Saudades do Barcelona, do Artur Jorge e do José Mourinho (artigo de Manuel Sérgio, 261)

Espaço Universidade 16-10-2018 08:43
Por Manuel Sérgio

Quando, em plena década de 60 do século passado, o paradigma clássico dominava o conhecimento das pessoas e das coisas, parecia certo e seguro que uma ordem causal e mecânica explicava o funcionamento dos homens (e das mulheres), das sociedades, do universo. E, porque mecânica e causal, tanto mais exata quanto mais quantificada e medida e matematizada e considerando inútil, ou erro de monta, o estudo da desordem e do caos, na observação de uma organização qualquer.  “As ideias claras e distintas” de Descartes ressoavam no paradigma clássico. E também certezas, análises, determinismo e disjunção (é preciso separar, para conhecer). Naqueles longínquos anos, a lógica de um jogo de futebol eliminava as relações entre os elementos de um todo, a estrutura interna de uma totalidade, dispensava o pensamento que relaciona, o pensamento complexo. Se amealhasse as frases mais sérias dos treinadores de futebol, entre elas lá encontraria: “Para já, ainda nos encontramos a treinar a defesa. Sofremos muitos golos. Só mais tarde poderemos ocupar-nos do ataque”. Como se o ataque e a defesa não integrassem a mesma totalidade, a mesma complexidade. Outros, julgando-se mais informados, mais atualizados, afirmavam convictamente: “O futebolista é um atleta. Sem qualidades físicas, não é possível praticar um desporto de alto nível. A preparação física está antes e acima de qualquer treino técnico e tático”. No nosso País, os mais respeitados mestres do treino daquele tempo escreviam e repetiam (o David Monge da Silva, para mim o pioneiro do treino desportivo hodierno, no nosso País, ainda frequentava a licenciatura em Educação Física e Desporto, no INEF): “É no âmbito da fisiologia aplicada, fisiologia do trabalho muscular e fisiologia do exercício que a metodologia do treino desportivo tem a sua fundamentação científica”. Descartes (1596-1650), se vivo fosse, diria o mesmo…

 

Foi nas equipas do Artur Jorge, José Mourinho e no Barça do Pep Guardiola que melhor senti que o gesto desportivo, para ser eficaz, não poderia reduzir-se aos seus aspetos biológico e mecânico. Como se sabe, a visão weberiana da ciência integra-se num longo e conflituante processo de “desencantamento do mundo”. Segundo Max Weber, a ciência, hoje, “varre da realidade cósmica e humana todo o halo sagrado, místico e mágico, recorrendo ao cálculo matemático, à pesquisa, aos pressupostos e aos imperativos da lógica” (Artur Morão, Introdução a Max Weber, A Política Como Vocação – A Ciência Como Vocação, Book Builders, 2017, p. 2). O treino desportivo  foi assim “coisificado” e “objetivizado”, através de metodologias que quantificam e mensuram e dando ao desprezo as metodologias qualitativas, esquecendo (e asfixiando) portanto a complexidade do real, a complexidade do social e humano. Poderia dobar, aqui, imagens sobre imagens, acerca dos treinos de futebol do Belenenses a que assisti, no Estádio das Salésias e no Estádio do Restelo e onde ação e interação, relação e inter-relação, função e funcionamento se consideravam como elementos do treino que mutuamente se excluíam. O estabelecimento de fronteiras disciplinares justifica-se inteiramente, desde que o jogador não deixe de estudar-se como uma totalidade  (ou seja, ele e a sua circunstância) e se torne visível, sem margem para discussões, que o treino é de futebol e não de atletismo, ou de ginástica. Mas uma totalidade humana, onde o físico, o biológico e o antropossociológico dialeticamente se relacionem, sejam portanto interdependentes, num todo homogéneo e unitário. Não arredo os olhos de uma célebre frase de Menotti: “O mais importante num futebolista não é a preparação física, mas que aprenda a jogar futebol”. E remato com as próprias palavras deste argentino: ”Nadie juega mejor el fútbol porque sea mejor fisicamente”.

 

O dualismo cartesiano perpetua-se ainda num “estilo de jogo”, que obriga o jogador a renunciar à sua singularidade, à sua originalidade, à sua criatividade. Há, quase sempre, no jogador profissional, motivado pelo ambiente que o rodeia, uma fome de vitória, um instinto competitivo imparável, a velas pandas, sem porto de ancoragem. O treinador e os seus adjuntos aparecem, demasiadas vezes, como uma oligarquia do saber, de incoercível, indiscutível lucidez e fazendo dos jogadores simples reflexos, meros repetidores e espectadores das suas convicções, onde há pouco estudo e pouco respeito pelo que os jogadores têm e são. Ora, repito-me: não há jogos, há pessoas que jogam. Que o mesmo é dizer: é o jogador o principal protagonista de um jogo de futebol. Alguns treinadores, no entanto, com invulgar empenho autopromocional, não deixam de revelar as suas ideias como descobertas insuspeitadas, esquecendo as suas principais funções na equipa: ajudar o jogador a ser o que pode ser; ajudar o jogador a sentir-se o principal responsável pelo resultado final do jogo. O Jorge Araújo, um treinador de basquetebol de talento ímpar, numa das suas múltiplas viagens aos Estado Unidos da América, estranhou que um seu colega norte-americano utilizasse um método de treino, “a bola no nariz” e, por isso, o questionou: “Que é isso de atirar bolas ao nariz dos jogadores?”. Lépido, o treinador norte-americano respondeu-lhe: “No final da época passada, no jogo que decidia quem seria campeão, a quatro segundos do final, com posse de bola e a ganhar por um ponto, um jogador da nossa equipa, enquanto trocávamos passes esperando que o jogo acabasse, levou com a bola no nariz. Em vez de assegurar primeiro a posse da bola, deixou escapar a bola que, de imediato, foi agarrada por um adversário, que aproveitou para fazer um cesto, derrotando-nos numa situação que não deveria ter acontecido. A partir desse momento, decidi criar este exercício, treinando assim os nossos jogadores para este tipo de situação. Poderei perder campeonatos por muitas outras razões, mas asseguro-te que dificilmente será por um jogador da nossa equipa levar com uma bola no nariz” (Jorge Araújo, Tudo se treina, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa. 2014, pp. 15/16).
 

