Eu, professor me confesso - Parte 3 (artigo de José Neto, 70)

Espaço Universidade 08:38
Por José Neto

Dando sequência à história que faz do tempo o caminho para o futuro, como referia no artigo anterior, vejo-me colocado na Escola da minha terra no ano letivo 1977/78. E quando olho a Escola Secundária de Paços de Ferreira, olho-me no tempo em que era aluno do então Externato Sílvia Cardoso. Era a nossa Escola, que após o exame de admissão, para lá nos deslocávamos, umas vezes a pé, outras de bicicleta e quando possível na carrinha conduzida pelo Sr. Laurindo. Era aí o ponto de encontro, naquele espaço apetecido dos grandes sonhos para uma vida que tardava a aparecer. Dos corredores fazíamos labirintos e entre as salas de aula se escondiam corações apaixonados que arrefeciam nas fontes próximas do “Pica Frio”, até que um dia lá apareci na qualidade de Professor!...

 

A entrada por aquele portão no primeiro dia de aulas!... Ainda sinto um arrepio de emoção, impossível de descrever por palavras, tais eram as memórias dos meus professores e de tantos e tantas colegas (estas sempre primeiras na subida da escadaria para as salas de aula)!...

 

Quanto a Instalações para a prática desportiva, praticamente não existiam, ou melhor resumiam-se a um espaço aberto sobreposto ao Hospital e com a vizinhança do Asilo António Barbosa e onde se escondia uma tabela de Basquetebol por detrás dum pré-fabricado, onde ensaiava a nossa Banda Musical.

 

Fui substituir um professor, cujo nome não me recordo, apenas me disseram que nos dias de Educação Física, caso chovesse, era habitual os alunos se deslocarem para o café e aí jogarem ténis de mesa e bilhar. Qando estivesse sol, um funcionário lhes entregava uma bola para se entreterem!...

 

Após ser feita a análise da situação, reuni com alguns alunos finalistas e combinamos uma estratégia que se resumia em trazer ferramenta e nós próprios durante uns dias, deitamos mãos à obra - abrimos umas rotas, colocamos a argamassa (muita areia e pouco cimento) e após alinhar umas ripas laterais, pintamos as marcações de Basquetebol, Andebol/Futebol e Voleibol. Na véspera das aulas as funcionárias deixavam sua cor sobressair, varrendo todo o espaço. Tantos foram os alunos, hoje gente de bem, amigos do peito que andam por aí e sabem bem que este nosso suor criou um emblema de afetos, que muito registo com apreço e saudade.

 

Pedimos ajuda à Autarquia o que de imediato o mesmo se viu satisfeito. O barracão da música mudou de sítio; derrubaram uma parede do hospital para entrar as tabelas de Basquetebol e demais material; o salão de estudo deu origem a um Ginásio, com cordas para suspensão; apensas a uma parede de fundo e a todo o comprimento afixaram-se os espaldares; os plintos e trampolins foram executados na carpintaria da Câmara pelo Sr. Barbosa; colocamos meia dúzia de chuveiros numa zona mais restrita e a todo o vapor iniciamos a disciplina de Educação Física com coragem e determinação.

 

 Foi uma luta fantástica!... Jamais esquecerei a dedicação dos meus amados alunos e a estima do Sr Presidente da Câmara, no momento Dr Fernando Vasconcelos, para dar resposta à dignidade que uma disciplina tão importante como necessária para a formação dos nossos jovens, se visse a renascer das cinzas.

 

A partir dum determinado tempo passamos a utilizar as novas Instalações. No que se refere á prática da disciplina de Educação Física, a evidência de substancial melhoria, quer na parte exterior com um campo em terra batida e um polivalente em cimento para a prática de modalidades colectivas, quer a utilização dum ginásio com dois salões e duas baterias de balneários. É claro que os salões não estavam marcados mas, como já havia a experiência,  em dois fins de semana, novamente com a ajuda dos alunos, agora sem necessárias as picaretas, nem o cimento e areia, mas as tintas, as pranchas e os pinceis voltaram a aparecer, para tornar mais apetecível a prática do que nós passamos a chamar “ Educação Física e Desporto – Cultura em Movimento”. Entretanto criamos uma Associação Recreativa e Cultural da Escola Secundária de Paços de Ferreira (A.R.C.E.S.P.F.) cujo presidente começou por ser o Dr Marinho de Moura, sendo o tesoureiro um pai de alunos, o Sr Paulo Alão, que juntamente com o maestro Sr. Neto (outro pai de alunos), muito nos ajudaram na preparação da cantata das Janeiras. Eu secretariava as nossas reuniões e juntamente com um grande grupo de vogais alunos, criamos e desenvolvemos o Desporto, a Arte e a Cultura. Cantamos as Janeiras de porta em porta (ajudamos a renascer um hábito que estava um pouco esquecido na nossa região) e com a verba ofertada, compramos equipamentos; federamos a equipa de Voleibol e Futebol no Desporto Escolar; desenvolvemos a secção do Atletismo da Escola (estivemos presentes em várias provas, como a meia maratona de Nazaré, provas das milhas terrestres, voltas ao concelho, etc); criamos um Grupo de Dança Rítmica e Folclore e até grupo de teatro, com a ajuda do Grupo Teatro de Freamunde, por intermédio do Sr Santos e do Prof. Costa Alves. Foi fantástico ver toda esta envolvência de tanta gente, famílias que nos acompanhavam em repetidos fins de semana, como as muitas taças e troféus que o confirmam. Penso que ainda se encontram na Escola, num lindo armário enfeitado pela D.Manuela. 

