Este é o Desporto em que mais acredito (artigo de Manuel Sérgio, 293)

Espaço Universidade 19-05-2019 18:01
Por Manuel Sérgio

Também concorre ao aperfeiçoamento das características psicológicas, emocionais e éticas de todas as idades e de cada um dos sexos. Nada esquece na motricidade humana, sob o ponto de vista biológico, funcional e do anseio inapagável de transcendência. Pretende dar, de facto, ao praticante força, velocidade, “endurance”, resistência, coordenação e… saudáveis hábitos de vida. Não se limita a concorrer ao surgimento de “bestas esplêndidas”, ou mesmo animais racionais com impecável coordenação neuromotora. É mais ambicioso: quer ser um fator de transformação das estruturas sociais e políticas, porque rejeita um Desporto centrado unicamente no êxito e portanto onde tudo vale, principalmente a corrupção; porque se afasta do “panem et circenses” das turbas massificadas e alienadas; porque exige regras precisas, igualdade de oportunidades e quer ser um meio de o Homem se exercitar na construção de um mundo mais justo e mais fraterno.

 

Este é o Desporto em que mais acredito. Conserva intacta a função biomédica da prática desportiva. Mas acredita firmemente que tem, igualmente, uma função profundamente educativa, na e para além da Escola, por outras palavras: que se situa na esfera da responsabilidade social. E, porque se situa na esfera da responsabilidade social, acredita no espetáculo desportivo, sem o bramido convulso de um clubismo ou de um regionalismo cegos, sem corrupção, sem violência, sem ódio, embora cultivando convictamente a capacidade de esforço, de bravura, de sacrifício, em prol de um ideal que procure responder às cinco grandes interrogações que iniciam o livro O Princípio Esperança, de Ernst Bloch: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Que esperamos? O que nos espera?... No espetáculo desportivo deve ressoar, ressuscitar o idealismo competitivo de todos os que lutam por um mundo, sem o império de um economicismo que já se confunde com a globalização.

 

Este é o Desporto em que mais acredito. Pode não ostentar, em gestos orantes, os melhores jogadores e atletas do mundo; pode não ter a forma corporal de uma epopeia; pode não ter por si estádios monumentais, ginásios e centros de treino com as últimas invenções da tecnologia; pode não ser notícia nas primeiras páginas dos jornais, ou nas redes sociais, ou na rádio, ou na televisão – mas tudo considera instrumental, em relação ao ser humano. Tudo! Sem esquecer o treino e a competição e a medicina e a psicologia do Desporto. Jean-Paul Sartre chegou a escrever que “o inferno são os outros”. O Desporto, em que mais acredito, como um dos aspetos da motricidade humana, ensina, ao contrário do “pai” do existencialismo francês, que o Inferno é a ausência dos outros e que o outro não é uma coisa, entre as coisas, mas sujeito, com a sageza e a força suficientes, para questionar o poder e levantar problemas e escolher objetivos e tomar consciência de si mesmo, como criador.

 

Este é o Desporto em que mais acredito. Não se limita ao estudo e à prática das aptidões físicas, das qualidades físicas, das habilidades físicas, dos desempenhos unicamente físicos. E sabe que o conhecimento, como a obra de arte, não se resume a um reflexo da realidade, à descoberta de um sentido que já existisse escondido nas coisas, mas ao ato de atribuir um sentido às próprias coisas. Daí, o sentido que ouso dar, hoje, dia 18 de Maio de 2019, à 37ª. vitória do Benfica no Nacional de Futebol da Primeira Divisão: que do desporto de alto nível nasça um homem novo com estas duas características inalienáveis: um militante da revolta contra todas as alienações (com forte componente da desconstrução propugnada por Derrida); um poeta da criação de um mundo diferente, onde o conhecimento-emancipação se concretize num mundo em vias de emancipar-se. E que também a Quarta Revolução Industrial não se esgote na tecnologia e no digital, mas que assuma, sem receio, aqueles valores, sem os quais impossível se torna viver humanamente.

 

O desporto que reproduz e multiplica as taras da sociedade capitalista (amplamente visíveis também no Capitalismo de Estado, mascarado de Socialismo, que por aí sobrevive e vegeta e… oprime) ainda não se converteu num humanismo planetário, respeitador do vínculo indissolúvel entre a unidade e a diversidade humanas. O seu crescimento vem acompanhado de novas corrupções, da sede imparável do lucro, da incompreensão do outro, do mais exacerbado individualismo. O desenvolvimento (desportivo e não só) que oferecemos aos povos subdesenvolvidos tornou-se no nosso maior problema. Sociedades fundadas sobre o marcado e a concorrência resultam inevitavelmente em fragmentação, em atomização. O Desporto em que mais acredito apela às capacidades criativas da humanidade, para que do seu exercício desponte uma outra História que deve ser imediatamente pensada, porque ainda está por nascer.

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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