«A Rosa é mais importante do que qualquer governo»

Atletismo 09-10-2019 08:02
Por Célia Lourenço

Dia de maratona em Belém. No Palácio de Belém, com a receção de Marcelo Rebelo de Sousa aos líderes dos partidos sufragados nas eleições de domingo. Outra, na porta ao lado, no suntuoso salão do Antigo Picadeiro Real, onde Rosa Mota foi a primeira convidada do programa Desportistas no Palácio, para dar lição a mais de 250 alunos de oito escolas do País sobre a carreira. Tratando-se da campeã olímpica da maratona dos Jogos de Seul de 1988, a entrada não podia ser de outra maneira que não a correr. Não os 42.125 km, claro, mas para colocar o microfone da aula encetada com a entrada do Presidente da República por entre os coches e berlindas que ainda enriquecem o acervo do antigo Museu dos Coches.


«A Rosa Mota é mais importante do que todos os governos de Portugal. Os que foram, os que são e que hão de ser e de todos os presidentes», elogiou o Chefe de Estado antes de sair, uma hora depois de ter sido mais um dos alunos da professora Rosa, «símbolo do que há de melhor no País, porque tem uma visão mundial de fraternidade e diálogo», justificou o Presidente da República, recordando como a viu cortar a meta no estádio olímpico de Seul para «projetar Portugal no mundo», tornando-se na primeira portuguesa campeã olímpica, quatro anos depois de ter arrecadado o bronze em Los Angeles, no ano de glória de Carlos Lopes.


Com o mesmo «ar de menina», que nem as marcas dos 61 anos conseguem atenuar, a portuense recuou a 1981 e ao início da caminhada recorde de seis vitórias na São Silvestre de São Paulo. «Este filme estava na arca. Foi a minha primeira grande vitória internacional. Ali perguntavam-me se corria por amor ou dinheiro. Definitivamente por amor», salientou Rosa, depressa voando a 1982, à estreia na maratona de Atenas e ao ouro no Europeu, o primeiro de três. «Estas imagens estão dentro de mim», admitiu após novo vídeo de sucessos. «Foi em Atenas que me tornei maratonista. Pela primeira vez os campeonatos incluíam a maratona feminina, foi lá que se realizaram os primeiros Jogos Olímpicos. Era a altura certa para começar. O percurso era difícil, com pedras e terra. Comecei no grupo de trás, à meia estava no segundo grupo e aos 30 no da frente. Aos 40 km sentia-me bem e comecei a andar mais rápido. Entrei naquele estádio lindo orgulhosa por ser a primeira portuguesa a ganhar a medalha, quando em Portugal as mulheres não podiam correr maratonas. As coisas começaram a mudar aí», refletiu a pioneira sobre o seu sucesso «mais especial», apenas rivalizando com a medalha de ouro olímpica. «Era o grande título que me faltava. Já tinha a medalha de bronze. A de Atenas abriu um ciclo, a de Seul fechou-o», admitiu quem ainda corre «por prazer e solidariedade» e, ontem, proporcionou uma tarde diferente a um grupo de jovens que não a largaram para uma selfie e um abraço com a campeã que, por um dia, foi professora.

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