O desporto carrega em si o peso da sociedade (Artigo Vítor Rosa, 197)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 15-05-22 10:57
Por Vítor Rosa

O desporto carrega em si o peso da sociedade. Ele é o povo. É como um holograma da sociedade, mas também da sua singularidade e especificidade: o perigo de degeneração em violência é controlado pelo árbitro. É como a democracia controlada pelo voto.

Inspirando-se em Max Weber, Allen Guttmann, na década de 1970, desenvolveu a hipótese da génese do desporto como uma forma de racionalização da vida social no mundo industrial, mas sob o impulso do protestantismo. Ou seja, o desporto era um produto da ética protestante. Gutmann carateriza os desportos modernos através de sete critérios: o caráter secular, igualitário, especializado, racional, burocrático, quantificado e a obtenção dos records. Norbert Elias e Eric Dunning chamam a atenção para a lenta transformação dos jogos físicos desde a Idade Média até à época contemporânea. A violência é atenuada e insere-se no processo geral de pacificação da vida social. Isto opera-se com a formação dos Estados modernos, em que o uso da violência é monopolizado pelas forças militares e de segurança. A teoria de Elias compreende uma dimensão psicológica.

Atualmente, o desporto constitui uma forma de instituição internacional. As razões que lhe são acordadas são múltiplas: fonte de emprego, suporte de identificação coletiva, vetor de integração social, fonte de saúde, matéria de educação, etc. Adquiriu uma extensão e uma ressonância que suscitam adesões entusiastas. Mas também reações críticas, visando o excesso de poder das autoridades sobre os jovens atletas. O desporto capta recursos públicos e as estatísticas globais escondem a diferenciação social. As modalidades desportivas de lazer não têm o mesmo recrutamento social que as modalidades desportivas praticadas em competição. No ténis, quanto mais caminha para a competição, mais o recrutamento é burguês. No ciclismo é o inverso. Se a prática desportiva varia segundo a categoria social, ela também se altera segundo o género e a região de habitação. O desporto está destinado a hierarquizar os praticantes. A partir da noção de igualdade, ou seja, as mesmas condições para todos os concorrentes à partida, ele fabrica a desigualdade, o resultado.

Como a política, os negócios ou o cinema, o desporto preenche várias funções simbólicas e (re)produz as comunidades de pertença, de excelência individual e de sucesso. É o que se pretende nas sociedades.

Vítor Rosa

Sociólogo, Pós-Doutorado em Sociologia e em Ciências do Desporto, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática.