Quem “matou” a mudança? Suspeito nº 7 – A Relação com os Colegas (artigo de João Oliveira)

Espaço Universidade 14-11-2018 17:42
Por João Oliveira

Estava uma tarde soalheira e o Detetive Colombo entrava no Centro de Treino do F. C. Galácticos. Subia as escadas, no que outrora seriam passos vigorosos, agora eram mais contidos, até que no seu horizonte, para além dos degraus, começaram a surgir os 15 campos relvados, repletos de miúdos, todos equipados e em movimento. Ao olhar para a direita, observou as bancadas e o bar com muitos Pais e Avós, parecia um dia de jogo dos tempos em que jogava. Tinha uma reunião marcada com o Presidente, mas ainda havia tempo para tomar um café e ao ver uma mesa livre, na esplanada do bar, não hesitou e decidiu sentar-se. Desfrutava do ambiente, que lhe recordava a sua infância, mas “colorida”, dado que no seu tempo, os campos eram pelados e contavam-se pelos dedos de uma mão os Pais e Avós presentes. Uma rapariga perguntou-lhe o que desejava e sem hesitar, pediu um café e uma nata clarinha com canela, como apreciava.

 

Tudo estava tranquilo, até que os “ouvidos de tísico” de Detetive traíram o seu descanso. Na mesa à sua direita, estavam algumas Mães, na casa dos trinta e muitos anos, envolvidas numa conversa que despertou a sua atenção. A Mãe de cabelo claro dizia - “o meu filho nunca discorda dos colegas, mesmo que essa seja a sua vontade, com isso segue os outros e até lhe costumo perguntar: Pedro se os outros se atirarem da ponte, também te atiras?”, ao que a Mãe morena confidencia – “com o meu João acontece o mesmo, tanto que ser aceite pelos outros que apenas diz e faz o que, à partida, os outros aceitam”. “O problema” – começou por dizer uma Mãe mais velha, ruiva e com sardas – “é quando eles até são certinhos, mas quererem ser aceites e são desviados para maus caminhos pelos outros, desviam-se do que desejam ser, ficam dependentes destes, perdem a iniciativa até a jogar, comprometem o futuro deles e acrescentam-nos inquietações e preocupações”.

 

Ao fundo, ouviu-se a gritar “GOOOLOOO” e o olhar do Detetive Colombo desviou-se para os campos, a procurar como que a repetição na televisão, mas apenas viu muitos miúdos a celebrar efusivamente, como se tivessem visto um golo à Ronaldo, como aquele de bicicleta.

 

Ao voltar a focar a sua atenção auditiva, de forma dissimulada, no que se passava na mesa ao lado, começou a ouvir “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. O Detetive tinha perdido o contexto da expressão, mas acabou por ser “salvo” por outra Mãe, mais nova e de cabelo curto, que perguntou - “o que quer dizer com isso?”, ao que a Mãe ruiva respondeu – “a época está a começar e há muitos jogadores novos e os miúdos, tal qual os adultos, nestas situações, têm a tendência para se juntarem às pessoas que apresentam semelhanças óbvias” e a Mãe morena comentou – “por isso é que os jogadores que estavam no Clube, na época passada se juntam entre si, do mesmo modo que os novos jogadores se juntam uns com os outros”, ao que é interrompida Pela Mãe mais nova e de cabelo curto - “o mesmo se passa quando as pessoas com qualificações diferentes mesmo que elevadas, como acontece com alguma frequência entre médicos e enfermeiros”. “Isso faz-me lembrar uma conversa que tive com o meu João” – comentava a Mãe morena – “quando lhe perguntei por que razão era sempre o último a sair do balneário e com isso, apanhamos aquelas secas no carro. Respondeu-me que os mais velhos tomam banho primeiro e que os mais novos tinham de esperar pela sua vez”. “Nem mais, como as pessoas têm a tendência a juntarem-se aos que são obviamente semelhantes em género, idade, experiência, posição social, (…), mas também em comportamento, então podemos dizer: diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és” – concluía a Mãe ruiva.

 

“Por isso é que, vemos os jogadores a juntarem-se em função da sua nacionalidade: estrangeiros a interagirem entre si e os nacionais uns com os outros ou observamos, depois de um jogo grande, os nossos colegas de trabalho, na 2ª feira, uns a defenderem que foi penálti para o seu clube e os outros que não foi, independentemente dos factos, pois primeiro estão as sensações que os ligam aos Clubes e só depois os factos. Têm uma relação em função de semelhanças clubísticas óbvias e, neste caso, as pessoas juntam-se em função do seu Clube e não dos factos, gerando todas aquelas discussões” – observava a Mãe de cabelo claro. “Mas este tipo de relações não é exclusiva do desporto ou dos locais de trabalho” – introduzia na conversa a Mãe de cabelo curto – “já repararam que na assembleia, as pessoas se juntam em função das semelhanças óbvias, isto é, o seu partido político, e os custos que isso tem na capacidade de encontrar soluções que integrem diferentes pontos de vista e sejam benéficas para todos? O extremo desta posição verifica-se quando vemos as pessoas a votar em função do que se apelida de disciplina partidária”.

