstive pela discórdia dos traços que sustentavam as ideias. Fiel às minhas convicções, procurei sempre e em primeiro lugar defender os valores e anseios de minha gente, superando o que os partidos de per si combatiam.

 

Talvez uma ou outra vez incomodado, mas jamais quis ver renegado para segundo plano a grandeza do debate, procurando incentivar a saudável diferença e nunca a submissão; demonstrar a inquietação e jamais o conformismo; motivar a participação e não a quietude; ajuizar a construção e abolir a servidão.

 

Sempre procurei enfrentar com dignidade a crítica como arte do contrário, que me ajudou a ver edificada a potencialidade do agir, transferindo pelo debate das ideias, a cultura da arte de pensar.

Eu creio firmemente que no refinar da linguagem da sensibilidade, comparticipada pelos deveres da ética e respeito entre as diferenças, estará a magnitude das relações entre as pessoas.

Entendo ainda que é impossível conceber a vida democrática à margem do entendimento entre as pessoas de bem, inseridas num sistema de relações e de tudo que as envolve.

Como referi neste auditório numa comunicação em 29 de Dezembro de 2011: “fora do quadro margeado pelo civismo, a vida deixa-se resvalar para as malhas da grosseria e bestialidade, está despida dos atributos onde se devem edificar os toques da elegância e fineza e os gestos elevados e edificantes de cavalheirismo”.

Infelizmente neste espaço nobre da democracia, ultimamente nem sempre se viram edificados estes valores. Tenho ouvido o uso e abuso duma linguagem por vezes enredada numa teia de ligeiros atropelos, pelo uso da emoção desfigurada pela razão. No decorrer do último mandato, muitas foram as vezes que a vontade de me retirar ia matando o exercício para o qual fui pelo povo confiado… mas, cheguei ao fim!...

Desejo a todos os que irão exercer estas nobres funções de futuro, as maiores venturas.

Não poderia terminar sem manifestar um pedido de desculpas à Mesa da Assembleia, Executivo Autárquico, companheiros de bancada, público ou comunicação social, por possíveis faltas da minha parte, eventualmente cometidas, mas de certeza sem a intencionalidade de ferir quem quer que seja.

Em política como na vida, pode-se ganhar no debate das ideias, na raça da entrega, mas é preciso saber merecer o combate pelos valores da diferença, daquilo que marca a substância, em favor da nossa amada terra.

De Raimonda a Seroa … de Freamunde a Arreigada … de Penamaior a Ferreira …  alimentados pelos significados das suas diferenças, jamais se deixem desanimar pelo colorido da mesma bandeira, que nos acolhe e encanta!...

 

33 anos … porventura 35 … mas que sejam 33!...

Garanto-vos que irei cultivar a memória de todos vós, sem exceção!...

 

33 anos … porventura 35 … mas que sejam 33!...

Tantos anos quantos AQUELE que um dia também partiu e deixou a doutrina do bem, da concórdia, da caridade, da verdade e do perdão.

 

33 anos … porventura 35 … mas que sejam 33!...

 

PODE SER QUE AINDA HAJA FUTURO!...

 

Nota Final: Gostaria de rubricar uma nota de reconhecimento público pela confiança em mim depositada aos Presidentes da Autarquia que se seguiram ao Dr. Fernando Vasconcelos, nomeadamente ao Prof. Arménio Pereira, pelo olhar próximo e fraterno como partilhávamos a estrada da vida e ao Pedro Pinto, um guerreiro com quem tive a fantástica oportunidade de ajudar a formar e numa jovial, radiosa e ousada esperança em liderar o projeto, retratado de forma sublime, mas que na fase final de mandato, porventura com força insuficiente de combater a esperteza calculista (e não só), de alguns conselheiros, cujo traço de identidade muito me custa comentar. Foi pena!...

Assim, após 37 anos de presença contínua no poder da Autarquia por parte do P.P.D./P.S.D, o Partido Socialista viu-se vencedor nas eleições de 2013.

Jamais poderia terminar esta temática da minha intervenção autárquica sem elevar o meu sentimento de gratidão ao meu Ilustre Amigo Presidente da Câmara Dr. Humberto Brito, (o combate das ideias deixou cravada uma imagem de soberana e nobre virtude de crescer pela diferença política, mas também o envolver numa sagrada semelhança quando as cores dos valores da terra se encontram em causa), por ter proposto ao executivo, (aprovada por unanimidade), a atribuição da medalha de honra do concelho – grau de ouro, que me foi concedida no 178º aniversário da criação do Município, em 6 de Novembro de 2014…gesto que tanto humedeceu meus olhos e a trago sentimentalmente amarrada ao coração.

Nesta conformidade, ainda mais cavou fundo o grito da liberdade, numa expressão que jamais deixarei de evocar: MUITO OBRIGADO.

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário.

 

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