O meu diário na Indonésia (Dia1)

Surf 04-07-2019 23:48
Por João Kopke

E é de volta a casa, depois do último exame, algures na reta final de maio, que olho para as praias cheias, que começam em Paço de Arcos e terminam na baía de Cascais, e começo a sentir um pequeno nervoso.

 

Parece que, de repente, como se um qualquer relógio biológico mandasse, ou porque as stories do Instagram assim o obrigam, a grande Lisboa flui, inteira, como um rio de gente, pelos caminhos de ferro da cidade até à linha. Especificamente, para Carcavelos que, no Inverno, é só de uns poucos corajosos vestidos de negro e de borracha.

 

Eu adoro o verão, mas só o adoro para os outros.

Que venham os Santos Populares, a risota e a sardinha, os pés salgados do mar e as pessoas brancas, quase verdes, com a pele morena por uns meses.

 

Mas eu cá sinto sempre um vazio quando saio pela porta de casa e sinto o bafo do julho ou do agosto, com as suas praias sem ondas e lugares para parar o carro e, sobretudo, com o tempo a mais que me entedia até à medula.
 

Por um lado, a vida deu-me o azar de ser um bicho impaciente que só está bem quando está mesmo bem e a fazer muitas coisas. Não há nada mais banalmente aterrador do que duas semanas em agosto sem planos, com todos os amigos espalhados por aí e sem possibilidade sequer de obter respostas a emails de trabalho, porque a malta está no

Algarve com os filhos.

 

Mas, por outro, a vida atirou-me de para-quedas para o surf, cedo o suficiente para que eu possa, no tremendo agosto, pegar em mim e arrancar para um lugar qualquer.

 

Eu já não gosto deste verão de cá há muito tempo e também há muito tempo percebi que, para fugir ao blues dos trinta e cinco graus, tinha de me pôr a andar e voltar lá para setembro. Interrails, acampamentos infinitos pelas praias e ilhas da Europa e, claro, viagens de surf.
 

O ano passado, foi o México por quase um mês. Mas, se o fugir daqui era um pouco para fugir da confusão, chegado a Puerto Escondido, uma das praias que mais surfistas já levou para outra vida, descobri que fugir de um caos para outro igual frustrava tanto quanto as nortadas do Guincho.

 

Com a diferença de que, ali, os tacos sabiam melhor do que no Bairro Alto.

 

Por isso, este ano, decidimos ir para a Indonésia.

E agora o leitor letrado em surf dá uma gargalhada, com pena de nós.

A Indonésia é, por esta altura, um dos destinos mais concorridos para todo o tipo de deslizantes marinhos. Logo, imaginar que fugir da confusão é ir para a Indonésia, e aquela que é a sua imagem convencional, seria a maior das ingenuidades.

Só que eu e a minha malta não vamos para essa Indonésia em que estão a pensar. Vamos para Krui, uma zona que tem estado dentro e fora do mapa surfístico há muito tempo mas que, com as suas ondas incríveis, tigres, dragões de Komodo - e sei lá que mais aventuras que nos possam ‘comer’ nesta viagem -  saciam a fome de surfar e fugir daqui aqueles que estão dispostos a fazer 36 horas de viagem para lá chegar.

 

No portão de embarque, dia 4 de julho, estarão três surfistas, um videógrafo, cerca de vinte e cinco pranchas de surf, pelo menos três máquinas fotográficas e talvez uma ou duas namoradas que ficarão em terra. Terão de se aguentar à impossibilidade de ir passar uns dias ao Carvalhal com os seus amores que dispensarão apenas uns minutos cansados ao fim do dia, caso haja rede, para enviar uns bonecos de corações do outro lado do mundo, e pouco mais.

 

Poder-me-ia alongar e antever um pouco mais. Mas, depois de tantos quilómetros em esteiras rolantes de um terminal para o outro, aprendi a respirar fundo antes de me fazer à pista. Nunca se sabe quando as pranchas não chegam, quando uma bactéria nos ataca a barriga ou quando partimos uma perna e a viagem termina mais cedo, num hospital cheio de pessoas de olhos puxados. Também nunca se sabe quando uma viagem é o que chamamos «a viagem das nossas vidas» porque fizemos mergulho com um tubarão martelo, visitámos um templo budista que nos levou ao nirvana ou conhecemos uma senhorita interessante.
 

Mas vou estar por aqui e pelas redes sociais para ir contando tudo, talvez do paraíso, talvez do inferno debaixo de uma palmeira. Falta só fazer as malas.

Até já!

 

 
 

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