Primeira Maratona Olímpica (artigo de João Marreiros, 7)

Olimpismo 28-11-2017 20:08
Por João Marreiros
A primeira Maratona Olímpica foi realizada passados 2.386 anos, do feito heroico e remoto do soldado Filípides (530-490 a.C.) na Antiguidade Clássica. Para comemorar essa lenda o historiador, linguista e filósofo francês Michel Bréal (1832-1915), membro da delegação francesa e amigo de Pierre de Coubertin (1863-1937), teve a ideia no Primeiro Congresso Olímpico, realizado de 16 a 23 de Junho de 1894, no anfiteatro da Sorbonne em Paris, de instaurar uma corrida como recordação daquele gesto lendário do soldado Filípides e pensando que não se devia seguir à risca o antigo modelo grego, propôs a realização da prova não prevista nem planeada e que seria o fecho e o apogeu dos primeiros Jogos da Olimpíada unindo-se assim a história moderna e a idade antiga, tendo até sido definido um Troféu de Ouro para o seu vencedor.

A ideia foi aceite com júbilo e em 10 de Abril de 1896, correu-se a primeira Maratona moderna no mesmo percurso que a antiga, desde a planície de Maratonas até ao Estádio Panatenaico, também chamado Calimármaro.

Anteriormente ocorreram duas provas no percurso proposto para os Jogos (Ferreira, 1984). A segunda prova foi oficialmente definida como Maratona de qualificação para os Jogos Olímpicos, com um total de 38 corredores. Curiosamente viria a estar presente um jovem de 24 anos, de nome Spiridon Louis (1873-1940) que alcançou o 17º lugar.
Segundo António Fernandes (2010) no livro “Cem Anos de Maratona em Portugal”, da Editora Xistarca, menciona que perante a ideia dos juízes escolherem os 16 primeiros para a Maratona Olímpica, o major (coronel?) Papadiamantopulos (1810-1898), conhecedor das capacidades atléticas de Spiridon Louis, quando este serviu o exército entre 1893 e 1895, sob o seu comando na companhia militar, fez uma enorme força para que fosse escolhido, como maratonista de invulgares recursos atendendo que provinha de uma cidade, Maroussi, também conhecida por Armareussis, situada a nordeste de Atenas, cujos seus habitantes eram conhecidos pela sua tenacidade.

Assim nos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna foi incluída a corrida evocadora do lendário soldado da Maratona, homenageado com a realização da prova precisamente no próprio percurso desde o campo de batalha em Maratonas até Atenas (Cogan, 1980).

Entre os concorrentes um camponês, com a profissão de guardador de rebanhos, habituado ao silêncio e ao ar finíssimo da montanha, que dias antes da prova via passar pela estrada atletas que se treinavam, perguntou o que faziam e disseram-lhe que se preparavam para a Maratona, imitando-os de seguida.

Uma semana antes da prova, vinte e cinco atletas viajaram para Maratonas para efetuarem a corrida, mas só dezassete começaram a prova entre doze gregos, dois franceses, um australiano, um norte-americano e um húngaro.

Papadiamantopoulos foi o responsável por dar o tiro de partida na prova dos 40 quilómetros junto ao túmulo levantado em Maratonas, recordando os 192 Atenienses mortos pelos Persas.

Começou a provas às duas horas da tarde e teve como vencedor Spiridon Louis, com o tempo de 2:55,20 horas.

O francês Albin Lermusiaux (1874-1940) que ficara na 3ª posição nos 1.500 metros, foi quem marcou ao princípio o andamento e com 22 quilómetros percorridos ia à frente com uma vantagem de três quilómetros e assim se manteve até chegar a uma vertente pronunciada, pouco depois dos 32 quilómetros, tendo sofrido uma cãibra e abandonou.
Comandou então o australiano Edwin Flack (1873-1935), mas antes de efetuar outros 5 quilómetros também não resistiu ao esforço e teve de ser levado para Atenas numa ambulância. Entretanto Spiridon Louis adiantou-se tendo o seu valor como corredor não ter sido muito apreciado, já que deve ter sido muito tentador seguir o ritmo do francês e o de Flack, uma tentação em muitos grandes corredores que desistiram desde logo. Outra vítima da corrida foi norte-americano Artur Blake (1872-1944), segundo nos 1.500 metros, que começou a sofrer alucinações e caiu numa valeta.

Ao chegar à aldeia de Ampelokipi, Spiridon Louis começou a acelerar com descontração, seguido pelo grego Charilaos Vassilakos (1877-1964) e o húngaro Gyula Kellner (1871-1940). Vitoriado por várias pessoas, dirigiu-se para o Estádio cuja multidão grega na maioria, havia sido mantida ao corrente do desenrolar da corrida e desanimada ao princípio quando os estrangeiros tomaram a iniciativa, estava agora a ponto de ver realizado o seu sonho, uma vitória de um atleta grego, sendo uma emoção incrível.