 

Nas nossas atividades desportivas, sempre procuramos inserir um projeto cultural envolvente. Recordo a corrida e marcha que tinha como ponto de partida a Escola e em 4 grupos que percorriam caminhos diferentes ao encontro de pontos de referência histórica e cultural dos valores da nossa terra. Um grupo seguia para o Mosteiro de Ferreira (Igreja românica do sec.XII, sendo um os 21 monumentos que integram a Rota do Românico do Vale de Sousa); outro grupo para a Igreja de Carvalhosa (onde se perpetua a árvore de Jessé que muito bem expressa a genealogia de Cristo, tema ligado à crença judaica da origem davídica do Messias); outro grupo seguia para a Casa da Praça de Frazão (uma das belas casas solarengas do concelho , construída no sec. XVIII e que nela esteve instalada a 4ª companhia dum Batalhão de voluntários da rainha D. Maria II) e o último para a Casa do Dr Nicolau Carneiro (defensor das causas republicanas, após a queda da monarquia em 5 Outubro 1910), todos caminhando 100 metros e correndo 200 até ao destino previsto. Aí havia um pequeno lanche para retemperar forças e de imediato alguns colegas da disciplina de história davam a conhecer o que para muitos era novidade. É evidente que essa estação de referência contextual era alterada por estações em datas distintas para que todos os voluntários pudessem comungar duma atividade desportiva, cognominada de –

 

CULTURA EM MOVIMENTO.

 

Também durante o largo tempo que permaneci na Escola Secundária, não sendo obrigatório, procurei efetuar no início de cada ano letivo testes diagnóstico de avaliação quer ao nível da antropometria (peso, altura, pregas cutâneas); uma simples avaliação cardio - funcional (Índice cardíaco de ruffier) e diversas provas de força e flexibilidade que a meio do ano e no final do mesmo se poderia comparar o desenvolvimento da performance individual. Recordo que numa prova prática de corrida em tempo e espaço com avaliação da frequência cardíaca e esforço prestado uma aluna com uma percentagem de gordura superior à média (podíamos referir próxima dum estado de obesidade), não conseguia manter um equilíbrio de valores por mais que reduzisse a taxa de esforço. Não querendo de forma alguma desistir, procurei em reunião privada com os pais da aluna sugerir que a mesma efetuasse um eletrocardiograma e/ou um ecocardiograma. Assim aconteceu e sabem qual o resultado? – a mesma apresentava um sopro cardíaco em estado grave. Imaginemos que deixava ou até a incentivava a realizar o exercício como as demais colegas, que era isso mesmo que lhe movia a vontade de não desistir ?!... É claro que os pais imediatamente trataram de ajudar clinicamente a menina a recuperar o estado grave detetado, tornando-se esta simples tarefa imediatamente objeto de público conhecimento, sobrando comentários que muito enriqueceram o meu dever, agora património de maior exigência no cumprimento das minhas obrigações pedagógicas!...  

 

Acredito sinceramente que esta forma de atuar deu muitos frutos, pois tendo eu entretanto terminado a 1ª licenciatura pelo ISEF da U.Porto, reafirmo ainda hoje mesmo com orgulho, que desta minha região, mais de 92% dos meus colegas atuais, passaram por meus alunos – é o meu grande legado, que muito me honra nesta minha apetecida caminhada.

 

Acredito (e os testemunhos atestam-no) que ajudei a fazer-lhes renascer a esperança, de lhes incutir uma cultura de honestidade, autenticidade, ética, resiliência e respeito, ajudando-lhes a renascer a vida em cada dia, semeando perguntas, recolhendo respostas, descobrindo novas metas e horizontes.

 

É assim que guardo uma das maiores glórias da minha vida profissional - no intervalo destas tarefas, quando após ter realizado o estágio profissional (1981/83) no Liceu Carolina Michaellis, sinto no dia do meu regresso uma onda de entusiasmo, concedendo-me o privilégio único de voltar a entrar na minha Escola, simplesmente em ombros dos meus queridos alunos, coberto de muitos sorrisos e … algumas lágrimas também!...

 

Mas no decorrer desse tempo letivo houve um facto que merecerá uma atenção muito especial e que não posso deixar de mencionar, tal o envolvimento que se lhe associou: ao convite do senhor diretor da Cadeia Central do Norte de Paços de Ferreira, em1979/82, entrei pelos portões da prisão adentro com o objetivo de colocar em prática uma mensagem nova: o ensino e a prática do desporto como projeto de recuperação do indivíduo em estado de reclusão.

 

Ficará para a próxima parte … até breve!...

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário.

 

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