Trabalhei durante treze meses, no departamento de futebol profissional do S.L.Benfica. sob a orientação do “mister” Jorge Jesus e depressa cheguei à conclusão que o futebol deveria pensar-se de forma diferente. Sintetizo as conclusões a que cheguei e podem contribuir, na modéstia do que sou e tenho, à elaboração de uma epistemologia do treino desportivo: 1. O “Erro de Descartes”, visível na separação irredutível, entre as ciências naturais e as ciências humanas. O especialista, o hiperespecialista e a pulverização do saber. 2. A multidimensionalidade do ser humano (e das coisas) e portanto a importância das relações, das ligações, das associações. 3. O método da complexidade, onde tudo tem a ver com tudo e que portanto se opõe à separação ordem-desordem, sujeito-objeto, corpo-alma, homem-mulher, rico-pobre, senhor-servo, ciências naturais-ciências humanas. Gaston Bachelard avisava: “Não existe o simples, existe o simplificado”. 4. É pelo paradigma que se visiona o método. O futebol, como motricidade humana, como movimento intencional da transcendência do ser humano, tem necessariamente um método: o da complexidade. E portanto no futebol (como em qualquer outra modalidade desportiva) porque sujeito à imprevisibilidade, à liberdade do jogador, não há leis, mas “constantes tendenciais”. 5. O paradigma cartesiano e o paradigma emergente. A fragmentação dos elementos de um todo, de um sistema, significa não só a sua separação como a perda, nos elementos, das suas propriedades. Um extraordinário jogador, sem os seus colegas de equipa, perde grande parte das suas invulgares qualidades. Messi é explícito, em entrevista ao El Mundo Deportivo: “Foi a equipa que me fez bom jogador”. 6. Não esqueço o que José Maria Pedroto me ensinava: “Diz-me como atacas, dir-te-ei como defendes; diz-me como defendes, dir-te ei como atacas”. Segundo o pensamento complexo, tudo é sistema, se funcionar como totalidade organizada. 7. As “constantes tendenciais” do mundo humano são bem distintas da lógica das táticas e de muitas das ordens idealizadas pelo treinador. Por isso, o treinador deve saber questionar e… questionar-se! 8. Uma equipa personaliza-se, quando a constituem sujeitos livres e libertadores e solidários e não sujeitos repetidores e normalizados e egocêntricos. 9. É pela comunicação, designadamente pela linguagem, que se descobre a intersubjetividade e que todos somos a parte de um todo. Iniesta é um “homem”, segundo declaram aqueles que o acompanham, na mais exata e generosa aceção do termo. Afirmava-se, quando representava o Barça, que ele tinha o jogo do seu Clube, nas veias. De facto, o todo deve brilhar, em cada uma das partes. 10. Nada menos fiável do que uma “verdade” que não se transforma, que não muda… à luz de determinados princípios, de valores de incontroverso significado humanista!


Nas equipas de José Mourinho, do Artur Jorge e no Barcelona de Pep Guardiola, que beneficiava da colaboração, entre outros de talento ímpar, de Messi, Iniesta e de Xavi, eram evidentes estes princípios. E certamente outros que não distingo dos baixios dos meus limites. Se não laboro em erro, o Barça de Guardiola e o Porto do José Mourinho e do Artur Jorge e o Inter de Mourinho mereceram dos mais exigentes críticos os mais sentidos aplausos. Numa equipa de futebol, a originalidade deverá significar a existência de uma teoria fundante. O paradigma da complexidade parece-me, hoje, a teoria fundante mais adequada ao futebol em que vivemos, com o princípio sistémico ou organizacional, pois que a organização faz nascer, em cada um dos jogadores, novas qualidades; o princípio hologramático, que o mesmo é dizer: as partes estão no todo e o todo está nas partes; o princípio recursivo, “que nos permite reconhecer os processos, onde os produtos e os efeitos são necessários à sua produção e à sua causação” (Edgar Morin); o princípio dialógico “que permite reconhecer os fenómenos onde é preciso ligar termos antagónicos, ou mesmo contraditórios, para apreender a sua realidade” (Edgar Morin); um sistema é organizacionalmente fechado mas aberto, ao nível da informação, e portanto um treinador deverá ser fiel aos grandes objetivos do clube que serve e procurar, sem cansaço, uma informação rigorosa e constante; o determinismo e o indeterminismo coexistem, ou seja, na complexidade, lógicas de tipos diversos dialogam e complementam-se. Porque venho escrevendo, há muitos anos, que “a prática é mais importante do que a teoria e a teoria só tem valor se for a teoria de uma determinada prática”, mais vale quem aprende fazendo do que aquele que aprende memorizando. E em termos lapidares dou por findo o meu artigo de hoje.  


Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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