 

Enquanto isso, o Detetive Colombo registava que também naquela mesa havia uma aproximação em função de semelhanças óbvias, nomeadamente de género (Mulheres) e grau de parentesco (Mães).

 

“Porém, esse tipo de relação entre os colegas, onde as pessoas revelam apenas o que os outros aceitam e onde os jogadores se juntam aos que são obviamente semelhantes, cria vários problemas. As pessoas não são quem são, mas aquilo que pensam que agrada aos outros e isso limita quer a sua contribuição, hoje na equipa e amanhã nos seus empregos, quer o seu bem-estar e a sua relação com os outros, porque ficam dependentes do que os outros pensam e aceitam e, em alguns casos, poderão tornar-se em adultos yes-man.

 

Por outro lado, ao juntarem-se às semelhanças óbvias, separam-se das pessoas que se apresentam, são, pensam e agem de maneira diferente e esta situação semeia a reação e negação das diferenças, o rastilho do bullying e compromete o trabalho de equipa, a inovação e a criatividade necessárias para enfrentar o mundo competitivo do Futebol” – rematava uma Mãe de cabelo encaracolado que tinha estado em silêncio, parecia que não estava na conversa, mas que afinal, tinha ouvido e integrado o que as outras Mães tinham dito.

 

“Na minha empresa” – dizia a Mãe de cabelo claro – “aconteceu uma coisa curiosa. Surgiu um problema informático, os técnicos habilitados não o conseguiam resolver e foi um colaborador, que gosta de informática, mas não tem qualquer habilitação ou certificação, que resolveu a situação. Se as relações na minha empresa fossem em função das semelhanças óbvias e, portanto, também das hierarquias e das posições de cada um, provavelmente o problema não tinha sido ultrapassado rapidamente e os custos laborais de tal atraso podiam ter sido enormes.”

 

A hora da reunião com o Presidente estava a aproximar-se, o Detetive estava envolvido naquela conversa, que o tinha desviado do seu propósito de desfrutar do momento, mas sentia que tinha trabalhado muito, pois tinha descoberto mais um suspeito de estar a “matar” a mudança no Clube. Estava na hora de ir andando, pagou e enquanto se dirigia para o gabinete do Presidente, associou a conversa que tinha ouvido a algo que tinha aprendido durante o curso para investigador de crimes contra as organizações e só pensava em “relações estereotipadas”. Fixou a ideia e dirigiu-se para o gabinete do Presidente.

 

A relação entre o Presidente Angie e Detetive Colombo tinha evoluído, dados os vários contributos do segundo para a resolução dos problemas do primeiro e, por isso, assim que chegou, o Detetive foi anunciado pela Secretária do Presidente, a Sr.ª Burlington, e de imediato atendido.

O Detetive conversou com o Presidente e alertou-o para mais um dos suspeitos de estar a “matar” a mudança – o tipo de relação entre as pessoas, com os colegas (relações estereotipadas), sejam eles de equipa, de departamento ou da organização – e para uma alternativa.

 

Depois do Detetive sair, o Presidente Angie pegou num papel de escreveu – “as pessoas podem estabelecer relações estereotipadas ou relações funcionais. As relações estereotipadas comprometem a autonomia, a autenticidade, a inclusão e aceitação de pessoas e modos de pensar diferentes, a proatividade de uns, o respeito de outros, a colaboração e contribuição de todos e de cada um com os seus recursos, para ajudar a organização a resolver os seus problemas, de forma inovadora e criativa. Por isso, as relações estereotipadas “matam” a mudança no Clube, nas organizações. A alternativa é estimular relações funcionais, isto é, despertar relações das pessoas em função dos recursos e motivações que um tem e quer disponibilizar - independentemente do género, idade, habilitações académicas, (…) - de modo a apoiar o objetivo do contexto organizacional.”

 

O Presidente termina a nota com uma pergunta – “como poderia ser o mundo se nos hospitais, escolas, fábricas, assembleias, (…), as pessoas interagissem em função de relações funcionais, em vez de relações estereotipadas?”.

 

João Oliveira é Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia – ISMAI e formador em Desenvolver Equipas Eficazes, Motivação e Gestão do Pensamento em Contexto Profissional, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.

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