Desistiram sete, um foi desclassificado e nove foram classificados. Somente se conhecem os tempos dos três primeiros tendo o segundo, um grego Charilaos Vasilakos, realizado o tempo de 3:06,03 horas e o terceiro, o húngaro Gyula Kellner, que se treinou especialmente com vistas à Maratona, com mais 32 segundos. Kellner, tinha ficado em 4º lugar, mas protestou junto do júri por ter visto o grego Belokas apear-se de um veiculo o qual não pôde nega-lo.

O conhecimento pormenorizado que tinha do percurso, permitiu-lhe esconder um veículo num dos parques, que depois utilizou. A desclassificação foi automática e a sua camisola com as cores nacionais, azul e branca foi-lhe arrancada e feita em pedaços. Assim Kellner recebeu a medalha de bronze e um relógio de ouro como compensação.

O primeiro classificado, de 1,60 m de estatura, da pequena aldeia de Armareussis, não se tinha treinado para esta corrida, mas ao que se conta, passara o dia inteiro da véspera a rezar, pedindo a Deus, em nome de não se sabe que motivos, que lhe concedesse o alto favor da vitória (Michel, 1964).

Como não tinha roupas de atleta para correr utilizou o trajo grego com que constava de um saiote, camisa de mangas largas e colarinho, colete, coturnos altos e sapatões.

Sessenta e nove mil espectadores encheram o Estádio para assistir à chegada daquela prova e choraram de emoções quando viram entrar à frente um grego que foi recebido com todas as honras. Na sua entrada todo o recinto se achava já num estado de grande excitação sendo o júbilo muito grande quando se viu entrar este atleta em primeiro lugar.
Uma banda a cavalo entrou no Estádio atrás dele e os dois Príncipes reais da Grécia, Constantino e Jorge, ambos com mais de 1,85 metro de estatura, correram ao lado de Spiridon até à linha de chegada sendo aclamado como um herói.

Esperavam o Rei da Sérvia, o grande Duque Miguel, a Arquiduquesa Teresa assim como o Rei George I que da sua tribuna, lhe entregou pessoalmente o troféu de prata que conquistara com 15 cm de altura e não em ouro como previsto anteriormente.

Recebeu prendas de recompensa, dada pelo milionário George Averoff (1815-1899) que lhe ofereceu refeições até ao final da sua vida, bem como de outras pessoas, um vale de 365 refeições gratuitas, serviço de engraxamento de sapatos por toda a vida, um lote de terreno, dinheiro, joias que as mulheres lhe lançavam, assim como barba feita para o resto da vida pelos barbeiros da região.

Segundo Fernandes (2010), foi escorraçado do Movimento Olímpico, pois Coubertin era intransigente quanto ao amadorismo. De facto, não é de estranhar que devido ao decreto sobre profissionalismo de Coubertin, Spiridon Louis, nunca mais voltou a competir.

Este jovem modesto esteve ausente de noticiários da imprensa por muitos anos, nunca mais correu após a sua vitória olímpica, levando uma vida de prática de agricultura e posteriormente como oficial da polícia.

A sua última aparição em público foi nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, já com a idade de 63 anos. Foi o porta-bandeira da Grécia na Cerimónia de Abertura, quando do desfile das missões participantes e ainda andou com a chama olímpica no estádio.

Foi recebido por Adolfo Hitler (1889-1945) e entregou-lhe um ramo de oliveira de Olímpia, simbolizando a paz. Faleceu a 27 de Março do ano de 1940.

Charles Maurras (1868-1952), jornalista e poeta monarquista francês, inimigo declarado dos Jogos, voltou-se para o Barão Pierre de Coubertin, debaixo da emoção daquele momento da chegada e disse-lhe: “Vejo que o seu internacionalismo no desporto não mata o espírito nacional, mas reforça-o”. Por obra daquela única vitória grega, na prova da Maratona, desapareceu a oposição aos Jogos.

O nome do vencedor da primeira Maratona Olímpica é usado em Portugal associado à mais antiga revista desportiva (Spiridon) dedicada à corrida, cujo primeiro número saiu em Novembro de 1978 do século passado, e conta já com 234 números saídos em 39 anos e mais de 10.000 páginas editadas de artigos de grande interesse sendo o “treinador pessoal” de muitos que praticam a corrida com prazer.

João Marreiros é Professor Auxiliar no Ensino Universitário.

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